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| Jardim de Maitreya; Entrada da Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Goiás. Foto tirada por Teoneto em 20 de dezembro de 2012, 08:31:58. |
- BIOMA: Savana
- ÁREA: 2.045 064 km²
- PAÍS(ES): Brasil
- CONTINENTE: América do Sul
Cerrado é bioma brasileiro de savanas, sendo o segundo maior em extensão territorial depois da Amazônia, ocupando uma área de mais de dois milhões de quilômetros quadrados. O termo "cerrado" pode ser utiilizado em três sentidos: O primeiro, a "fisionomia do cerrado sensu stricto" é uma das fisionomias do bioma savana e parte da província florística cerrado sensu lato.
Em segundo, a "província do cerrado sensu lato" é uma província florística ou fitogeográfica — também chamada tipo vegetacional ou fitocório, que é um conceito florístico, que leva em conta a composição dos grupos taxonômicos das plantas de uma comunidade, (isto é, a flora) e biogeográfica (ao se incluir também a fauna). Corresponde à província Oreades de Martius. É composto por três biomas (que é um conceito fisionômico-funcional, e que apesar de englobar tanto as plantas quanto os animais e microrganismos de uma comunidade, na prática, se define pelo clima e pela fisionomia ou aparência geral das plantas da comunidade, isto é, pelo "tipo de formação vegetacional" - não confundir com o conceito florístico de "tipo vegetacional" - embora certos autores usem esta expressão para se referir a fisionomias) e seis fisionomias (subtipos de bioma ou de formação vegetacional): o bioma campo tropical (fisionomia campo limpo), o bioma savana (fisionomias campo sujo, campo cerrado e cerrado sensu stricto) e o bioma floresta estacional (fisionomia cerradão).
Em terceiro, o "domínio do cerrado" se refere a um domínio morfoclimático e fitogeográfico (área do espaço geográfico, com dimensões subcontinentais, em que predominam características morfoclimáticas - de clima e relevo - semelhantes, além de uma província florística (tipo vegetacional) predominante, podendo, entretanto, conter vários tipos de formações (como a floresta ripícola, o campo rupícola, o Cerradão, a floresta estacional decídua, o campo úmido, a mata ciliar, mata de galeria, mata seca, palmeiral, vereda e campo rupestre), algumas pertencentes a outras províncias florísticas (como a Mata Atlântica).
CARACTERÍSTICAS
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| Hidrografia do Cerrado. Imagem feita por Leovigildo Santos em 7 de maio de 2015. |
O domínio apresenta variações fitofisionômicas ao longo de sua extensão. É uma área zonal, como as savanas da África, e predomina, majoritariamente, no Planalto Central.
Trata-se do segundo maios domínio fitogeográfico em extensão, estendendo-se, em sua área core ou nuclear, por um território de 1,5 milhão de km², abrangendo quatro estados do Brasil Central (Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Distrito Federal), além de Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Tocantins, Bahia, Maranhão e Piauí. Incluindo-se as áreas periféricas/disjuntas, este valor pode ultrapassar 2 milhões de km². Essas áreas disjuntas podem ser encontradas em meio a outros domínios, tais como Amazônia, nos estados de Amapá, Roraima e Pará, e Caatinga, em alguns locais do Ceará, Paraíba e Pernambuco. Além disso, há manchas de Cerrado no estado do Paraná, um pouco abaixo do trópico de Capricórnio.
É cortado por três das maiores bacias hidrográficas da América do Sul, tem índices pluviométricos regulares que lhe propiciam sua grande biodiversidade. O Cerrado possui duas classificações principais: o Cerrado stricto sensu, que abrange as formações savânicas; e o Cerrado lato sensu, que engloba formações florestais e campestres. O Cerrado stricto sensu cobre a maior parte do domínio, e está representado pelas formações de cerrado ralo, típico e denso, parque de cerrado, palmeiral e vereda. Por outro lado, as formações florestais engloba os cerradões, as matas ciliares e de galeria, e as matas secas; enquanto as campestres exibem campos sujos e limpos e os campos rupestres.
Clima: O clima do Cerrado é classificado predominantemente como Aw (tropical chuvoso) na Classificação climática de Köppen-Geiger, com áreas de clima Cwa ao sul do bioma, condicionado não somente por sua localização no centro da América do Sul, mas pela dinâmica dos sistemas atmosféricos que atuam no continente sul-americano e que podem ser positivos, como os centros de alta pressão subtropicais do Atlântico Norte, do Atlântico Sul e do Pacífico Sul, das altas pressões polares, ou negativos, como as depressões amazônicas e do Chaco. A dinâmica positiva manifesta-se através de anticiclones, que são massas de ar de origem oceânica e que se deslocam sobre o continente; estas massas sofrem influência dos centros negativos, que se formam no continente.
O anticiclone do Atlântico Sul é impulsionado pelos ventos alísios, do oceano para o interior do continente, de leste para oeste; também conhecido como Zona de convergência do Atlântico Sul (ZCAS), é um dos principais responsáveis pela determinação do regime de chuvas do Cerrado, e alcança sua máxima intensidade durante o verão. Em conjunção com a Zona de convergência intertropical (originada na região amazônica) ou com a Alta da Bolívia, forma uma faixa contínua de nebulosidade que se estende no sentido noroeste-sudeste e provoca períodos prolongados de precipitação pluviométrica nos meses de novembro a março, com o auge sendo atingido de dezembro a fevereiro.
Sistemas frontais, também chamados de frentes frias, atravessam a região ao longo de todo o ano, mas com maior frequência no inverno. Tem sua origem no oceano Pacífico (atravessando a Argentina e os Andes e interagindo com a convecção tropical à altura do equador) ou no polo sul (massa polar atlântica), o que favorece a estiagem no inverno e chuvas frontais na primavera-verão.
A ação destes sistemas dá ao Cerrado suas características climáticas peculiares, com duas estações bem definidas: a chuvosa, que vai de setembro ou outubro e se estende até março ou abril, e a seca, que dura de abril ou maio até setembro ou outubro, nos quais as chuvas são drasticamente reduzidas. Este déficit hídrico é importante do ponto de vista da atividade agrícola, visto que o Cerrado não oferece muitas opções para suprir o uso intensivo de irrigação. Em relação à precipitação média anual, os índices variam de 400 mm a 600 mm no centro-sul do Piauí e no Vale do Jequitinhonha (Minas Gerais), podendo atingir 2.000 mm a 2.200 mm ao avançar de leste para oeste, com regiões do Tocantins atingindo até 2.400 mm. Todavia, mesmo durante a estação chuvosa, o Cerrado pode ser atingido pelo fenômeno do "veranico", o qual, se ocorrer no mês de janeiro, causa impacto negativo nas culturas de grãos (por estarem em época de floração).
Em relação às temperaturas, estas são mais altas no sentido sul-norte do bioma, atingindo médias anuais entre 23° C e 27° C no sul do Maranhão e Piauí, e no sudoeste da Bahia. Na parte centro-sul do Cerrado (Goiás, Minas e Mato Grosso do Sul), as temperaturas mínimas variam entre 18° C e 22° C. As temperaturas médias máximas estão entre 24° C e 33° C, e as mínimas entre 16° C e 20° C.
Recursos hídricos: Segundo maior bioma do Brasil, ocupando cerca de 204 milhões de hectares e 24% do território nacional, o Cerrado é o local de origem de grandes bacias hidrográficas brasileiras e da América do Sul. Recebem contribuição das águas do Cerrado, os rios Xingu, Madeira e Trombetas na Bacia Amazônica, ao norte; os rios Araguaia e Tocantins, na Bacia do Tocantins; os rios Parnaíba e Itapecuru, na Bacia Atlântico Norte/Nordeste; os rios São Francisco, Pará, Paraopeba, das Velhas, Jequitaí, Paracatu, Urucuia, Carinhanha, Corrente e Grande, na Bacia do São Francisco; rios Paranaíba, Grande, Sucuriú, Verde, Pardo, Cuiabá, São Lourenço, Taquari e Aquidauana, na Bacia Paraná/Paraguai. O bioma contribui assim para a produção hídrica de seis das oito principais bacias brasileiras (ficando de fora apenas as bacias do Atlântico Sul/Sudeste e do rio Uruguai), conforme definição do extinto Departamento Nacional de Águas e Energia Elétrica (DNAEE). No caso específico da Bacia do São Francisco, Minas Gerais responde por cerca de 70% da vazão gerada ao longo do seu curso e por 94% da vazão em sua foz.
De acordo com a nova Divisão Hidrográfica Nacional, aprovada pela Resolução n° 32 de 15 de outubro de 2003, o Brasil conta agora com 12 regiões hidrográficas, estando o Cerrado presente em oito delas. As principais mudanças em relação à divisão feita pelo DNAEE, estão na separação das bacias do Paraná, Paraguai e Parnaíba, bem como nas bacias que desaguam diretamente no oceano Atlântico.
Gestão dos recursos hídricos: Embora seja uma área de nascentes (ou talvez exatamente por isso), a concentração de atividades agrícolas em determinadas regiões do Cerrado tem provocado conflitos pelo uso da água: uma área de 100 hectares irrigados pode consumir tanta água quanto uma cidade de 10 mil habitantes. Num estado como Rondônia, por exemplo, a área irrigada cresceu 115,06% ao ano em fins do século passado, passando de 100 hectares em 1996 para 4.600 hectares em 2001. Todavia, apesar desse incremento impressionante, a área irrigada ainda era considerada irrisória em comparação com estados como Bahia, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Piauí, onde a agricultura irrigada cresceu a um ritmo duas vezes maior do que a média nacional entre 1996 e 2002, indicando o rápido desenvolvimento desta fronteira agrícola.
O baixo preço das terras no Centro-Oeste foi um dos principais fatores de atração para produtores rurais, principalmente do Sul do Brasil, a partir da década de 1970. Políticas públicas do governo federal transformaram uma região antes dominada pela pecuária de baixa produtividade em peça-chave da produção de commodities, a nível nacional e internacional. Um dos programas que viabilizaram essa transformação foi o Programa de Desenvolvimento dos Cerrados (Polocentro), vigente entre 1975 e 1984, e que centrava sua ação no financiamento de infraestrutura (estradas, armazéns etc), pesquisa agropecuária e crédito rural. A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e as Empresas de Assistência Técnica e Extensão Rural (EMATER), funcionando no âmbito do Polocentro, modernizaram a agricultura brasileira e a tornaram competitiva internacionalmente.
Toda essa rápida expansão da fronteira agrícola no Centro-Oeste (a densidade demográfica passou de 2,88 habitante por km² para 8,75 hab/km² entre 1970 e 2010) também impactou negativamente os recursos hídricos do Cerrado, com poluição de cursos d'água (como na Região Metropolitana de Belo Horizonte), baixos índices de coleta e tratamento de esgoto e assoreamento de rios. Antes mesmo da assinatura do Acordo de Paris em 2015 e do compromisso em reduzir suas emissões de GEE em 43% até 2030, o Brasil já havia implementado o Plano ABC, que vigorou entre 2010 e 2020 e foi continuado pelo ABC+, e que entre seus objetivos inclui a redução dos impactos ambientais e do desmatamento, bem como a adoção de estratégias que permitam aumentar a produção agropecuária otimizando o uso dos recursos naturais.
Do ponto de vista da gestão de recursos hídricos, o Brasil passou do Código de Águas de 1934 para a Lei nº 9.433, de 8 de janeiro de 1997, a Lei das Águas do Brasil, que instituiu a Política Nacional de Recursos Hídricos (PNRH) e motivou a criação de leis federais e estaduais para a gestão das águas em território nacional. Segundo o PNRH, a água é "um bem de domínio público, limitado e dotado de valor econômico", o qual, em situações de escassez, deve ser direcionado prioritamente para o "consumo humano e a dessedentação animal". No âmbito estadual, há leis que impactam a utilização dos recursos hídricos no bioma Cerrado, como a Lei das Águas de Minas Gerais de 1999, a Lei Estadual de Recursos Hídricos da Bahia (1995), a Política de Recursos Hídricos do Estado de Goiás (1997), o Sistema de Gerenciamento dos Recursos Hídricos do Distrito Federal (2001), a Lei das Águas do Mato Grosso (1997), o Sistema Estadual de Gerenciamento de Recursos Hídricos do Mato Grosso do Sul (2002), a Política Estadual de Recursos Hídricos do Tocantins (2002), o Sistema de Gerenciamento e do Fundo de Recursos Hídricos do Estado de Rondônia (2002), o Sistema de Gerenciamento Integrado de Recursos Hídricos do Maranhão (2004) e o Sistema de Gerenciamento dos Recursos Hídricos do Piauí (2000).
Solos: Do ponto de vista da pedologia, os latossolos, altamente permeáveis, compõe cerca de 48,66% das terras do Cerrado, ostentando topografia plana a suave-ondulada. Por ser predominante, apresenta maior biodiversidade, o que justifica a criação neles de unidades de conservação, não somente para evitar o risco de extinção de espécies nativas, mas também pela preservação de vegetais que podem possuir valor alimentício, medicinal e comercial. Os latossolos devem ter um manejo adequado, pois quando expostos à chuva pelo desmatamento indiscriminado, podem provocar o surgimento de sulcos e voçorocas, além de assorear os cursos d'água.
Outro importante solo do Cerrado, é o neossolo quartzarênico, que ocupa cerca de 15% do bioma. São solos arenosos, e portanto, muito suscetíveis à erosão. Se estiverem adjacentes a mananciais, devem ser necessariamente isolados e preservados.
Os argissolos vêm em terceiro lugar, com cerca de 13,66% das terras do bioma. São fortemente atingidos pela remoção da cobertura vegetal, o que pode acarretar em sérios problemas de erosão.
Outros tipos de solo, com menor participação na área total, são o nitossolo vermelho, cambissolo, plintossolo, neossolo litólico e gleissolo háplico e melânico.
Vegetação: Martius (1824), embora não tenha proposto um sistema formal, descreve vários tipos de vegetação presentes no atual domínio do Cerrado.
Warming (1892), em seu trabalho em Lagoa Santa, usa uma terminologia que seria formalizada por Löfgren (1898). Este é creditado como o primeiro a usar formalmente o termo "cerrado" no sentido fisionômico atual (cerrado sensu stricto), além de elaborar um sistema de tipos de vegetação para a Oreades (futuro cerrado sensu lato).
- Cerradão ou Caatanduva
- Cerrado propriamente dito
- Campo cerrado ou Caatininga
- Campo Limpo
Formações (subtipos de vegetação) do cerrado (sensu lato), segundo Coutinho (1978):
- Formação campestres: Campos limpos
- Formações savânicas ecotonais (de transição): Campos sujos, Campos cerrados e Cerrados sensu stricto
- Formação florestal: Cerradões
Fitofisionomias presentes no "bioma" (domínio) cerrado, segundo Ribeiro & Walter (1998):
- Florestas:
- Mata Ciliar
- Mata de Galeria (não Inundável, Inundável)
- Mata Seca (Sempre-Verde, Semidecídua, Decídua)
- Cerradão (Mesotrófico, Distrófico)
- Savanas:
- Cerrado sentido restrito (Denso, Típico, Ralo, Rupestre)
- Parque de Cerrado
- Palmeiral (Babaçual, Buritizal, Guerobal, Macaubal)
- Vereda
- Campos:
- Campo Sujo (Seco, Úmido, com Murundus)
- Campo Limpo (Seco, Úmido, com Murundus)
- Campo Rupestre
Entretanto, deve-se notar que alguns autores (ex., Ribeiro & Walter, 1998) não incluem o campo limpo no cerrado enquanto área fitogeográfica (cerrado sensu lato).
Arruda et al. (2008) identificaram 22 ecorregiões no bioma Cerrado, de acordo com aspectos biogeográficos e ecológicos, a fim de servir como referência para o planejamento ambiental: Alto Parnaíba, Araguaia Tocantins, Bananal, Bico do Papagaio, Chapadão do São Francisco, Chiquitania, Complexo Bodoquena, Depressão Cuiabana, Depressão do Parnaguá, Grão-Mogol, Jequitinhonha, Paracatu, Paraná- Guimarães, Paranaíba, Paranapanema Grande, Parecis, Planalto Central Goiano, Província Serrana, São Francisco-Velhas, Serra da Canastra, Serra do Cipó e Vão do Paranã.
Tipos de vegetação presentes na "região florística do Brasil central" (província do cerrado), segundo o IBGE (2012):
savana
floresta estacional semidecidual
floresta estacional decidual
Tipos de "savana" (entendida neste esquema como sinônimo de cerrado sensu lato) de acordo com o IBGE (2012), com nomes regionais entre parênteses:[32]
Subgrupo de formação: Savana (Cerrado)
Formação: Savana Florestada (Cerradão)
Formação: Savana Arborizada (Campo Cerrado, Cerrado Ralo, Cerrado Típico e Cerrado Denso)
Formação: Savana Parque (Campo-Sujo-de-Cerrado, Cerrado-de-Pantanal, Campo-de-Murundus ou Covoal e Campo Rupestre)
Formação: Savana Gramíneo-Lenhosa (Campo-Limpo-de-Cerrado)
Flora: Até o momento, a flora conhecida do Cerrado revela uma elevada riqueza e diversidade, com altos índices de endemismo. Atualmente, estão catalogadas 14.129 espécies de angiospermas, das quais 7.578 são endêmicas (aprox. 53% do total). Esse alto número de espécies endêmicas, associado a intensas e constantes ameaças, permite a classificação do Cerrado como hotspot de biodiversidade.
A composição florística dos cerrados, com seus respectivos hábitos e formas de vida predominantes, também variam segundo a fitofisionomia. Nas formações florestais, por exemplo, predominam espécies lenhosas, de forma de vida fanerofítica, que mantêm suas gemas de crescimento acima de 50 cm do solo. Já em áreas de Cerrado stricto sensu prevalecem hemicriptófitos, representados por ervas e subarbustos cujas gemas estão próximas ao nível do solo.
A distribuição dessa flora tem sido amplamente estudada. Pesquisas com pólen indicam que, durante o período glacial, o domínio funcionou como um corredor ecológico entre as florestas Amazônica e Atlântica. Outros estudos revelam uma mistura de plantas típicas da Amazônia e da Mata Atlântica com espécies do Cerrado nas zonas de Mata Ciliar e Mata Seca, além de um gradiente florístico atlântico-amazônico na direção sudeste-noroeste do Cerrado, onde a similaridade entre as espécies diminui conforme se afasta da região central.
A partir da flora, foi possível identificar três supercentros de diversidade para o Cerrado: Sudeste Meridional, Planalto Central e Nordeste. Cada um desses supercentros apresenta identidade florística própria. Entretanto, é possível notar a presença de espécies vegetais comuns, amplamente distribuídas por toda a extensão do domínio. Trata-me das espécies "oligárquicas" ou "dominantes", que são utilizadas para identificar a influência do Cerrado numa determinada área e auxiliam na identificação de áreas disjuntas.
Provavelmente, cerca de 800 espécies de árvores são encontradas no Cerrado. Entre as famílias de árvores mais diversas no Cerrado estão as Leguminosae (153 spp.), Malpighiaceae (46), Myrtaceae (43), Melastomataceae (32) e Rubiaceae (30). Grande parte do Cerrado é dominada pela família Vochysiaceae (23 espécies no Cerrado) devido à abundância de três espécies do gênero Qualea. A camada herbácea atinge geralmente cerca de 60 cm de altura e é composta principalmente pelas Poaceae, Cyperaceae, Leguminosae, Compositae, Myrtaceae e Rubiaceae. Grande parte da vegetação nas matas de galeria é semelhante à floresta tropical próxima; no entanto, existem algumas espécies endêmicas encontradas apenas nas matas de galeria do Cerrado.
A fertilidade do solo, o regime de incêndios e a hidrologia são considerados os fatores mais influentes na determinação da vegetação do Cerrado. Os solos do Cerrado são sempre bem drenados e a maioria são oxissolos com baixo pH e baixo teor de cálcio e magnésio. A quantidade de potássio, nitrogênio e fósforo tem se mostrado positivamente correlacionada com a área basal do tronco das árvores em habitats do Cerrado. Assim como em outros campos e savanas, o fogo é importante para a manutenção e a formação da paisagem do Cerrado; muitas plantas do Cerrado são adaptadas ao fogo, exibindo características como casca grossa e suberosa para suportar o calor.
Acredita-se que a vegetação do Cerrado seja ancestral, remontando talvez ao Cretáceo, antes da separação entre a África e a América do Sul, em sua forma prototípica. Uma dinâmica de expansão e contração entre o Cerrado e a floresta amazônica provavelmente ocorreu historicamente, com a expansão do Cerrado durante períodos glaciais como o Pleistoceno. Esses processos e a consequente fragmentação em múltiplos refúgios provavelmente contribuíram para a alta riqueza de espécies tanto do Cerrado quanto da floresta amazônica.
Espécies comuns no Cerrado: A vegetação do Cerrado apresenta diversas paisagens florísticas diferenciadas, como os brejos, os campos alagados, os campos altos, os remanescentes de mata atlântica. Mas as fitopaisagens predominantes são aquelas dos Cerrados, como o cerrado típico, o cerradão e as veredas. Nestas, há desde palmeiras, como:
babaçu (Orbignya phalerata), bacuri (Platonia insignis), brejaúba (Toxophoenix aculeatissima), buriti (Mauritia flexuosa), guariroba (Syagrus oleracea), jussara (Euterpe edulis) e macaúba (Acrocomia aculeata).
Até plantas frutíferas como:
araticum-do-cerrado (Annona crassiflora), araçá (Psidium cattleianum), araçá-boi (Eugenia stipitata), araçá-da-mata (Myrcia glabra), araçá-roxo (Psidium myrtoides), bacuri (Scheelea phalerata), bacupari (Rheedia gardneriana), baru (Dipteryx alata), café-de-bugre (Cordia ecalyculata), figueira (Ficus guaranítica), lobeira (Solanum lycocarpum), jabuticaba (Myrciaria trunciflora), jatobá (Hymenaea courbaril), marmelinho (Diospyros inconstans), pequi (Caryocar brasiliense), goiaba (Psidium guajava), gravatá (Bromeliaceae), marmeleiro (Croton alagoensis), jenipapo (Genipa americana), ingá (Inga sp), mama-cadela (Brosimum gaudichaudii), mangaba (Hancornia speciosa), cajuzinho-do-cerrado (Anacardium humile), pitanga-do-cerrado (Eugenia calycina), guapeva (Fervillea trilobata), veludo-branco (Gochnatia polymorpha); madeiras, tais quais angico-branco (Anadenanthera colubrina), angico (Anadenanthera spp), aroeira-branca (Lithraea molleoides), aroeira-do-sertão (Myracrodruon urundeuva), cedro-rosa (Cedrela fissilis), monjoleiro (Acacia polyphylla), vinhático (Plathymenia reticulata), bálsamo-do-cerrado (Styrax pohlii), pau-ferro (Libidibia ferrea), ipês (Tabebuia spp.), além de plantas características dos cerrados, como amendoim-do-campo (Pterogyne nitens), araticum-cagão (Annona cacans), aroeira-pimenteira (Schinus terebinthifolius), capitão-do-campo (Terminalia spp.), embaúba (Cecropia spp), guatambu-de-sapo (Chrysophyllum gonocarpum), maria-pobre (Dilodendron bipinnatum), mulungu (Erythrina spp), paineira (Ceiba speciosa), pororoca (Rapanea guianensis), quaresmeira roxa (Tibouchina granulosa), tamboril (Enterolobium spp), pata-de-vaca (Bauhinia longifólia), algodão-do-cerrado (Cocholospermum regium), assa-peixe (Vernonia polyanthes), pau-terra (Qualea grandiflora), pimenta-de-macaco (Xylopia aromatica), gameleira (Ficus rufa), sem falar em uma grande variedade de gramíneas, bromeliáceas, orquidáceas e outras plantas de menor porte.
Fauna: O Cerrado apresenta uma alta diversidade de vertebrados, com 150 espécies de anfíbios, 120 espécies de répteis, 837 espécies de aves e 161 espécies de mamíferos registradas. A diversidade de lagartos é geralmente considerada relativamente baixa no Cerrado em comparação com outras áreas como a caatinga ou a floresta tropical de planície, embora um estudo recente tenha encontrado 57 espécies em uma área de Cerrado, com a alta diversidade sendo impulsionada pela disponibilidade de habitat aberto. O Ameiva ameiva está entre os maiores lagartos encontrados no Cerrado e é o predador de lagartos mais importante da região onde ocorre. Há uma diversidade relativamente alta de serpentes no Cerrado (22–61 espécies, dependendo do local), sendo a família Colubridae a mais rica. A natureza aberta da vegetação do Cerrado provavelmente contribui para a alta diversidade de serpentes. As informações sobre anfíbios do Cerrado são extremamente limitadas, embora o Cerrado provavelmente possua um conjunto único de espécies, algumas endêmicas da região.
A maioria das aves encontradas no Cerrado se reproduz ali, embora haja também algumas aves migratórias austrais (que se reproduzem na América do Sul temperada e passam o inverno na bacia amazônica) e neárticas (que se reproduzem na América do Norte temperada e passam o inverno nos neotrópicos) que passam pela região. A maioria das aves que se reproduzem no Cerrado é encontrada em áreas de dossel mais fechado, como matas ciliares, embora 27% das aves se reproduzam apenas em habitats abertos e 21% em habitats abertos ou fechados. Muitas das aves do Cerrado, especialmente as encontradas em florestas fechadas, são aparentadas a espécies da Mata Atlântica e também da Amazônia. A águia-cinzenta, a arara-azul-grande, o tucano-toco, o curicaca, a codorna-carapé e o pato-mergulhão são exemplos de aves encontradas no Cerrado.
As matas ciliares servem como habitat primário para a maioria dos mamíferos do Cerrado, por possuírem mais água, serem protegidas dos incêndios que devastam a região e apresentarem um habitat mais estruturado. Onze espécies de mamíferos são endêmicas do Cerrado. Entre as espécies notáveis, encontram-se grandes herbívoros como a anta e o veado-campeiro, e grandes predadores como o lobo-guará, a onça-parda, a onça-pintada, a ariranha, a jaguatirica e o jaguarundi. Embora a diversidade seja muito menor do que na Amazônia e na Mata Atlântica adjacentes, várias espécies de macacos estão presentes, incluindo o macaco-prego-amarelo, o bugio-preto e o sagui-de-tufos-pretos.
Os insetos do Cerrado são relativamente pouco estudados. Um levantamento realizado durante um ano em uma reserva no Cerrado brasileiro constatou que as ordens Coleoptera, Hymenoptera, Diptera e Isoptera representavam 89,5% de todas as capturas. O Cerrado também abriga uma alta densidade (até 4000 por hectare) de ninhos de formigas cortadeiras (saúvas), que também são muito diversas. Juntamente com os cupins, as formigas cortadeiras são os principais herbívoros do Cerrado e desempenham um papel importante no consumo e decomposição da matéria orgânica, além de constituírem uma importante fonte de alimento para muitas outras espécies animais.A maior diversidade de insetos galhadores (insetos que constroem galhas) do mundo também é encontrada no Cerrado, com o maior número de espécies (46) na base da Serra do Cipó, em Minas Gerais.
Mastofauna: Especificamente no que tange à fauna de mamíferos do cerrado, em que pesem as áreas devastadas para a agropecuária e a mineração, ela é ainda bastante diversificada, com representantes de:
Marsupiais – gambá (Didelphis ssp.), cuíca (Gracilinanus microtarsus), cuíca-d'água (Chironectes minimus) e jaritataca (Conepatus semistriatus)
Mustelídeos – ariranha (Pteronura brasiliensis), irara (Eira barbara), lontra (Lontra longicaudis),
Xenartros – tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla), tamanduá-mirim (Tamandua tetradactyla), preguiça (Bradypus sp), tatus (Dasypodidae)
Felídeos – gato-palheiro (Oncifelis colocolo), jaguatirica (Leopardus pardalis), jaguarundi (Herpailurus yaguarondi), onça-pintada (Panthera onca) e onça-parda (Puma concolor),
Canídeos – cachorro-do-mato (Cerdocyon thous), raposa-do-campo (Lycalopex vetulus), lobo-guará (Chrysocyon brachyurus)
Cervídeos – veado-mateiro (Mazama americana), veado-campeiro (Mazama gouazoupira)
Primatas – macaco-prego (Cebus apella), macaco-aranha (Ateles paniscus), saguis (Callitrichinae)
Procionídeos - quati (Nasua spp.), mão-pelada (Procyon cancrivorus)
Ungulados- anta (Tapirus terrestris), queixada (Tayassu pecari), caititu (Pecari tajacu), veado-catingueiro (Mazama gouazoubira), veado-campeiro (Ozotoceros bezoarticus)
Roedores – preá (Cavia spp), porco-espinho (fam. Erethizontidae, Hystricidae), capivara (Hydrochoerus hydrochaeris), cutia (Dasyprocta spp), paca (Agouti paca), ratos (Cricetidae)
Leporídeos – tapiti (Sylvilagus brasiliensis)
Quirópteros – morcegos (Chiroptera)
Avifauna
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Em relação à avifauna, são inúmeras as aves do Cerrado, e entre elas destacam-se:
Papa-moscas-do-campo (Culicivora caudacuta),
Codorna-pequena (Taoniscus nanus),
Águia-cinzenta (Harpyhaliaetus coronatus),
Andarilho (Geositta poeciloptera),
Anhuma (Anhima cornuta),
Marreca-ananaí (Anas braziliensis),
Marreca-cabocla (Dendrocygna autumnalis),
Marreca-caneleira (Dendrocygna bicolor),
Irerê (Dendrocygna viduata),
Pato-mergulhão (Mergus octosetaceus),
Pato-corredor (Neochen jubata),
Marreca-caucau (Nomonyx dominicus),
pato-de-carúncula (Sarkidiornis melanotos),
Gralha (Cyanocorax cristatellus),
Pássaro-preto (Gnorimopsar chopi),
Guaxo (Icterus jamacaii),
Tucano (Ramphastos toco),
Urubu (Coragyps atratus),
Seriema (Cariama cristata),
Sabiá-do-campo (Mimus saturninus),
Beija-flor (Colibri serrirostris),
Beija-flor-tesoura (Eupetomena macroura),
Garça campeira (Casmerodius albus)
Garça do banhado (Egretta thula),
Anu-preto (Crotophaga ani),
Anu-branco (Guira guira),
Caga-sebo (Coereba flaveola),
Vivi (Euphonia chlorotica),
Saí-azul (Dacnis cayana),
Sanhaço (Thraupis sp.),
Príncipe (Pyrocephalus rubinus),
Suriri (Tyrannus melancholicus),
Quero-quero (Vanellus chilensis),
Curicaca (Theristicus caudatus),
Garrincha (Synallaxis frontalis),
Papagaio-verdadeiro (Amazona aestiva),
Saracura (Aramides cajanea),
Piriquito (Brotogeris chiriri),
Pomba-asa-branca (Columba picazuro),
João-de-barro (Furnarius rufus),
Bem-te-vi (Pitangus sulphuratus),
Canário (Sicalis flaveola),
Sabiá-laranjeira (Turdus rufiventris)
Ictiofauna
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Piau, peixe típico dos rios do Cerrado
Sobretudo pelo fato de ser em áreas de Cerrado que nascem rios das mais importantes bacias hidrográficas brasileiras, como as bacias Amazônica, Tocantínea, Platina e São-Franciscana, a ictiofauna é extremamente rica e diversificada. Nos rios do Cerrado, há um número bastante relevante de espécies de mariscos,e uma grande variedade de peixes, desde aqueles que são comuns até em pequenos córregos, como piabas (Astyanax spp.); lambaris (Deuterodon spp., Moenkhausia spp), Cará (Aequidens spp, Mesonauta spp), bagres e mandis (Pimelodus spp.), Mussum (Synbranchus marmoratus), tuvira (Eigenmannia spp), até aqueles que são encontrados quase que apenas em rios e ribeirões, tais como caranha (Piaractus spp., Pygocentrus spp.); pacu (Colossoma spp.; Mylossoma spp.; Chaetobranchopsis spp.), piau (Leporinus spp.), traíra (Hoplias spp.), piranha (Catoprion spp.), curimbatá (Cyphocharax spp.), dourado (Salminus spp.), cascudo (Hypostomus spp.; Pterygoplichthys spp), peixe-cachorro (Roeboides spp.), além de cachorra (Hydrolycus scomberoides), peixe-cadela (Oligosarcus hepsetus), pirapitinga (Brycon microlepis), abotoado (Pterodoras granulosus), timburé (Schizodon borellii), taguara ou sardinha-de-água-doce (Triportheus angulatus), e espécies maiores, de couro, como cachara (Pseudoplatystoma fasciatum), jaú (Paulicea luetkeni), barbado (Pinirampus pinirampus), pintado (Pseudoplatystoma corruscans) e surubi (Sorubimichthys planiceps). Há outras espécies menos significativas numericamente, inclusive a muito rara e quase extinta piracanjuba (Brycon orbignyanus).
HISTÓRICO E POVOAMENTO
Visão geral: A história ambiental do Cerrado brasileiro no século XVII se deu com a corrida para a região interiorana no Brasil. Contudo, a região remonta ao contexto do pleistoceno, com a corrida do ouro seu lugar da natureza aliado ao papel na vida humana, os valores, relações ambientais com um mundo natural para a sociedade como um todo no que diz respeito as concepções do território sendo a fronteira elemento fundamental.
O primeiro relato europeu detalhado sobre o Cerrado brasileiro foi fornecido pelo botânico dinamarquês Eugenius Warming (1892) no livro Lagoa Santa, no qual ele descreve as principais características da vegetação do Cerrado no estado de Minas Gerais. O botânico Johannes Eugenius Bülow Warming (1841-1924) professor de botânica na Universidade de Copenhague e na Universidade de Estocolmo, além de decano nas duas instituições e diretor do Jardim Botânico de Copenhague. Fez expedições científicas e palestras em eventos, em diversos países incluindo o Brasil. Warming esteve no Brasil, mais precisamente em Lagoa Santa, Minas Gerais, de 1863 a 1866.
Aproveitando o brotamento da vegetação herbácea que se segue a uma queimada no Cerrado, os habitantes indígenas dessas regiões aprenderam a usar o fogo como ferramenta para aumentar o alimento disponível para seus animais domésticos.
Xavantes, tapuias, carajás, avá-canoeiros, craós, xerentes e xacriabás foram alguns dos primeiros povos indígenas a ocupar diferentes regiões do Cerrado. Muitos grupos indígenas eram nômades e exploravam o Cerrado caçando e coletando. Outros praticavam a agricultura de coivara, um tipo itinerante de agricultura de corte e queima. A mistura de comunidades indígenas, quilombolas, extrativistas, geraizeiros (que viviam nas regiões mais secas), ribeirinhos e vazanteiros (que viviam nas planícies aluviais) moldou uma população local diversificada que depende fortemente dos recursos do seu meio ambiente.
Até meados da década de 1960, as atividades agrícolas no Cerrado eram muito limitadas, visto que os solos naturais do Cerrado não são suficientemente férteis para o cultivo de lavouras, sendo direcionadas principalmente para a produção extensiva de gado bovino para subsistência do mercado local. Após esse período, porém, o desenvolvimento urbano e industrial da Região Sudeste forçou a migração da agricultura para a Região Centro-Oeste. A transferência da capital do país para Brasília foi outro fator de atração populacional para a região central: de 1975 até o início da década de 1980, muitos programas governamentais de subsídios foram lançados para promover a agricultura, com o intuito de estimular o desenvolvimento do Cerrado. Como resultado, houve um aumento significativo na produção agrícola e pecuária.
Por outro lado, a pressão urbana e o rápido estabelecimento de atividades agrícolas na região têm reduzido rapidamente a biodiversidade dos ecossistemas, e a população na região do Cerrado mais que dobrou de 1970 a 2010, passando de 35,8 para 76 milhões.
Ocupação indígena do Cerrado: Os primeiros povoadores do Cerrado parecem ter provindo de um núcleo ocupacional estabelecido entre 12 e 11 mil anos antes do presente (AP), no entorno do vale do rio Guaporé, importante afluente do Mamoré. Desta forma, o povoamento do Cerrado (grosso modo, da região central do continente sul-americano) teria sido iniciado por volta de 11.000 anos AP com o estabelecimento da Tradição Itaparica, uma cultura que desenvolveu formas características de produzir ferramentas de pedra (silexito, arenito, quartzito e quartzo, dentre outras). Há 10 mil anos AP, as populações constituintes desta "tradição" já teriam colonizado uma área com cerca de 2 milhões de quilômetros quadrados, a qual se estendia pelos atuais Mato Grosso, Goiás, Tocantins, além de áreas da Caatinga, em Pernambuco e Piauí. Em torno de 9 mil anos AP, a Tradição Itaparica perde suas características básicas, sendo substituída pelo uso de instrumentos de pedra mais refinados e por uma "indústria de lascas".
Mudanças climáticas ocorridas entre o fim do Pleistoceno e o início do Holoceno, marcadas pelo recuo das geleiras, parecem ter pesado na decisão das populações do oeste da América do Sul em se deslocarem para leste e adentrar o Cerrado. Além disso, o modo de vida destes povos, baseado em caça e coleta, foi afetado pela extinção de animais de grande porte (megafauna), obrigando-os a emigrar em busca de regiões de fauna mais abundante. O Cerrado, mesmo que em sua maior parte contivesse apenas animais de médio e pequeno porte, oferecia uma grande variedade de frutos comestíveis, uma das mais ricas da América do Sul. Ainda que a fase de maturação estivesse relacionada à estação das chuvas (atualmente, de outubro a janeiro), permitia não obstante substituir uma espécie por outra, dependendo da época do ano. Ademais, o Cerrado oferecia um clima sem grandes variações e a possibilidade do uso de abrigos naturais.
No início do Holoceno, os atuais Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste do Brasil já haviam sido povoados. No Cerrado, uma indústria lítica caracterizada por pontas de projéteis pedunculadas indica a presença de uma economia baseada na caça e na coleta, com uma dieta que incluía apenas representantes da fauna holocênica: cervos, veados, capivaras, macacos, tamanduás, tatus, tartarugas, lagartos, emas (e seus ovos) e outras aves, além de peixes pequenos. Os moluscos ainda estavam ausentes da alimentação cotidiana. Dentre os frutos, foram localizados caroços, provenientes principalmente de palmeiras. Havia lenha em abundância e abrigos naturais eram utilizados sempre que dispusessem de fontes de água nas proximidades (caso contrário, acampava-se ao ar livre). Infere-se que os grupos migrantes eram constituídos por um número reduzido de indivíduos, provavelmente famílias agrupadas de modo frouxo.
Em algum momento, ainda não claramente definido pela arqueologia, ocorreu a transição entre os caçadores/coletores e os horticultores/ceramistas. O que se sabe, a partir dos dados existentes, é que por volta do século 5 a.C., a cerâmica já era usada no Médio-Norte do Tocantins, e cerca de 500 anos depois, em Minas Gerais (Tradição Una). Os horticultores da Fase Jataí, cujas ocupações foram localizadas em Serranópolis e Caiapônia, Goiás, podem ter invadido a região por volta de 1.100 anos AP. Cultavam inúmeras plantas, dentre elas o milho. Outro grupo, que construiu grandes aldeias a céu aberto próximas a matas de galeria ou contínuas, é responsável por três grandes tradições tecnológicas e possivelmente culturais:
Tradição Aratu/Sapucaí, com centros populacionais no centro-leste do estado de Goiás e no centro-oeste de Minas Gerais, provavelmente remonta ao início da era atual. Não cultivavam mandioca, mas outros tubérculos e talvez milho;
Tradição Uru, que parece ser mais recente do que a Aratu/Sapucaí, e cuja economia era possivelmente baseada no cultivo da mandioca e da pesca;
Tradição Tupi-Guarani, encontrada em alguns sítios na Bacia do Paranaíba e do Araguaia. Sua expansão deve ter sido detida pela presença dos dois grupos anteriores, que já estavam há mais tempo na região. Provavelmente, também tinham uma economia baseada no cultivo da mandioca.
Embora contatos com os colonizadores europeus já viessem ocorrendo desde pelo menos o século XVII, quase sempre marcados pela violência (inicialmente contra os bandeirantes, que procuravam escravos, e depois contra os garimpeiros), a fixação do homem branco no Cerrado só veio a se concretizar em tempos relativamente recentes, o que deu aos habitantes autóctones condições de estender a sua sobrevivência e, para alguns grupos, até mesmo de chegar aos dias atuais. Não foi esse o caso dos caiapós do sul da região de Mossâmedes, em Goiás, supostos representantes da Tradição Aratu, cuja população foi drasticamente reduzida após serem aldeados em 1781, e que em 1813 contavam com apenas 129 sobreviventes. Pouco menos de um século depois, em 1910, seu número decaiu para 30 ou 40 indivíduos, dos quais nada se soube posteriormente.
No território da Tradição Uru, viviam índios como os goiás, acuém-xavante e acroá, que cultivavam a mandioca (diferentemente dos caiapós do sul). Ao menos a princípio, os goiás do rio Vermelho não ofereceram grande resistência à chegada dos brancos; quando estes continuaram a avançar para o interior, houve confronto e os goiás foram exterminados. Mais ao norte, os acuéns-xavantes foram aldeados em 1788 próximo a Crixás (GO), totalizando cerca de 5.000 indivíduos, o que demonstra não ter havido grande resistência; aqueles que dentro deles se opuseram à capitulação, deslocaram-se a princípio para a margem esquerda do Tocantins (1824), depois para o Araguaia (1859), de onde finalmente ocuparam os campos do rio das Mortes, quando passam a ser conhecidos como xavantes.
Ainda representando a Tradição Uru, os carajás originalmente habitavam o Baixo Rio Vermelho e o Araguaia, concentrando-se atualmente próximo de Aruanã (GO). A Bacia Araguaia-Tocantins registra ainda a presença de antigos acampamentos associados aos tupis (canoeiros), conhecidos atualmente como avás-canoeiros. Estes tupis, cuja presença na região foi registrada a partir de 1780, provavelmente são descendentes dos tupis da costa que fugiram das bandeiras e se miscigenaram com negros quilombolas. Os avás-canoeiros opuseram forte resistência aos colonizadores portugueses e chegaram mesmo a destruir arraiais como o de Amaro Leite (atual Mara Rosa, Goiás).
Grupos indígenas remanescentes: Povos indígenas que ainda se mantém na região do Cerrado, incluem:
- Apinayê: fazem parte do grupo dos timbira ocidentais e historicamente vivem na microrregião do Bico do Papagaio, entre os rios Araguaia e Tocantins. Sofreram com depopulação e desestruturação social, particularmente na segunda metade do século XX, quando suas terras foram cortadas pelas rodovias Belém-Brasília e Transamazônica (BR-230), e invadidas por centenas de migrantes. Apenas em meados da década de 1970 iniciou-se o processo de demarcação de suas terra, o que, embora não tenha satisfeito as reivindicações dos apinajés, resultou na Terra Indígena Apinayé, homologada em 1997. Em 2022, sua população era de 2.731 pessoas.
- Avá-Canoeiro: na segunda metade do século XVIII habitavam as matas de galeria nas cabeceiras do rio Tocantins, quando foram contatados pelos colonizadores. Expostos a toda sorte de violência e massacres constantes, acabaram por se dividir em dois grupos: o maior deles deslocou-se para o norte da Bacia Araguaia-Tocantins, até chegar à ilha do Bananal, em Tocantins. Ali foi criada a Terra Indígena Taego Ãwa, onde em 2022 havia 210 indígenas; um grupo reduzido sobreviveu no alto rio Tocantins, onde foi criada a Terra Indígena Avá-Canoeiro e onde vivem 11 indivíduos (dados de 2022), havendo a presença de indígenas isolados.
- Bakairi: originários da região de Paranatinga, MT, ocupam atualmente duas terras indígenas: a Bakairi (população de 794 indígenas em 2022) e Santana (população de 206 indígenas em 2014), nos municípios de Paranatinga e Nobres (MT).
- Bororó: povo do tronco linguístico macro-jê, cujo território originalmente se estendia da Bolívia ao centro-sul de Goiás, e das cabeceiras do rio Xingu ao rio Miranda. Especula-se que podem ter vivido nesta região por cerca de sete mil anos. Os primeiros contatos com os colonizadores datam do século XVII; no século XVIII, por conta da pressão dos garimpeiros, dividiram-se em bororo ocidentais (considerados extintos em meados do século XX) e bororo orientais, que se mantiveram afastados da civilização até meados do século XIX, quando a abertura de uma estrada no vale do rio São Lourenço os fez iniciar um conflito que durou mais de 50 anos. Ocupam atualmente seis terras indígenas (Jarudore, Merure, Sangradouro/Volta Grande, Tadarimana, Tereza Cristina, Perigara) no Mato Grosso, com uma população superior a 2.000 indígenas.
- Camba: os camba (ou kamba, do guarani boliviano: "os de fora") constituem um grupo sui generis no indigenismo brasileiro, pois na verdade são descendentes de indígenas bolivianos (chiquitanos, mojeños e outros) que migraram para o Brasil ao longo do século XX, em busca de trabalho nas fazendas do Mato Grosso do Sul (MS). Falam espanhol e chiquitano. Apenas em 2007 foram reconhecidos como povo indígena pela FUNAI, mas esse reconhecimento está sendo contestado juridicamente e ainda não implicou em demarcação de terras. Vivem na fronteira Bolívia–Brasil, nos municípios de Corumbá e Porto Murtinho, com uma população estimada em 300 pessoas.
- Canela Apaniekrá: grupo timbira remanescente dos timbiras orientais, que foram praticamente exterminados por volta de 1913. Atualmente, vivem em Barra do Corda, MA, na Terra Indígena Kanela. Em 2022, a população atual local era de 2.552 indígenas.
- Canela Rankokamekra: outro grupo remanescente dos timbiras orientais, residem na Terra Indígena Kanela Memortumré, entre os municípios de Barra do Corda e Fernando Falcão (MA). Em 2004, sua população era de 1.961 indígenas.
- Gavião Pykopjê: os pykopjê são um povo de língua timbira. Entraram em contato com os colonizadores em fins do século XVIII, quando estes começaram a invadir suas terras, localizadas no sul do Maranhão e norte do Tocantins, para fins de agricultura e pecuária. Houve resistência, que se estendeu até meados dos século XIX, quando foram "pacificados". Depois de quase um século de relativa tranquilidade, suas terras voltaram a ser ameaçadas por "paulistas" (fazendeiros do sul da Bahia, Minas Gerais e São Paulo). Foi somente depois de um ataque dos "paulistas" em 1976, que a FUNAI iniciou o processo de demarcação das terras dos pykopjê. Em 2022, sua população era de 1360 indígenas (incluindo povos guajajara e tabajaras), vivendo na Terra Indígena Governador, em Amarante do Maranhão.
- Guajá: também denominados awa ou awa-guajá, habitavam o leste do Pará de onde teriam se deslocado para o atual Maranhão, fugindo de guerras e da expansão do povoamento. Desde o início do século XX habitavam nas imediações do rio Pindaré, e procuraram manter distância da civilização. Contudo, na década de 1960, a construção da BR-222 impactou negativamente seu tradicional território, o que foi agravado pela inauguração da Estrada de Ferro Carajás em 1985. Nessa época, a FUNAI iniciou os trabalhos de demarcação das Terras Indígenas Caru e Alto Turiaçu, para onde eram levados os indígenas contatados. Foi necessário ainda criar uma terceira TI, a Awá, interligando as duas primeiras e cortada pela ferrovia. Há ainda guajás isolados na TI Araribóia. Em 2018, a população estimada era de 520 indígenas.
- Guajajara: ou tenetehára, constituem um dos povos indígenas mais numerosos do Brasil e habitam onze terras indígenas, todas no estado do Maranhão. As TI Araribóia, Bacurizinho e Cana-Brava concentram 85% dos guajajaras. Em 2000, sua população era estimada em mais de 13.000 indígenas.
- Guarani: os guarani englobam um grande número de povos, conhecidos por vários nomes, embora entre si se denominem avá ("pessoa"). Na região do Cerrado, há aproximadamente onze povos guaranis, concentrados principalmente em Mato Grosso do Sul. No Tocantins, há um pequeno contingente do subgrupo Mbya, sobreviventes de perseguições em outros locais, convivendo com os Karajá do Norte na Terra Indígena Xambioá.[93] A população total (incluindo os karajá) nesta TI, era de 421 indígenas em 2022.
- Javaé: são um dos poucos povos indígenas da antiga Capitania de Goiás a sobreviver dentro do seu território. Constituiriam uma das três etnias que formam os karajá, juntamente com os xambioá (karajá do Norte) e os karajá propriamente ditos, embora os javaé contestem essa afirmação. Dos três grupos, os javaés sempre foram os mais arredios ao contato com os "civilizados", e até pelo menos o fim do século XIX, os karajá agiam como seus intermediários. Sua região originária era o vale do rio Araguaia e a ilha do Bananal. Em 2009, estavam distribuídos por 13 aldeias, todas localizadas na margem esquerda do rio Javaés, com exceção da Imotxi, que está localizada na Ilha do Bananal. Sua população era de cerca de 1.510 indígenas em 2020.
- Ka'apor: os ka'apor, falantes da língua homônima, habitavam a bacia do Guamá, Pará, e atacavam quem tentasse invadir o seu território. Sucessivas tentativas de contatos pacíficos, no início do século XX, foram rechaçadas. Finalmente, em 1928 estabeleceu-se a paz com a sociedade brasileira, embora conflitos com madeirereiros e fazendeiros que invadem suas terras persistam até a atualidade. A maior parte dos ka'apor vive na Terra Indígena Alto Turiaçu, Maranhão, a qual dividem com grupos awa guajá e tembé. A população em Alto Turiaçu era de 4.183 indígenas em 2022 (contabilizando os três povos residentes).
- Kadiwéu: últimos remanescentes dos guaicurus, uma tribo guerreira, participaram da Guerra do Paraguai ao lado dos brasileiros, e por isso desde 1900 tiveram suas terras reconhecidas no estado do Mato Grosso. Habitam na Terra Indígena Kadiwéu, em Porto Murtinho, Mato Grosso do Sul, a qual dividem com outros povos indígenas, como os terenas. Em 2014, sua população era de 1.413 indígenas.
- Karajá: os primeiros contatos dos karajá com os colonizadores datam de meados do século XVII, no baixo Araguaia, e a partir daí, este povo foi obrigado a manter um contato próximo com os "civilizados", o que impactou negativamente a sua cultura. Em 2020, ocupavam 14 aldeias em Goiás (Aruanã), Mato Grosso, Tocantins e Pará, e tinham uma população de 4.373 indígenas.
- Karajá do Norte: também conhecidos como xambioá, habitavam o baixo Araguaia e durante todo o século XIX impuseram resistência à presença de militares do Exército Brasileiro na região. Exposição à doenças contras as quais não possuíam defesas naturais, contribuiu grandemente para a redução populacional deste grupo. Na década de 1960, os karajá do norte estavam reduzidos a cerca de 40 indivíduos. Na década seguinte, com a ampliação da assistência fornecida pela FUNAI, os karajá do norte experimentaram um gradual crescimento populacional e em 2014 já somavam 287 indígenas, distribuídos por cinco aldeias (Xambioá, Kurehê, Wary-Lyty, Hawa-Tymyra e Manoel Achurê) na margem direita do Araguaia.
- Krahô: os contatos iniciais com os "civilizados" datam do início do século XIX, quando viviam próximos ao rio das Balsas, afluente do rio Parnaíba, sul do Maranhão. Alternando entre confrontos e alianças pontuais com fazendeiros, terminaram sendo deslocados para o nordeste do Tocantins, onde hoje vivem na Terra Indígena Kraolândia, situada nos municípios de Goiatins e Itacajá. Em 2022, sua população era de 3.691 indígenas.
- Krikati: povo do grupo timbira, historicamente habitavam as cabeceiras do rio Tocantins, nos "Campos do Grajaú", e ofereceram forte resistência às tentativas de colonização dos cupen ("civilizados"). Apenas em 1854, por intermédio do padre Manuel Procópio, aceitaram um assentamento oferecido pelos brancos. A convivência pacífica, contudo, não durou muitos anos, e os krikati começaram a ser perseguidos como ladrões de gado, pelos colonos que arrendavam suas terras (e que, no século XX, passariam a se considerar proprietários das mesmas). Por volta de 1930, os krikati estavam reduzidos a poucas centenas de indivíduos, vivendo no sudoeste do Maranhão. O Serviço de Proteção ao Índio, no intuito de evitar a continuidade dos confrontos (e viabilizar a ocupação do território pelos colonos) realocou os sobreviventes próximos ao ribeirão São José, onde posteriormente surgiria a aldeia homônima na Terra Indígena Krikati, e onde hoje vivem a maior parte dos membros desta etnia. Em 2022, sua população era de 1.670 indígenas.
- Tapirapé: este povo, que se denomina Apyãwa, viveu no baixo curso dos rios Tocantins e Xingu até o século XVII, de onde se deslocaram para o médio Araguaia em meados do século XVIII, quando sua presença passa a ser registrada ao norte do rio Tapirapé. Historicamente, tem mantido relações de confronto/aproximação com os karajá. Por volta do século XIX, seu território estava situado na margem esquerda do Araguaia, no estado do Pará, próximo à divisa com o Mato Grosso. Pressionados por ataques dos kayapó, abandonam suas terras e se concentram nas serras e matas do médio curso do Tapirapé, no Mato Grosso. Durante o século XX, doenças trazidas pelos brancos, alcoolismo e ataques dos kayapó reduziram os tapirapé a dois grupos de poucas dezenas de indivíduos que só se reencontraram após décadas. Em 1983, a Terra Indígena Tapirapé/Karajá (Mato Grosso) foi formalmente demarcada, embora a homologação tenha tardado mais de uma década; em 2022, viviam ali 550 indígenas, entre tapirapé e carajá.[108] Na Terra Indígena Urubu Branco (Mato Grosso), homologada em 1998, sua população era de 941 indígenas em 2022.
- Tembé: os tembé, falantes do teneteara como os guajajara, habitavam o sul do Maranhão, de onde migraram para a região do rio Guamá no Pará, em fins do século XIX. Atualmente, vivem em três terras indígenas: Alto Turiaçu (Maranhão), Alto Rio Guamá e Turé-Mariquita (Pará). Há uma quarta terra indígenas, a Tembé, na bacia do rio Acará, mas cuja população foi identificada como turiwara. Em 2020, a população tembé era de 2.096 indígenas.
- Terena: os terena são uma das maiores populações indígenas do Mato Grosso do Sul (no estado, eram cerca de 26.065 em 2014), e sua presença habitual em grandes centros como Campo Grande os estereotiparam como "aculturados" e "índios urbanos". O fato de conseguirem conviver com a civilização contudo, só demonstra a sua resistência como povo às seguidas tentativas de sua destruição física e cultural. Originários da região do Chaco, desde 1760 por pressão dos espanhóis começaram um processo de migração para a margem oriental do rio Paraguai que se estenderia até as primeiras décadas do século XIX. Aliados dos brasileiros, sofreram com a invasão paraguaia durante a guerra (1864-1870). Após o conflito, não tiveram seus direitos reconhecidos pelo governo brasileiro e suas terras foram invadidas por posseiros. Os terena passaram boa parte do século XX sendo explorados por fazendeiros, que os empregavam em regime de semi-escravidão, funcionários do SPI e depois deste, pela FUNAI. Os conflitos continuaram pelo século XXI, sem solução permanente à vista.
- Xavante: autodenominados A'uwe, seus antepassados habitavam em Goiás no século XVIII e no fim deste século ou no início do século XIX, cruzaram o rio Araguaia rumo ao oeste, separando-se dos xerente. Estabeleceram-se na Serra do Roncador, atual Mato Grosso, onde viveram praticamente isolados até os anos 1930, período em que a "Marcha para o Oeste" de Getúlio Vargas os recolocou em contato com a sociedade brasileira. Após a sua "pacificação", as terras que ocupavam foram abertas à colonização, e quando os xavante opuseram resistência aos invasores, viram-se vítimas de violência. Todavia, o prolongado contato com os brancos não trouxe somente miséria e doenças para este povo, mas os habilitou para estender sua luta ao campo político, onde obtiveram vitórias a partir de 1981, como a demarcação de seis terras xavante: Areões, Pimentel Barbosa, São Marcos, Sangradouro, Marechal Rondon e Parabubure. A luta porém, continua, pois muitas destas terras indígenas continuam ocupadas por grande número de invasores. Em 2020, sua população era estimada em 22.256 indígenas.
- Xerente: autodenominados Akwe, os xerente habitavam as terras da Capitania de Goiás e seus primeiros contatos com os colonizadores datam do século XVII. Guerreiros, resistiram às tentativas de aldeamento e migraram para o norte, estabelecendo-se às margens do rio Tocantins. O século XX foi marcado por conflitos com fazendeiros e pela demarcação de suas terras pela FUNAI, o que só veio a ocorrer em 1972 com a "Área Grande", e duas décadas depois com o "Funil". Em 2022, a população na Terra Indígena Xerente, era de 3.336 indígenas (aí inclusos os Mbya, com quem dividem a área), e de 533 xerente na Terra Indígena do Funil, ambas em Tocantínia, Tocantins.
HIDROGRAFIA
O bioma Cerrado é estratégico para os recursos hídricos do Brasil e da América do Sul. O bioma contém as nascentes e oito das principais regiões hidrográficas brasileiras:
- Amazônica: rios Xingu, Madeira e Trombetas;
- Tocantins-Araguaia: rios Araguaia e Tocantins;
- Atlântico Nordeste Oriental: rio Itapecuru;
- Parnaíba: rios Parnaíba, Poti e Longá;
- São Francisco: rios São Francisco, Pará, Paraopeba, das Velhas, Jequitaí, Paracatu, Urucuia, Carinhanha, Corrente e Grande;
- Atlântico Leste: rios Pardo e Jequitinhonha;
- Paraná: rios Paranaíba, Grande, Sucuriú, Verde e Pardo;
- Paraguai: rios Cuiabá, São Lourenço, Taquari e Aquidauana.
O bioma contém 78% da área da bacia do Araguaia-Tocantins, 48% do Paraná e 47% da área do São Francisco. Além disso, fornece a maior parte da água que abastece estas bacias: 94% do São Francisco (o que impacta diretamente no semiárido brasileiro), 71% do Araguaia/Tocantins e o mesmo percentual para o Paraná/Paraguai. Durante as últimas quatro décadas, as bacias hidrográficas do Cerrado foram fortemente impactadas pelo desmatamento extremo, pela expansão da fronteira agrícola e pecuária, pela construção de barragens e pela extração de água para irrigação.
ATIVIDADE COMERCIAL
Agricultura: O solo do Cerrado historicamente representou um desafio para a agricultura até que pesquisadores da Embrapa, a agência brasileira de pesquisa agropecuária, descobriram que ele poderia ser adaptado para o cultivo industrial com a adição adequada de fósforo e calcário. No final da década de 1990, entre 14 e 16 milhões de toneladas de calcário eram aplicadas anualmente nos campos brasileiros. Essa quantidade subiu para 25 milhões de toneladas em 2003 e 2004, o que equivale a cerca de cinco toneladas de calcário por hectare. Esse manejo do solo permitiu que a agricultura industrial crescesse exponencialmente na região. Os pesquisadores também desenvolveram variedades tropicais de soja, até então uma cultura de clima temperado, e atualmente o Brasil é o principal exportador mundial de soja devido ao aumento na produção de ração animal causado pela crescente demanda global por carne.
Atualmente, a região do Cerrado responde por mais de 70% da produção de carne bovina do país, sendo também um importante polo produtor de grãos, principalmente soja, feijão, milho e arroz. Grandes extensões do Cerrado também são utilizadas para a produção de celulose para a indústria papeleira, com o cultivo de diversas espécies de eucalipto e pinheiros, porém como atividade secundária. O café produzido no Cerrado é hoje um importante produto de exportação.
Nos últimos 25 anos, esse bioma tem sido cada vez mais ameaçado pela monocultura industrial, particularmente da soja, pela expansão desregulamentada da agricultura industrial, pela queima de vegetação para produção de carvão e pela construção de barragens para irrigação, fatores que vêm gerando críticas e sendo identificados como ameaças potenciais a diversos rios brasileiros. Com a remoção das florestas nativas, as secas tornam-se mais persistentes na região, reduzindo a produtividade da agricultura local devido à diminuição da evapotranspiração, o que afeta os ciclos hídricos regionais.
Essa agricultura industrial do Cerrado, com o desmatamento para plantações de eucalipto e soja, cresceu tanto devido a diversas formas de subsídio, incluindo incentivos fiscais muito generosos e empréstimos com juros baixos. Isso resultou no estabelecimento de um sistema agrícola altamente mecanizado e com uso intensivo de capital. Existe também um forte lobby do agronegócio no Brasil e, em particular, a produção de soja no Cerrado é influenciada por grandes corporações como ADM, Cargill e Bunge, sendo estas duas últimas diretamente associadas ao desmatamento em massa desse bioma. Na fronteira agrícola do Cerrado/MATOPIBA, a Conservation International Brazil atuou como parceira implementadora do projeto PNUD-GEF Taking Deforestation Out of the Soy Supply Chain ("Retirando o Desmatamento da Cadeia de Suprimentos da Soja"), que visa reduzir as pressões de desmatamento associadas à expansão da soja e promover uma produção mais sustentável em escala de paisagem.
Produção de carvão vegetal: A produção de carvão vegetal para a indústria siderúrgica brasileira é uma importante atividade geradora de renda no Cerrado. Ela está intimamente ligada à agricultura. Quando terras são desmatadas para uso agrícola, os troncos e raízes das árvores são frequentemente utilizados na produção de carvão vegetal, financiando o desmatamento. Tradicionalmente, a indústria siderúrgica brasileira utiliza troncos e raízes do Cerrado para a produção de carvão vegetal, mas, com as siderúrgicas do estado de Minas Gerais entre as maiores do mundo, o impacto sobre o Cerrado aumentou consideravelmente. Devido aos esforços de conservação e à diminuição da vegetação, o carvão vegetal tem sido cada vez mais extraído de plantações de eucalipto.
CONSERVAÇÃO
TENDÊNCIAS E DESAFIOS ECOLÓGICOS
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