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quinta-feira, 7 de maio de 2026

ONÇA-PINTADA (ESPÉCIE DE MAMÍFERO CARNÍVORO AMERICANO)

Onça-Pintada macho no Rio São Lourenço, Porto Jofre, Pantanal, Poconé, Mato Grosso, Brasil. Foto tirada pelo francês Bernard DUPONT em 25 de Junho de 2016, 16:09.

Onça-pintada fêmea na região do rio Piqueri, no Pantanal, Brasil. Foto tirada em Charles J. Sharp em 12 de setembro de 2015, 16:05:08.

  • ESTADO DE CONSERVAÇÃO: Quase ameaçada (IUCN 3.1)
  • REINO: Animalia
  • FILO: Chordata
  • CLASSE: Mammalia
  • ORDEM: Carnivora
  • FAMÍLIA: Felídeos
  • SUBFAMÍLIA: Pantherinae
  • GÊNERO: Panthera
  • ESPÉCIE: P. onca
  • NOME BINOMIAL: Panthera onca (Lineu, 1758)
  • COLETIVO: Alcatéia
Onça-pintada (português brasileiro) ou jaguar (português europeu) (nome científico: Panthera onca), também conhecida como onça-preta (no caso dos indivíduos melânicos), é uma espécie de mamífero carnívoro da família dos felídeos (Felidae) encontrada nas Américas. É o terceiro maior felino do mundo, após o tigre e o leão, sendo o maior do continente americano. Apesar da semelhança com o leopardo (Panthera pardus), a onça-pintada é evolutivamente mais próxima do leão (Panthera leo).

DESCRIÇÃO

A onça-pintada é um animal robusto e musculoso. Tamanho e peso variam consideravelmente: em regiões como Belize e na Reserva sustentável de Mamirauá a média de peso é de 55 kg para os machos e 32 kg para as fêmeas. Enquanto no Pantanal é de 110 kg para os machos e 75 kg para as fêmeas, sendo 30% menores que os machos. Os maiores machos registrados pesavam até 155 kg (tendo o peso de algumas leoas e tigresas), e as menores fêmeas chegavam a ter 36 quilos. O comprimento da ponta do focinho até a bunda varia de 1,12 a 1,80 metro. Sua cauda é a menor dentre os grandes felinos, tendo entre 45 e 75 centímetros de comprimento. Suas pernas são consideravelmente mais curtas se comparadas a um tigre ou leão com mesma massa corporal, mas são mais grossas e robustas. A onça-pintada tem entre 60 cm e 80 cm na altura da cernelha. É o maior felino das Américas e o terceiro maior do mundo, menor apenas que o leão e o tigre.

Variações no tamanho são observadas ao longo das regiões de ocorrência da onça, com o tamanho tendendo a aumentar nos indivíduos nos limites norte e sul da distribuição geográfica, com os menores indivíduos sendo encontrados na Amazônia e regiões equatoriais adjacentes. Um estudo realizado na Reserva da Biosfera Chamela-Cuixmala na costa do Pacífico no México, reportou medidas de massa corporal ao redor de 50 quilos, não muito maior que uma onça-parda. Em contraste, no Pantanal, a média de peso foi de cerca de 110 kg, e machos maiores chegavam a pesar mais de 150 kg. Onças que ocorrem em ambientes florestais frequentemente são mais escuras na coloração da pelagem e menores do que aquelas encontradas em regiões de campos abertos (como no Pantanal), possivelmente, devido ao menor número de presas de grande porte em florestas.

O crânio pode ter até mais de 33 cm de comprimento, mas geralmente tem entre 20 e 29 centímetros, sendo robusto, curto e largo no rostro, principalmente nos machos. Pode apresentar uma crista sagital, especialmente em machos mais velhos. O crânio da onça-pintada é semelhante ao da onça-parda (Puma concolor), mas se diferencia por ser maior e ter o osso nasal em formato côncavo. A anatomia funcional do crânio é semelhante a dos outros grandes felinos: existe um ligamento elástico no aparato hioide, o que permite a onça-pintada rugir. A sínfise mandibular é rígida, o que permite recrutar mais músculos na mastigação. A fórmula dentária na onça-pintada é a mesma para outros felinos: 
3.1.3.1 × 2 = 30
3.1.2.1. 
Os caninos são longos e podem ter 23,5 milímetros de comprimento, mas geralmente, possuem entre 17,5 e 18,6 milímetros de comprimento. Eles servem para segurar e matar as presas.

A forma corporal atarracada e robusta torna a onça-pintada capaz de nadar, rastejar e escalar. A cabeça é grande e a mandíbula é desenvolvida e forte. Ao contrário do mito popular, a onça-pintada possui proporcionalmente a mordida mais forte de todos os felinos, tendo 3/4 (75%) da força de mordida de um tigre com o dobro do tamanho, tendo cerca de 750 libras de força ou 340 kg e ela pode abrir a boca até a 13,1 centímetros de diâmetro, em um ângulo de 65 a 70 graus. É proporcionalmente mais forte que a força da mordida de um leão e hiena; tal força é capaz de quebrar o casco de tartarugas. É dito que uma onça é capaz de arrastar um touro de até 500 quilos ou mais por 8 m e quebrar ossos com as mandíbulas. A onça-pintada caça grandes herbívoros de até 300 quilos em florestas densas, como a anta (Tapirus terrestris), e seu corpo forte e atarracado é uma adaptação a esse tipo de presa e ambiente, como evidenciado pela morfologia de seu cotovelo e dos membros, o que mostra que ela não costuma correr tanto quanto felinos de áreas abertas. As patas são digitígradas como outros carnívoros e sua estrutura é típica de membros do gênero Panthera. As garras são retráteis, o que faz com que suas pegadas geralmente não apresentem marcas de garras, como outros felinos. A sua pegada é semelhante a da onça-parda, mas não possui os lobos da almofada plantar tão evidentes quanto a deste felino e é nitidamente maior, tendo até 12 centímetros de diâmetro as pegadas das patas dianteiras e 7,5 centímetros as das patas traseiras. Suas pegadas também possuem um aspecto arredondado, sendo mais largas do que redondas, principalmente as pegadas das patas dianteiras.

A cor de fundo da pelagem da onça é amarelo acastanhado (às vezes mais pálido), mas pode chegar ao avermelhado, marrom e preto, para todo o corpo. As áreas ventrais são brancas. A pelagem é coberta por rosetas, que servem como camuflagem, usando o jogo de luz e sombra do interior de florestas densas. As manchas variam entre os indivíduos: rosetas podem incluir um ou várias pintas em seu interior, e a forma das pintas também pode variar. As manchas e pintas da cabeça e pescoço costumam ser sólidas, e na cauda, elas se unem, de forma a aparecer bandas.

Enquanto a onça-pintada lembra o leopardo (Panthera pardus), além dela ser maior e mais robusta, as rosetas são diferentes nessas duas espécies: as rosetas da pelagem da onça-pintada são maiores, menos numerosas, mais escuras, são formadas por linhas mais grossas e possuem pintas no meio delas, que não são encontradas nas rosetas do leopardo. As onças também possuem cabeças maiores e arredondadas, e membros mais atarracados se comparados com os do leopardo.

Melanismo: Polimorfismo na cor ocorre na espécie e variedades melânicas são frequentes, sendo a principal variação na pelagem encontrada em animais selvagens. Em indivíduos totalmente pretos, quando visto sob a luz e de perto, é possível observar as rosetas. Apesar de ser conhecida popularmente como onça-preta, é apenas uma variação natural, não sendo uma espécie propriamente dita.

A forma totalmente preta é mais rara que a forma de cor amarelo-acastanhado, representando cerca de 6 % da população, o que é uma frequência muito maior do que a taxa de mutação. Portanto, a seleção natural contribuiu para a frequência de indivíduos totalmente negros na população. Existem evidências de que o alelo para o melanismo na onça-pintada é dominante. Ademais, a forma melânica é um exemplo de vantagem do heterozigoto; mas dados de cativeiro não são conclusivos quanto a isso. Indivíduos albinos são muito raros, e foi reportada a ocorrência na onça-pintada, assim como em outros grandes felinos. Como é usual com o albinismo na natureza, a seleção natural mantém a frequência da característica próxima à taxa de mutação.

ETIMOLOGIA

A onça-pintada também é conhecida por pintada, onça-verdadeira, jaguar, jaguaretê, jaguarapinima, acanguçu, canguçu ou simplesmente onça. O termo "onça" origina-se do grego lygx, através do termo latino luncea e do termo italiano lonza. No Brasil, o nome onça-pintada é o mais utilizado, sendo que a palavra pintada é uma alusão à pelagem cheia de manchas e rosetas, ao contrário da outra onça, a onça-parda.

Jaguar origina-se do termo tupi îagûara, podendo ser traduzido como "onça" e até como "cão". Curiosamente foi esta palavra de origem indígena que se tornou a mais utilizada no português europeu, enquanto "onça" (de origem europeia) se tornou o termo mais utilizado no português brasileiro. Esta palavra indígena também foi adotada por algumas línguas europeias como o inglês, espanhol e francês. Com efeito, com a colonização europeia e a chegada dos cães ao continente americano, a palavra passou a ser também usada pelos povos indígenas falantes de tupi para referir-se aos cachorros; assim, adotou-se îagûareté ("onça verdadeira") para fazer referência exclusivamente à onça-pintada, diferenciando-a do cão, o que originou o termo de língua portuguesa "jaguaretê". Yaguareté é um nome usado em países de língua espanhola em que há muitos descendentes dos guaranis, como a Argentina e Paraguai. Acanguçu e canguçu originam-se do termo tupi-guarani îagûarakangusu, que significa "onça de cabeça grande", por meio da composição entre îagûara ("onça"), akanga ("cabeça") e usu ("grande"). Jaguarapinima vem do tupi îagûara ("onça") e pinima ("pintada").

A designação pantera no nome científico, vem do latim, panthera. Panthera, em grego, é uma palavra para leopardo, πάνθηρ. A palavra é uma composição de παν- "todos" e θήρ vem de θηρευτής "predador", significando "predador de todos" (animais), apesar de que esta deve ser considerada uma etimologia popular. A palavra deve ter uma origem do sânscrito, pundarikam, que significa "tigre".

TAXONOMIA E EVOLUÇÃO

A onça-pintada é o único membro atual do gênero Panthera no Novo Mundo. Filogenias moleculares evidenciaram que o leão, o tigre, o leopardo, o leopardo-das-neves e o leopardo-nebuloso compartilham um ancestral em comum exclusivo, e esse ancestral viveu há entre seis e dez milhões de anos apesar do registro fóssil apontar o surgimento do gênero Panthera há entre dois e 3,8 milhões de anos. Estudos filogenéticos geralmente mostram o leopardo-nebuloso como um táxon basal ao gênero Panthera.

Baseado em evidências morfológicas, o zoológo britânico Reginald Pocock concluiu que a onça-pintada é mais próxima ao leopardo. Entretanto, filogenias baseadas no DNA são inconclusivas à posição da onça-pintada em relação às outras espécies do gênero, mas existem dois cladogramas frequentemente observados: ora a onça-pintada é considerada mais próxima do leão, ora é considerada um grupo-irmão de um clado formado pelo leão e o leopardo. Fósseis de espécies extintas do gênero Panthera, como o jaguar-europeu (Panthera gombaszoegensis) e o leão-americano (Panthera atrox), mostram características tanto da onça-pintada quanto do leão. Análise do DNA mitocondrial apontam para o surgimento da espécie há entre 280 e 510 mil anos, bem depois do que é sugerido pelo registro fóssil, que considera seu surgimento há cerca de 1,5 milhão de anos.

Ancestrais: Apesar de habitar o continente americano, a onça-pintada descende de felinos do Velho Mundo. Há cerca de 2,87 milhões de anos, a onça-pintada, o leão e o leopardo compartilharam um ancestral comum na Ásia. No início do Pleistoceno, os precursores da atual onça atravessaram a Beríngia e chegaram à América do Norte: a partir daí alcançaram a América Central e a América do Sul. A linhagem da onça-pintada se separou da linhagem do leão (que compartilham um ancestral comum exclusivo, sendo a espécie mais próxima da onça-pintada), há cerca de 2 milhões de anos. Existe o debate sobre se a Panthera gombaszoegensis seria uma subespécie da atual onça-pintada, o que poderia mudar a história evolutiva da onça, considerando que ela surgiu na África e não na Ásia.

Subespécies e variação geográfica: A última delineação taxonômica foi feita por Pocock em 1939. Baseado em origens geográficas e morfologia de crânio, ele reconheceu oito subespécies. Entretanto, ele não teve acesso a um número suficiente de espécimes para fazer uma análise crítica das subespécies, e expressou dúvida sobre a validade de várias delas. Uma reconsideração posterior reconheceu apenas três subespécies.

Estudos recentes não demonstraram a existência de subespécies bem definidas, e muitos nem reconhecem a existência delas. Existe uma variação clinal na morfologia da onça-pintada, entre a ocorrência sul e norte da espécie, mas a variação dentro das subespécies é maior do que entre elas e por isso não há garantia da existência das subespécies. Um estudo genético confirmou a ausência de divisões geográficas entre as populações, apesar de ter sido demonstrado que grandes barreiras geográficas, como o rio Amazonas, limitam o fluxo gênico entre as populações de onças. Um estudo subsequente caracterizou mais detalhadamente a variação genética e encontrou diferenças populacionais nas onças da Colômbia.

As divisões de Pocock (1939) ainda são regularmente citadas em muitas descrições do felino. Seymour reconhece apenas três subespécies.
  1. Panthera onca onca Lineu, 1758: Venezuela através da bacia amazônica, incluindo
    1. P. onca peruviana Blainville, 1843: costa do Peru
  2. P. onca hernandesii Gray, 1857: oeste do México – incluindo
    1. P. onca centralis Mearns, 1901: El Salvador até Colômbia
    2. P. onca arizonensis Goldman, 1932: sul do Arizona até Sonora, México
    3. P. onca veraecrucis Nelson & Goldman, 1933: centro do Texas até o sudeste do México
    4. P. onca goldmani Mearns, 1901: península de Iucatã até Belize e Guatemala
  3. P. onca palustris Ameghino, 1888 (a maior subespécie, pesando mais de 135 quilos): Pantanal, regiões dos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, Brasil, ao longo da bacia do rio Paraguai no Paraguai e nordeste da Argentina.
  4. † Panthera onca mesembrina
  5. † Panthera onca augusta
O Mammal Species of the World continua a reconhecer nove subespécies, adicionando P. o. paraguensis Hollister, 1914.

DISTRIBUIÇÃO GEOGRÁFICA E HABITAT

A onça-pintada é presente desde o México, passando pela América Central, até a América do Sul, incluindo toda a bacia Amazônica, no Brasil. Os países que a onça-pintada pode ser encontrada são: Argentina, Belize, Brasil, Bolívia, Colômbia, Costa Rica (particularmente na península de Osa), Equador, Guiana Francesa, Guatemala, Guiana, Honduras, México, Nicarágu, Panamá, Paraguai, Peru, Suriname, Estados Unidos e Venezuela. Foi extinta de El Salvador, do Uruguai e de quase toda a Argentina. Ocorre nos 400 quilômetros quadrados da Reserva Natural de Cockscomb em Belize, nos 5 300 quilômetros quadrados da Reserva da Biosfera Sian Ka'an, no México, nos 15 mil quilômetros quadrados do Parque Nacional de Manú no Peru, nos 26 mil quilômetros quadrados do Parque Indígena do Xingu e nos cerca de 1.800 quilômetros quadrados do Parque Nacional do Iguaçu, ambos no Brasil, e em muitas outras unidades de conservação ao longo de sua distribuição.

A inclusão dos Estados Unidos na lista é baseada em ocorrências casuais no sudoeste do país, nos estados do Arizona, Texas e Novo México. No início do século XX, a onça-pintada ocorria ao norte até o Grand Canyon e a oeste até o Sul da Califórnia. É provável que em tempos pré-históricos, a onça-pintada tivesse uma ampla distribuição pela América do Norte, como fica evidenciado pela existência de fósseis e representações culturais de uma subespécie da região, Panthera onca augusta. Fósseis de onça-pintada, datados em 40.000 a 15.000 anos, mostram a ocorrência dessa espécie na era do Gelo até o Missouri.

A ocorrência em tempos históricos da espécie inclui a metade sul dos Estados Unidos no limite norte, e quase todo continente sul-americano, no limite sul. Atualmente, sua distribuição ao norte recuou mil quilômetros, e ao sul cerca de 1.500 km.

A onça-pintada habita tanto florestas tropicais na América do Sul e América Central quanto áreas abertas secas e com inundações periódicas, como o Pantanal. Historicamente, ocorria nas florestas de carvalho dos Estados Unidos. Estudos com armadilhas fotográficas e rádio-colares mostram que elas preferem áreas com densa vegetação, evitando áreas abertas, o que se reflete em uma preferência por áreas de floresta densa e chuvosa, sendo escassa em regiões mais secas, como nos pampas argentinos, nas secas savanas do México, e centro-sul dos Estados Unidos. A onça-pintada é dependente de cursos d'água permanentes, vivendo preferencialmente próximo a rios e pântanos, e é uma boa nadadora, passando parte significativa do dia dentro d'água. Não costuma ocorrer em altitudes acima de 1.200 metros, mas há registros em altitudes de até 3.800 metros na Costa Rica, 2.700 metros na Bolívia e 2.100 metros no Peru.

ECOLOGIA E COMPORTAMENTO

A onça-pintada é um superpredador, o que significa que está no topo da cadeia alimentar, e praticamente, seu maior predador é o ser humano. Entretanto, filhotes podem ser mortos por outras onças, jacarés e grandes cobras da família Boidae. É considerada uma espécie-chave nos ambientes em que vive, já que é importante no controle das populações de mamíferos herbívoros e mesopredadores, contribuindo para a manutenção da integridade dos ecossistemas florestais. Entretanto, predizer qual o efeito que a onça-pintada tem no ecossistema é difícil, principalmente no que se diz respeito ao controle de mesopredadores, pois os dados devem ser comparados com ambientes em que ela não ocorre, e controlar o efeito das atividades humanas em tais ambientes. É aceito que mesopredadores aumentam de população na ausência de superpredadores, e pensa-se que isso tem um efeito cascata negativo no ecossistema. Porém, trabalhos de campo mostraram que isso pode ser uma variabilidade natural, e que o aumento populacional não se sustenta. Portanto, a hipótese de uma grande importância ecológica para os superpredadores no controle de mesopredadores não é largamente aceita.

A onça-pintada também possui um efeito em outros predadores. Ela e a onça-parda (Puma concolor), são frequentemente simpátricos e são estudadas em conjunto. Onde a onça-parda é simpátrica com a onça-pintada, o tamanho da primeira tende a ser menor que o das onça-pintadas locais. Estas últimas tendem a matar presas maiores, geralmente, com mais de 22 quilos, e a onça-parda, menores, entre 2 e 22 quilos. Esta parece ser uma situação vantajosa para a onça-parda. Sua capacidade de expandir seu nicho ecológico, incluindo, de se alimentar de presas menores, a torna mais adaptável que a onça-pintada a ambientes perturbados pelo homem; o que se reflete em sua maior distribuição geográfica e menor risco de extinção. Aparentemente, a onça-pintada e a onça-parda se evitam, mas não se pode afirmar se isso parte dos dois lados, ou apenas de um deles. É provável que a onça-parda evite a onça-pintada, dado o seu maior porte e força.

A onça-pintada é geralmente descrita como um animal noturno, mas é, mais especificamente, crepuscular (pico de atividade é durante a madrugada ou o crepúsculo), como os outros felinos. Entretanto, pode ser observada caçando durante o dia, e a escolha de ser mais ativa à noite ou durante o dia, depende do padrão de atividade de suas presas habituais no local que vive.

Dieta, forrageamento e caça: Como todos os felinos, a onça-pintada é um carnívoro obrigatório, se alimentando somente de carne. É um caçador oportunista, e sua dieta inclui até 87 espécies de animais. A onça pode predar, teoricamente, qualquer vertebrado terrestre ou semiaquático nas Américas Central e do Sul, com preferência por presas maiores. Ela regularmente preda jacarés, veados, capivaras, antas, porcos-do-mato, tamanduás e até mesmo sucuris. Entretanto, o felino pode comer qualquer pequena espécie que puder pegar, como ratos, sapos, aves (principalmente mutuns), peixes, preguiças, macacos e tartarugas. Um estudo conduzido no Santuário de Cockscomb, em Belize, revelou que a dieta das onças era constituída principalmente por tatus (dasipodídeos; clamiforídeos) e pacas. Mas, por ter preferência a áreas próximas a cursos d'água, a onça-pintada acaba se alimentando preferencialmente de ungulados como a queixada (Tayassu pecari) e a anta (Tapirus terrestris).

Em áreas mais povoadas ou com grande número de pecuaristas, a onça-pintada preda o gado doméstico, e muitas vezes parece ter uma preferência por esse tipo de presa (no Pantanal, foi constatado que até 31,7% de sua alimentação era constituída por bezerros de gado bovino). Porém, apesar de alguns estudos sugerirem que onças que atacam o gado doméstico são machos jovens ou animais velhos, outros têm sugerido que não existe um padrão individual para determinar a preferência das onças em atacar o gado doméstico. Alguns estudos têm sido conclusivos de que a onça-pintada ataca o gado doméstico quando suas presas habituais, como a queixada (Tayassu pecari), tornam-se mais raras.

Pelo grande porte, é capaz de se alimentar até de outros felinos de tamanho menor, como a jaguatirica (Leopardus pardalis), apesar de ser incomum. Outros carnívoros, como o lobo-guará (Chrysocyon brachyurus), o cachorro-do-mato (Cerdocyon thous), o quati (Nasua nasua) e o mão-pelada (Procyon cancrivorus) também podem ser predados pela onça-pintada, e ela é o principal predador desses animais.

A onça-pintada raramente mata com uma mordida no pescoço, sufocando a presa, como é típico entre os membros do gênero Panthera, preferindo matar por uma técnica única entre os felinos: ela morde o osso temporal no crânio, entre as orelhas da presa (especialmente se for uma capivara) com os caninos, acertando o cérebro. Isto também permite quebrar cascos de tartaruga, após as extinções do Pleistoceno, quelônios podem ter se tornado presas abundantes em seu habitat. A mordida na cabeça é empregada em mamíferos, principalmente, enquanto que em répteis, como jacarés, a onça-pintada ataca o dorso do animal, acertando a coluna cervical, imobilizando o alvo. Embora capaz de rachar o casco de tartarugas, a onça pode simplesmente esmagar o escudo com a pata e retirar a carne. Quando ataca tartarugas-marinhas que vão nidificar na praia, a onça ataca a cabeça, e frequentemente decapita o animal, antes de arrastá-la para comer. Ao caçar cavalos, a onça pode pular sobre o dorso, colocar uma pata no focinho e outra na nuca, de forma de deslocar o pescoço. Moradores de ambientes em que ocorre a onça-pintada já contaram anedotas de uma onça que atacou um par de cavalos, e depois de ter matado um, ainda arrastou o outro, ainda vivo.

A onça-pintada caça em espreita e formando emboscadas, perseguindo pouco a presa. O felino anda de forma lenta, ouvindo e espreitando a presa, antes de armar a emboscada ou atacá-la. Ela ataca por cima, através de algum ponto cego da presa, com um salto rápido: as habilidades de espreita e emboscada dessa espécie são consideradas inigualáveis tanto por povos indígenas quanto por pesquisadores, e tal capacidade deve derivar do papel de ser um superpredador nos ambientes em que vive. Quando arma a emboscada, a onça pode saltar na água enquanto persegue a presa, já que é capaz de carregar grandes presas nadando, sua força permite levar novilhos para a copa das árvores.

Após matar a presa, a onça arrasta a carcaça para alguma capoeira ou outro lugar seguro, podendo a arrastar por até 1,5 quilômetro. Começa a comer pelo pescoço e peito, em vez de começar pelo ventre. O coração e pulmões são consumidos, seguidos pelos ombros e ela frequentemente deixa as partes traseiras da carcaça intactas. Entretanto, bezerros podem ser consumidos completamente. Elas raramente cobrem suas carcaças com folhas, o que a diferencia da onça-parda.

A necessidade diária alimentar de um indivíduo com 34 quilos (que é menor peso encontrado em um indivíduo adulto) é de 1,4 quilos. Para animais em cativeiro, pesando entre 50 a 60 quilos, mais de 2 quilos de carne são recomendados. Em liberdade, o consumo é naturalmente mais irregular: felinos selvagens gastam considerável energia e tempo para obter alimento, e podem comer até 25 quilos de carne de uma só vez, seguidos por longos períodos sem se alimentar.

Ao contrário das outras espécies do gênero Panthera, a onça-pintada raramente ataca seres humanos. Não existem casos de onças man-eaters como é reportado para os leopardos. Muitos dos escassos casos reportados mostram que se tratavam de indivíduos velhos ou feridos, com dentes danificados ou em momentos que eram caçadas. Às vezes, se feridas ou ameaçadas, as onças podem atacar os tratadores em zoológicos.

Território e comportamento social: Como muitos felinos, a onça-pintada é solitária, mas podem formar coalizações entre machos. Também podem formar pequenos grupos de mãe e filhotes. Adultos encontram-se somente no período de corte e acasalamento (embora socializações não relacionadas a esses eventos foram observados anedoticamente) e mantém grandes territórios para si. Os territórios das fêmeas podem se sobrepor, mas os animais geralmente se evitam nesses locais. Os territórios dos machos frequentemente englobam o de duas ou três fêmeas, variando o tamanho de acordo com a disponibilidade de recursos, e seus territórios dificilmente se sobrepõem. De fato, os territórios das onças podem variar de tamanho em diversas áreas em que elas são estudadas e pode variar de acordo com as estações do ano, como mostrado em alguns estudos no Pantanal: na fazenda Miranda, os territórios variavam de 92 a 168 quilômetros quadrados e durante a estação chuvosa, as distâncias percorridas pelos animais era bem menores do que na estação seca. Em outra fazenda no Pantanal, Acurizal, em que as cheias são menos severas do que na fazenda Miranda, os territórios eram menores e variavam de 25 a 38 quilômetros quadrados. O mesmo padrão é observado nos llanos da Venezuela.

A onça-pintada usa marcas de arranhões, urina e fezes para marcar território, além de utilizar uma série de vocalizações, incluindo rugidos, para se comunicar. Mas, comparada a outros grandes felinos, a onça-pintada faz isso com menos frequência. Foi observado, em Belize, um aumento significativo nesses comportamentos de marcação de território em áreas de disputa, quando dois machos morreram e animais mais jovens visavam conquistar o território, o que sugere que a territorialidade só é mais evidente em áreas com instabilidade demográfica.

Como outros grandes felinos, a onça é capaz de rugir e faz isso para repelir competidores: ataques com indivíduos intrusos podem ser observados em liberdade. Seu rugido lembra uma repetitiva tosse, e as vocalizações podem consistir também de grunhidos. Brigas por cópulas entre machos podem ocorrer, mas são raras, e comportamentos evitando a agressão podem ser observados. Ambos os sexos caçam, mas os machos se deslocam para mais longe do que as fêmeas, diariamente, o que é condizente com seus grandes territórios. A onça-pintada pode caçar durante o dia se existe caça disponível; é um felino relativamente enérgico, com cerca de 50 a 60% do tempo mantendo-se ativo. A natureza arredia e a inacessibilidade de seus habitats preferidos tornam a onça-pintada um animal difícil de ser avistado e de ser estudado.

Reprodução e ciclo de vida: As fêmeas da onça-pintada alcançam a maturidade sexual com cerca de 2 anos de idade, e os machos entre 3 e 4 anos. Acredita-se que esse felino copule durante todo o ano em estado selvagem, e os nascimentos podem ocorrer durante o ano todo, mas em áreas mais temperadas, eles podem se concentrar no verão. Pesquisas com machos em cativeiro corroboram a hipótese de que os acasalamentos ocorrem durante o ano todo, com nenhuma variação em características do sêmen e da ejaculação: baixo sucesso reprodutivo também tem sido observado em cativeiro. O estro dura entre 6 e 17 dias, em um ciclo de 37 dias, e fêmeas demonstram o período fértil com marcação de urina e aumento nas vocalizações. Ambos os sexos se deslocam mais durante o período da corte.

O casal se separa após o ato sexual e as fêmeas providenciam todo o cuidado parental. A gestação dura entre 93 e 105 dias: elas podem dar à luz a até quatro filhotes, mas o mais comum é nascerem dois de cada vez. A mãe não tolera a presença de machos após o nascimento dos filhotes, visto o risco de infanticídio: tal comportamento também se observa no tigre. Os filhotes nascem cegos, e abrem os olhos após duas semanas pesando entre 700 e 900 gramas. Os dentes começam a aparecer depois de um mês de idade. São desmamados após três meses, mas podem permanecer no ninho por até 6 meses, quando passam a acompanhar a mãe nas caçadas. A partir de vinte meses de idade eles dispersam do território natal e os machos raramente voltam, enquanto as fêmeas podem voltar algumas vezes. Os machos também dispersam consideravelmente mais que as fêmeas, indo até 30 quilômetros mais longe que elas. Jovens machos são primeiramente nômades, competindo com outros mais velhos até que conseguem obter um território. Deve-se salientar que essa dispersão se dá antes da maturidade sexual dos indivíduos.

Em estado selvagem, a onça-pintada vive entre 12 e 15 anos de idade, mas em cativeiro, pode viver até mais de 23 anos, sendo um dos felinos com maior longevidade. Foi reportado uma fêmea que viveu até os 30 anos de idade.

CONSERVAÇÃO

Atualmente, é classificada como "quase ameaçada" visto sua ampla distribuição geográfica, pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN).[1] A onça-pintada é regulada pelo Appêndice I da Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e da Flora Silvestres Ameaçadas de Extinção (CITES): todo comércio internacional de onças-pintada é proibido. A caça é proibida na maior parte dos países onde ocorre: Argentina, Colômbia, Guiana Francesa, Honduras, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Venezuela, Estados Unidos e Uruguai; sendo que a caça de "animais-problemas" (aqueles que atacam o gado doméstico) é permitida no Brasil, Costa Rica, Guatemala, México e Peru. Na Guiana e no Equador, a espécie carece de proteção legal.[38]

Estudos detalhados realizados pela Wildlife Conservation Society mostraram que a espécie perdeu 37 % da sua distribuição histórica, e possui estado de conservação desconhecido em 17 % da sua área de ocorrência atual. A onça-pintada foi extinta em grande parte do extremo norte e sul de sua distribuição geográfica, assim como em algumas regiões da América Central e no nordeste, leste e sul do Brasil.[30] Encorajador para a conservação da espécie, é que a probabilidade de sobrevivência a longo prazo é considerada alta em 70 % de seu habitat, notadamente nas regiões da Amazônia, do Gran Chaco e do Pantanal.[25] Entretanto, apenas nesta regiões citadas a onça ainda tem chances de sobrevivência a longo prazo, enquanto que no restante de sua ocorrência, incluindo o México; a América Central; o Cerrado, a Caatinga e a Mata Atlântica, no Brasil; ela encontra-se em algum grau de ameaça de extinção a curto e médio prazo.[1] As estimativas populacionais variam ao longo da distribuição geográfica, sendo que em Belize, estimou-se que existiam cerca de 600 a mil onças no país; no México, há variação do grau de conservação ao longo do país , sendo que, em 1990, por exemplo, na província de Chiapas, havia 350 onças; e na Reserva da Biosfera Maya na Guatemala havia entre 465-550.[38] Na Argentina, ela ainda ocorre na província de Misiones, área ainda densamente florestada, mas que tem mostrado não ser suficiente para proteger as onças restantes: calculava-se uma população entre 25 a 53 animais em meados dos anos 2000, com densidades frequentemente mais baixas do que era reportado na região do Parque Nacional Iguazú, no início dos anos 1990.[86]

As maiores ameaças à onça-pintada são a fragmentação de seu habitat e a caça. A caça a suas presas habituais e consequente diminuição da densidade dessas em seu ambiente, também impacta negativamente as populações de onças.[1][87] Em áreas mais alteradas pelo homem, atropelamentos em rodovias que cortam unidades de conservação são também fatores que diminuem significativamente as populações.[88][89]

A caça para o comércio de peles já foi um grande problema na conservação da espécie: na década de 1960 houve uma diminuição significativa no número de indivíduos, pois anualmente mais de 15 mil peles foram exportadas ilegalmente da Amazônia Brasileira. A implementação da Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e da Flora Silvestres Ameaçadas de Extinção, em 1973, resultou numa forte queda do comércio de peles.[90]


O Pantanal, no Brasil, é uma das áreas em que existem as maiores populações de onça-pintada.
Entretanto, é a caça por parte de fazendeiros, que consideram o animal uma ameaça às criações de gado, uma das atividades que mais tem contribuído para extinções locais da espécie.[38] Em áreas próximas a grandes populações humanas, como em Guaraqueçaba, as onças-pintadas acabam apresentando uma preferência pelo gado doméstico, talvez por uma diminuição na densidade populacional de suas presas habituais, o que acaba incomodando os criadores de gado.[63] No Pantanal, esta atividade é parte da cultura local. A maior parte da caça acontece por conta de retaliações posteriores a ataques de onças ao gado. Mas também são frequentes as caçadas "desportivas" (assim como da onça-parda) mesmo sendo ilegal em muito dos países que habita, principalmente no Brasil. Por causa desse tipo de relação a onça é considerada um animal problema para muitos dos habitantes de sua área de distribuição. Por outro lado, é uma importante espécie bandeira para a comunidade científica, o que pode ser fonte de conflitos entre essas duas "culturas" e pode dificultar as estratégias de conservação que buscam evitar a caça. Já houve situações em que estudos de ecologia tiveram que ser interrompidos, pois os animais estudados foram mortos por caçadores, como foi o caso dos estudos de George Schaller em 1980.[26] Por isso, as principais estratégias na conservação da onça-pintada são a educação ambiental e uma integração entre pesquisadores e os habitantes das áreas que ela ocorre. Em algumas localidades do Pantanal tal integração vem ocorrendo, se mostrando eficiente nos esforços de conservação e estudos da biologia da espécie. Essa integração conta com a colaboração de ex-caçadores e as onças são estudadas com eficientes métodos de caça utilizando cães, armadilhas fotográficas e telemetria com rádio-colares. Alguns autores sugerem que a caça manejada poderia ser uma importante estratégia na conservação da onça-pintada.[76]

Como observado na região da Mata Atlântica, as estratégias de conservação da onça-pintada são dificultadas pela intensa fragmentação de seu habitat em algumas regiões. Algumas unidades de conservação em que existem onças em pequeno número estão isoladas, como nos casos da Reserva Biológica de Sooretama e da Reserva Natural Vale, que contam com populações de menos de 20 indivíduos e são os únicos fragmentos de floresta capazes de abrigar onças-pintada no Espírito Santo.[91] Por isso é necessário que se criem corredores ecológicos unindo as unidades de conservação, impedindo, inclusive, que os animais precisem sair de áreas florestadas e causem problemas às populações rurais.[25] Foi criada uma iniciativa, idealizada por Alan Rabinowitz, de que se unam todas as áreas de ocorrência da onça-pintada, desde o norte do México até a América do Sul, constituindo o chamado Paseo del Jaguar.[92][93] A onça-pintada possui uma grande população em cativeiro, pois é um animal popular em zoológicos e coleções particulares e se reproduz com relativa facilidade nessas condições.

Conservação no Brasil

Importantes unidades de conservação da onça-pintada na Mata Atlântica,[91] no Cerrado[94] e na Caatinga,[95] biomas em que ela se encontra em alto risco de extinção no Brasil. A onça já foi extinta dos Pampas.
O Brasil detém cerca de 50% das populações de onça-pintada em estado selvagem, a maior parte delas na Amazônia. É no Brasil em que se foi registrada as maiores densidades da espécie, também. Ela ocorre em todos os biomas brasileiros (exceto nos Pampas, onde foi extinta), com diferentes estados de conservação em cada um destes.[87] Estima-se que existam até 55 mil indivíduos em todo o Brasil, mas com uma população efetiva inferior a 10 mil.[96] Estudos demográficos concluíram que uma população de mais de 200 indivíduos em uma unidade de conservação é adequada para uma sobrevivência a longo prazo da espécie, mas a maior parte destas áreas protegidas está na Amazônia e no Pantanal. Na Mata Atlântica nenhuma população é viável por mais de 100 anos.[87]

Dada esta situação, a onça-pintada é listada como "vulnerável" pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (Portaria MMA N.º 444 de 17 de dezembro de 2014[97]). Entretanto, seu estado de conservação varia pelo país, sendo considerada "criticamente em perigo" nos estados de São Paulo,[98] Minas Gerais,[99] Espírito Santo,[100] Bahia,[101] Rio de Janeiro[102][103] e Paraná[104] e "em perigo" em Santa Catarina,[105] o que alerta para uma extinção da espécie nesses estados em um futuro muito próximo.

Na Mata Atlântica, a população total não ultrapassa estimativas entre 156 e 180 indivíduos, e a população efetiva não é de mais de 50 indivíduos, sendo classificada como "criticamente em perigo".[108][109] Neste bioma os locais com as maiores populações de onça-pintada são a Serra do Mar (estimativas entre 31 a 51 animais adultos), o Parque Nacional do Iguaçu e o Parque Estadual do Turvo (que são contínuos por meio do "Corredor Verde", da província de Misiones, na Argentina, possuindo juntos estimativas de no máximo 32 indivíduos adultos), o Pontal do Paranapanema (principalmente no Parque Estadual do Morro do Diabo), o Parque Nacional de Ilha Grande e as várzeas do rio Ivinhema (essas três áreas juntas têm estimativas em torno de 52 onças). Em Minas Gerais a maior população está no Parque Estadual do Rio Doce, com apenas 13 animais. Além do número baixo de indivíduos houve drástica redução na população de onça-pintada na Mata Atlântica em tempos recentes. Em menos de 15 anos é provável que ela tenha se reduzido em até 87 % na região de Foz do Iguaçu. Também foi extinta entre 1960 e 1990 do litoral de Santa Catarina e Rio Grande do Sul e algumas projeções apontam para a extinção da onça em 88 anos na região do Alto Paraná. Em outras regiões, a espécie está completamente restrita a unidades de conservação e em número muito reduzido: no Parque Nacional do Monte Pascoal, a estimativa está entre 1 e 5 animais, e apenas um indivíduo deve ocorrer na Serra do Espinhaço.[91] A Mata Atlântica é o bioma tropical com maior probabilidade de extinção da onça-pintada a curto prazo, e apesar de 24% dos remanescentes de floresta serem adequados para a ocorrência da espécie, ela ocorre em apenas 7% deles.[108] Ademais, a recuperação das populações de onça-pintada, neste bioma, é problemática, visto o alto grau de degradação e perda de habitat: é necessária a integração, via corredores ecológicos, das unidades de conservação onde ela ainda ocorre.[110] No Rio de Janeiro, uma onça-pintada foi registrada por armadilhas fotográficas no Santuário da Vida Silvestre da Serra da Concórdia, em Valença.[111]

Na Caatinga, a situação também é crítica, com estimativas não ultrapassando 250 indivíduos adultos, apesar de que pouco se conhece acerca da demografia da onça-pintada neste bioma. A população está dividida em 5 subpopulações, sendo que apenas as que ocorrem no complexo dos parques nacionais da Serra da Capivara e da Serra das Confusões (que juntas somam até 78 indivíduos adultos), no Piauí, e a região de Boqueirão da Onça, na Bahia (com até 64 animais adultos), possuem boas perspectivas de sobrevivência a longo prazo. Nestes parques, a densidade de onças ultrapassa 2 indivíduos por 100 quilômetros quadrados, entretanto, ela é muito baixa em outras regiões, não chegando a 0,5 indivíduo por 100 quilômetros quadrados. A Chapada Diamantina é outra região onde ainda pode ocorrer onças em números significativos, embora as densidades sejam baixas (estima-se que existam no máximo 25 onças na região). Essas três subpopulações não parecem ser inteiramente isoladas entre si, o que daria melhores perspectivas para a sobrevivência da onça nessas regiões. Por fim, as duas últimas subpopulações, no Raso da Catarina e em Bom Jesus da Lapa são as mais severamente ameaçadas, possuindo apenas 8 e 5 animais adultos, respectivamente, além de serem as mais isoladas entre si. Além da crescente perda de habitat (mais de 60% da caatinga já foi alterada pelo homem), a onça-pintada na caatinga é ameaçada pela caça, principalmente como forma de retaliação por fazendeiros e a diminuição das presas disponíveis, o que é uma constante mesmo em áreas relativamente isoladas e protegidas.

No Cerrado, a onça-pintada é classificada como em melhor situação do que na Caatinga e na Mata Atlântica. Entretanto, ela também está ameaçada, principalmente por conta do agronegócio, que converteu mais da metade do Cerrado em campos cultivados nos últimos 50 anos. A construção de usinas hidrelétricas e a mineração também são causas de perda do habitat. A caça como forma de retaliação por fazendeiros e a diminuição de presas disponíveis são ameaças diretas às populações remanescentes, mesmo em áreas protegidas. As estimativas são de que não existam mais de 323 indivíduos adultos, divididos em 11 subpopulações. A maior parte das onças do Cerrado encontra-se no complexo dos parques nacionais do Araguaia (cerca de 53 onças) e das Nascentes do Rio Parnaíba (estimativas de até 69 adultos), no complexo dos parques nacionais do Grande Sertão Veredas e Cavernas do Peruaçu (os dois juntos contam com até 56 onças) e no norte de Goiás e sul do Tocantins (as duas regiões somadas contam com 61 adultos). Outras subpopulações significativamente menores incluem as dos parques nacionais da Serra da Bodoquena (seis adultos), Emas (sete adultos) e Chapada dos Guimarães (estimativa de até 19 onças adultas) e o Parque Estadual do Mirador (com até 20 animais adultos).[94]

O Pantanal possui uma das maiores densidades registradas da onça-pintada (entre 6,5 e 7 indivíduos por 100 quilômetros quadrados).[112] Além, disso, este bioma foi pouco alterado pelo homem, apesar de na bacia do Alto Paraguai mais de 50% da vegetação já ter sido alterada. Essa situação coloca a onça-pintada no Pantanal como "quase ameaçada", situação melhor que no Cerrado ("em perigo"), na Mata Atlântica e Caatinga (ambas em situação "crítica"). Visto ser região com criação de gado, a caça como retaliação por conta de ataques ao gado, é uma das maiores ameaças.[112] Entretanto, em unidades de conservação do Pantanal, como o Parque Nacional do Pantanal Matogrossense, a onça-pintada tem boas perspectivas de sobrevivência a longo prazo.[87][110]

Na Amazônia, apesar de ser estimado ocorrerem mais de 10 mil indivíduos adultos (a maior estimativa para todos os biomas), com uma densidade média de 1 a 2 onças a cada 100 quilômetros quadrados (com maior densidade em áreas alagáveis bem preservadas), é considerada como "espécie vulnerável": o crescente desmatamento, a caça e a diminuição de presas disponíveis colocam a onça-pintada em algum grau de ameaça na Amazônia brasileira. As populações não estão separadas, mas em um futuro próximo ela pode estar divida entre 4 ou 5 subpopulações. Destas, 4 estariam no "arco do desflorestamento", e se o atual ritmo de desmatamento continuar, as populações do sudoeste de Rondônia, nordeste do Mato Grosso e norte do Maranhão estarão extintas em 100 anos (há chance de sobrevivência apenas das populações no sul do Pará). No século XX, principalmente nos anos 60, a grande ameaça à onça-pintada na Amazônia era o comércio internacional de peles, atividade que está proibida atualmente.[2] Ainda assim, a espécie vem sendo caçada como troféu[113][114] e também por conta de conflito de interesses com fazendeiros de gado. A diminuição das presas disponíveis também se constitui em ameaça importante.[2]

Um plano nacional para a conservação da espécie foi estabelecido em 2009.[115] A onça-pintada ocorre em pelo menos 91 unidades de conservação brasileiras,[96] e destas, foram definidas 20 unidades de conservação como prioritárias para a conservação da onça-pintada no Brasil, entre terras indígenas, áreas de uso sustentável e de proteção integral. Embora na Amazônia e Pantanal grande parte da vegetação seja contínua, isso não ocorre nos outros biomas, principalmente na Mata Atlântica, o que torna necessário estudos de ecologia da paisagem para a aplicação do plano. Com a aplicação desse plano, com a integração das várias unidades de conservação da onça-pintada, é possível salvar a espécie da extinção, principalmente por conta de ainda existirem populações saudáveis e viáveis a longo prazo no Brasil.[115]

Conservação nos Estados Unidos: Nos Estados Unidos, a onça-pintada foi citada, historicamente, por Thomas Jefferson em 1799.[116] Há inúmeras citações da espécie na Califórnia, duas tão ao norte quanto Monterey em 1814 (por Langsdorff) e em 1826 (por Beechey).[117] O povo Kumeyaay de San Diego e o povo Cahuilla de Palm Springs tinham palavras para a onça-pintada e ela ocorreu neste locais até 1860.[118] A única descrição de uma ninhada de onças nos Estados Unidos foi nas Montanhas Tehachapi da Califórnia, antes de 1860.[117] Em 1843, Rufus Sage, um explorador e experiente observador registrou a presença da onça-pintada na nascente do rio Platte Norte, ao norte do Longs Peak no Colorado. O mapa de Sebastião Caboto de 1544 tinha um desenho de onça-pintada nos vales da Pensilvânia e Ohio. Historicamente, a espécie foi registrada no leste do Texas, norte do Arizona e Novo México. Entretanto, desde a década de 1940, a onça-pintada tem se limitado ao sul desses estados. Artefatos de nativos americanos relacionados a esse felino sugerem uma ocorrência desde o Noroeste Pacífico até a Pensilvânia e a Flórida.[28]

Atualmente os registros de onça-pintada nos Estados Unidos se resumem a avistamentos eventuais de machos, provavelmente não residentes.[30] A espécie foi rapidamente eliminada nos Estados Unidos. A última fêmea foi morta em 1963, nas White Mountais, no Arizona. A caça da onça-pintada foi proibida em 1969, mas já não restava nenhuma fêmea e os únicos dois machos encontrados foram mortos. Em 1996, Warner Glenn, um fazendeiro e guia de caça de Douglas, encontrou uma onça-pintada nas Montanhas Peloncillo e se tornou um pesquisador da espécie, instalando câmeras que registraram outros quatro indivíduos.[119] Nenhum desses machos registrados no Arizona durante 15 anos foram avistados desde 2006.[120] Até que em 2009 o indivíduo nomeado "Macho B" morreu, logo após ter sido marcado pelo Arizona Game and Fish Department. Em 2011, um macho de cerca de 90 quilos foi fotografado perto de Cochise, sul do Arizona, após ter sido detectado por cães. Um segundo avistamento aconteceu em 2011, também no Arizona, e pesquisadores confirmaram a presença de dois indivíduos próximo à fronteira com o México em 2010.[121] Em setembro de 2012 outro indivíduo foi fotografado na Serra de Santa Rita do Arizona, o segundo registro em dois anos.[122] Aparentemente esse mesmo indivíduo foi fotografado inúmeras vezes em 9 meses, até junho de 2013.[123]

Em 1996 e 2004, guardas florestais no Arizona fotografaram e documentaram onças-pintadas na parte sul do estado. Entre 2004 e 2007 dois ou três onças foram reportadas por pesquisadores no sul do Arizona: um deles, chamado "Macho B", já havia sido avistado em 1996.[124] Em 2 de março de 2009, descobriu-se que esse indivíduo, "Macho B", possuía insuficiência renal, e foi eutanasiado. É a onça-pintada com maior longevidade em estado selvagem.[125] Para que exista uma população permanente e viável nos Estados Unidos, a proibição da caça, a existência de presas e a conectividade com populações do México são essenciais.[126] Em 25 de fevereiro de 2009, um macho de 53,5 quilos foi capturado e marcado em um área a sudoeste de Tucson, que é uma região mais ao norte do que esperado, que tinha sugerido a possibilidade de existir alguma população residente no sul do Arizona.[127] Entretanto, estudos com armadilhas fotográficas, confirmaram que esse era o mesmo macho encontrado na Serra de Santa Rita, e que provavelmente é um indivíduo proveniente do noroeste do México. Atualmente, ele é considerado o único exemplar de onça-pintada nos Estados Unidos, e foi nomeado El Jefe (O chefe, em espanhol). O muro fronteiriço Estados Unidos-México pode inviabilizar o estabelecimento de populações de onça-pintada nos Estados Unidos, já que pode impedir o fluxo gênico com indivíduos do México.

Aspectos culturais

Culturas mesoamericanas
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Guerreiro-jaguar na cultura asteca.
Nas culturas pré-colombianas das Américas Central e do Sul a onça-pintada foi um símbolo de força e poder. Entre as culturas andinas, o culto ao jaguar foi disseminado pela cultura Chavín e passou a ser aceito na maior parte do que é hoje o Peru a partir de 900 a.C. A cultura Moche, do norte do Peru, utilizava a onça como símbolo de poder em muitas das suas cerâmicas.[131][132][133]

Na Mesoamérica, a cultura Olmeca, precoce e influente na região da costa do Golfo do México, aproximadamente contemporânea da Cultura Chavín, desenvolveu um distinto "homem-jaguar" motivo de esculturas e figuras que mostram onças estilizadas ou seres humanos com características de onça. Na Civilização maia, acreditava-se que a onça-pintada facilitava a comunicação entre os vivos e os mortos e protegia a família real. Os maias viam esses felinos poderosos como os seus companheiros no mundo espiritual. Uma série de governantes maias tinham nomes que incorporavam a palavra maia para a onça-pintada, b'alam. A civilização asteca compartilhou essa imagem do jaguar como representante do governador e como guerreiro. Os astecas formaram uma classe de guerreiros de elite conhecidos como guerreiros jaguares. Na mitologia asteca, a onça-pintada foi considerada o animal totêmico do poderoso deus Tezcatlipoca.[134]

Cultura contemporânea
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O Exército brasileiro mantém onças como mascote.
A onça-pintada ainda é amplamente usada em manifestações simbólicas. Interessante notar que ela "ofusca" a presença de outros predadores aos moradores dos locais em que habita: a onça-pintada certamente é um dos animais mais conhecidos da fauna brasileira, fazendo com que a "outra onça", a onça-parda, seja completamente ignorada em algumas ocasiões.[76][135] É o animal nacional da Guiana, e é representada em seu brasão.[136] A bandeira do Departamento do Amazonas, da Colômbia, representa uma silhueta preta de onça pulando em direção a um caçador.[137] A onça-pintada também é representada na cédula de cinquenta reais, no Brasil.[138] Dado sua associação à força e ferocidade, o 61.º Batalhão de Infantaria de Selva do Exército Brasileiro, em Cruzeiro do Sul, possui uma onça-pintada como mascote e é relativamente comum que ela seja usada como mascote pelas Forças armadas do Brasil, principalmente em batalhões na região amazônica.[139][140]

Mesmo em indígenas sul-americanos contemporâneos a onça faz parte da mitologia e folclore, sendo um animal que é capaz de dar aos homens, o poder sobre o fogo.[141] Os guaranis a consideram um animal perigoso, e muitas vezes considerada um inimigo de toda a humanidade, capaz de destruí-la inteira.[142] Dado isso, entre os guaranis, matar uma onça é uma forma de mostrar que não se é mais criança, e isso confere um status social elevado na comunidade. Deve-se salientar que essa visão contrasta com a de populações urbanas atuais, que muitas vezes possui uma visão romântica de como seria um encontro com uma onça-pintada.[142] Ser um bom caçador de onças também confere elevado status social entre os homens guató, que podem até mesmo ter várias esposas dado uma elevada posição entre os caçadores.[76]


Onça-pintada morta pelo ex-presidente americano Theodore Roosevelt.

Representação de caçada com cães, Ilha do Bananal, Tocantins – MHNT.
Para alguns povos da Bacia Amazônica, a onça-pintada simboliza o sexo, reprodução e fuga da morte, sendo uma inimiga do tamanduá-bandeira, considerado um trickster.[143] Em um conto do povo Shipibo-conibo, a onça-pintada foi desafiada pelo tamanduá a ficar mais tempo debaixo d'água sem respirar, e após ela aceitar e submergirem, o tamanduá roubou sua pele como travessura, e deixou sua para o grande felino: a partir de então, a onça e o tamanduá passaram a ser inimigos.[144]

Apesar dos raros registros de humanos atacados pela onça-pintada e de a espécie ser vista como um animal belo, ela é tida como um animal perigoso.[76][145] Muitas vezes, ela é responsabilizada por qualquer morte de animal doméstico, mesmo que não seja responsável.[135] Dado esse "perigo", não raro ser um "caçador de onça" pode ser símbolo de status, não somente entre povos indígenas atuais, mas também entre fazendeiros e funcionários de propriedades rurais, principalmente no Pantanal. Entre pantaneiros, saber como caçar uma onça demonstra astúcia e coragem, dadas as dificuldades relacionadas a essas caçadas. Esses valores relacionados à onça-pintada, tanto entre povos indígenas e descendentes de europeus, se relacionam a uma mistura de medo, respeito e admiração pelo animal Por isso, caçar uma onça-pintada é uma atividade carregada de simbolismo, representando muitas vezes, um enfrentamento entre "homem e natureza".[76]

A zagaia, uma lança construída especificamente para matar onças, possui extremo valor simbólico neste contexto, pois é um instrumento frágil e que coloca o caçador em uma posição vulnerável em comparação ao animal. Ela também tem um importante componente indígena e inspirou até mesmo caçadores estrangeiros, como Sasha Siemel, em seu livro Tigrero!. O ex-presidente norte-americano Theodore Roosevelt também viu na caça à onça-pintada fonte de inspiração para seus ideais sobre a caça esportiva e os estudos sobre a natureza.[76]

A caça à onça-pintada também tem outras manifestações simbólicas, não diretamente relacionadas a essa atividade, como é o caso do personagem "amigo da onça", criado por Péricles de Andrade Maranhão, e que representa a figura de um "falso amigo",[146] ou o conto de Guimarães Rosa, Meu Tio o Iauaretê, que conta a história de um caçador de onças e sua conflituosa relação com o "mundo dos homens", passando a se tornar uma onça também.[76]

Associações simbólicas do felino não se relacionam somente à comunidades locais a sua ocorrência e à caça. O sinônimo de onça-pintada, "jaguar", é utilizado amplamente em nomes de marcas, como no carro Jaguar.[147] Esse mesmo nome também é utilizado em franquias esportivas, como no time da National Football League, Jacksonville Jaguars, e no time de futebol mexicano, Jaguares de Chiapas.[148] Nos Jogos Olímpicos de Verão de 1968, na Cidade do México, uma onça-pintada vermelha foi o primeiro mascote oficial.

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sábado, 4 de abril de 2026

HIP-HOP (GÊNERO MUSICAL ESTADUNIDENSE)

Foto dos rappers brasileiros X e GOG com o DJ A em 12 de novembro de 2025.
  • OUTROS NOMES: Hip hop, rap, music rap
  • ORIGENS ESTILÍSTICAS: Disco, funk, jazz, blues, scat singing, R&B, soul, dub, spoken word, talking blues, performance poetry
  • ORIGENS CULTURAIS: Início da década de 1970; Bronx, Nova York, EUA
  • INSTRUMENTOS TÍPICOS: Voz (rap, canto), toca-discos, mixer, bateria eletrônica, sampler, sequenciador, sintetizador, teclado
  • FORMAS DERIVADAS: Breakbeat, Baltimore club, Beatdown hardcore, Contemporary R&B, Florida breaks, footwork, funk, ostentação, ghetto house, ghetto tech, glitch hop, grime, illbient, Latin freestyle, wonkynu metal, funk cariocare, ggaeton, alternative reggaeton, mahraganat
  • SUBGÊNEROS: Hip-hop alternativo, boom bap, bounce, rap brasileiro, geek, Brooklyn drill, rap chicano, chopper, chopped and screwed, hip-hop cristão, cloud rap, comédia hip-hop, hip-hop consciente, crink, disco rap, dirty rap, drill, hip-hop da Costa Leste, hip-hop experimental, frat rap, freestyle rap, funk carioca, G-funk, angsta rap, hardcore hip-hop, hipster hop, horror core, hyphy, instrumental hip-hop, jerk hexd, hip-hop judaico, jerk rap, hip-hop latino, trap latino, lofi hip-hop, lowend, rap de Memphis, Miami bass, mumble rap, nerd core, phonk plugg (pluggnb), hip-hop político, progressivo rap, rage, road rap, cam raps, snappsi gil kore, hip-hop do Sul, tread trap, turntablism, UK drill, hip-hop da Costa Oeste
  • GÊNEROS DE FUSÃO: Country rap, electro, chap hop, emo rap, hip-hop soul, neo soul, digico reglitch core, hip house, crunk core industrial hip-hop jazz rap new jack swing psychodelic pop rap punk rap (rapcore) ragga hip-hop rap operar rap rock (rap metal), trap metal trip hop
  • CENAS REGIONAIS: African hip-hop, Asian hip-hop, Australian hip-hop, European Hip-hop, Hip-hop latino, Hip-hop do Oriente Médio
  • CENAS LOCAIS: Hip-hop do Meio-Oeste, Hip-hop do Sul, Hip-hop da Costa Leste, Hip-hop da Costa Oeste
  • OUTROS TÓPICOS: Hip-hop old-school, Hip-hop new-school, Hip-hop da era de ouro, Hip-hop underground, Rap da internet, Rap do SoundCloud
O hip-hop (também conhecido como rap music ou simplesmente rap) é um gênero de música popular que surgiu no início da década de 1970, juntamente com uma subcultura associada na cidade de Nova York. O estilo musical é caracterizado pela síntese de uma ampla gama de técnicas, mas o rap é tão frequente que se tornou uma característica definidora. Outros marcadores importantes do gênero são o disc jockey (DJ), o turntablismo, o scratching, o beatboxing e as faixas instrumentais. O intercâmbio cultural sempre foi central para o gênero hip-hop; ele simultaneamente se apropria de seu ambiente social ao mesmo tempo que o comenta.

ETIMOLOGIA

"Hip-hop" é usado desde o século XVII para significar uma sucessão de saltos. Na peça de George Villiers de 1671, The Rehearsal, o Príncipe Volscius sai de cena desajeitadamente com uma bota calçada e a outra descalça. O diretor da cena exclama: "sair com um hip hop, hip hop, nesta ocasião, é mil vezes melhor do que qualquer conclusão no mundo".

Uma variação comum de "hip hop" é "hippity hop", que era amplamente utilizada no século XIX. Aparece em obras como um poema de 1882 onde quatro crianças cantam: "Hippity hop para a loja de doces!" Era um refrão comum em jogos de pular corda.

Muitos passos de dança incluem um salto. No século XVIII, "salto" começou a ser usado indistintamente com "dança" como substantivo e verbo.

Foto promocional do grupo de hip-hop Grandmaster Flash and The Furious Five. Distribuída em 14 de abril de 1982 pela Sugarhill Records.

Uso: Um dos primeiros usos de "hip hop" na música popular gravada é encontrado na canção de dança de 1963 dos Dovells, "You Can't Sit Down", "...you gotta slop, bop, flip flop, hip hop, never stop". Uma década depois, os DJs de disco recheavam seus sets com exortações à multidão, razão pela qual o estilo emergente era originalmente conhecido como "disco rap". Um dos cânticos do DJ Hollywood era "hip hop de hippy hop the body rock".  Lovebug Starsky lembra-se de ter originado a frase quando errou a transição entre discos: "Peguei o microfone e comecei a dizer 'a hip hop, hip hop, de hibbyhibbyhibbyhibby hop'", reivindicando o crédito pela invenção do nome em 1979.

Em outra versão da história de Starsky, ele cunhou o termo "hip-hop" com Keef Cowboy, do Grandmaster Flash and the Furious Five, enquanto trocavam farpas com um amigo que estava indo para o Exército. Kidd Creole relembra a cena sem a presença de Lovebug: "Cowboy estava no microfone brincando com aquela cadência do Exército: Hip/Hop/Hip/Hop... A Disco era o auge na época, e a galera da Disco se referia a nós como 'Hip Hoppers', mas eles usavam o termo de forma pejorativa. Mas Cowboy foi o primeiro que eu ouvi fazer isso com a música, como parte da reação do público."

A frase era de uso comum na época em que o Sugarhill Gang gravou "Rapper's Delight" em 1979. O refrão começa: "Eu disse um hip-hop, o hippie, o hippie/Para o hip, hip-hop e você não para de rockar".

No início da década de 1980, a definição de hip-hop expandiu-se para "o termo abrangente para a subcultura de rua que inclui rap, break, grafite e o uso de roupas de grife". Afrika Bambaataa foi fundamental para transformar o termo em uma força positiva por meio de sua Universal Zulu Nation.  Seu movimento social era antidrogas e antiviolência.

À medida que os rappers começaram a dominar o hip-hop, os termos tornaram-se sinônimos. No entanto, a definição de hip-hop sempre se aplicou a toda a sua cultura. Seus quatro elementos principais incluem rap, discotecagem, breakdance e arte de rua.  O conhecimento é às vezes descrito como um quinto elemento, ressaltando seu papel na formação de valores e na promoção do empoderamento e da conscientização por meio da música.

KRS-One identificou elementos adicionais: autoexpressão, moda de rua, linguagem de rua, conhecimento de rua e empreendedorismo de rua. Ele também reconheceu o salto duplo holandês feminino como um componente estilístico chave do breakdance.

Além de se apropriar da cultura, o hip-hop simultaneamente a comenta. Das suas raízes no Bronx ao seu atual alcance global, o hip-hop tem servido como uma voz para os marginalizados, lançando luz sobre questões como a desigualdade racial, a pobreza e a brutalidade policial.

CONTEXTO HISTÓRICO

Conjunto de toca-discos Technics 1200 com um mixer Vestax PMC-06 Pro A, usado para turntablismo. Foto tirada em 21 de fevereiro de 2004.
O meio inicial do hip-hop foi o toca-discos. Os discos de vinil eram a principal fonte para os DJs que reelaboravam músicas, transformando-as em material novo para dançar. O processo ecoava a apropriação de estilos que criou o jazz décadas antes. Os gêneros que o hip-hop assimilou inicialmente eram variados, mas suas principais fontes foram os discos de disco e funk.

Em nenhum lugar essa polinização cruzada de músicas foi melhor exemplificada do que na ilha caribenha da Jamaica, onde os sinais de rádio AM de Miami, Flórida, eram audíveis. No final da década de 1950, as estações americanas tocavam música rhythm and blues muito mais revigorante do que a BBC, que era distribuída pelo único canal de rádio da ilha, a Jamaica Broadcasting Corporation.  DJs americanos como Jocko Henderson e Jockey Jack introduziram discos de R&B e a gíria jamaicana na ilha. DJs locais logo começaram a montar sistemas de som para festas ao ar livre. Uma cena musical vibrante surgiu. A gíria dos DJs americanos se transformou em brindes em crioulo jamaicano.

A gíria popularizou as estações de rádio voltadas para o público negro no período pós-guerra. Seus duplos sentidos foram uma dádiva para o rádio, revitalizando a audiência de emissoras em declínio. Ela surgiu de tradições como chamada e resposta, signifyin', the dozens , capping e poesia jazz. A transição da tradição oral para as ondas de rádio comerciais foi exemplificada por DJs da WDIA, como Nat D. e Rufus Thomas . Seu estilo de falar no ar foi aprimorado durante suas funções como apresentadores na Noite dos Amadores do Palace Theatre, na Beale Street, em Memphis, Tennessee. DJs como Al Benson, de Chicago (WJJD), Doctor Hep Cat, de Austin (KVET), e Jockey Jack, de Atlanta (WERD), falavam o mesmo estilo de rap rimado e cadenciado. Eles poderiam apresentar um grande músico como: "Aqui está um cara que vai te fazer mudar da periferia da cidade porque ele respira gás natural... então relaxe e ouça um cara realmente incrível que carregou sua caixa de conhecimento na casa dos justos e pode soprar." Muitos DJs brancos, como John R Richbourg na WLAC de Nashville, imitavam a gíria sulista e o dialeto coloquial, e trocaram a música swing por blues e bebop. Os rappers de gíria do rádio dos anos 1950 inspiraram comediantes musicais como Rudy Ray Moore, Pigmeat Markham e Blowfly, juntamente com o cantor de soul James Brown . Eles foram chamados de "padrinhos" da música hip-hop.

A fala rítmica do rap é uma prática antiga, codificada inicialmente pelos gregos. Na música ocidental do século XX, foi uma prática amplamente utilizada em tudo, desde o sprechstimme até o talking blues. As raízes do rap na música afro-americana são facilmente rastreadas até os griôs na cultura da África Ocidental. Bo Diddley fez vários discos de spoken word influentes, e a canção "Noah" do grupo gospel THE JUBALAIRES, de 1946, é frequentemente vista como precursora do rap. Outros discos de spoken word notáveis foram I Am the Greatest (1963), de Muhammad Ali, e "Here Comes the Judge" (1968), de Pigmeat Markham. O estilo de Ali teve uma enorme influência no hip-hop. Ele era conhecido como um "trapaceiro rimador" devido à maneira peculiar como entregava suas bravatas, provocações e frases inesquecíveis. Muitos de seus monólogos eram improvisações freestyle que se tornariam uma habilidade vital para os rappers de hip-hop da velha guarda.

Na cidade de Nova Iorque, a poesia falada de artistas como The Last Poets , Jalal Mansur Nuriddin e Gil Scott-Heron teve um impacto significativo na era pós-direitos civis. Eles ajudaram a estabelecer o ambiente cultural no qual a música hip-hop foi criada.

Durante esses anos de proto-rap na América, a música jamaicana apresentava regularmente discos falados como "Righteous Ruler" de U-Roy e Peter Tosh e "Fire Corner" de King Stitt em 1969.  Os DJs jamaicanos também remixavam muito as gravações para gerar novos sons. Duke Reid comandava seu sistema de som, mexendo nos botões até que o disco que estava tocando se tornasse irreconhecível. No estúdio, artistas como King Tubby removiam os vocais dos discos para criar uma nova versão. O interesse do público por esses remixes tornou-se tão grande que singles foram lançados com a versão original de um lado e a "versão" do outro. A mistura eclética de técnicas de produção ficou conhecida como dub music, e é o precedente artístico mais forte para o hip-hop.

NASCIMENTO DO HIP-HOP (1973–1979)

Na década de 1970, o Bronx foi dividido ao meio pela Cross Bronx Expressway. A construção acelerou a "fuga branca" do bairro e concentrou moradores afro-americanos, latino-americanos e caribenhos de baixa renda na metade sul do distrito. Essa enorme comunidade multiétnica da classe trabalhadora é onde nasceu o hip-hop. As tradições dessas etnias influenciaram o gênero emergente.  Como toda música, o hip-hop refletiu as realidades sociais, econômicas e políticas de seus criadores, que às vezes eram marginalizados e excluídos.

O gênero dominante da época era a disco. Até mesmo as estações de rádio voltadas para o público negro tocavam sucessos da disco, visando um público suburbano maior. A maneira como a Europa despojou o funk e a disco da essência negra e os simplificou tornou-se alvo de paródia na comunidade negra. George Clinton satirizou impiedosamente isso como "A Síndrome do Placebo" em sua mitologia do P-Funk.  Mesmo que a disco tenha dado origem ao hip-hop, grande parte do espírito inicial do gênero era uma rebelião contra sua origem. O hip-hop primeiro teve que herdar o rico acervo de técnicas de estúdio e de DJ que a disco inovou.

DJ Kool Herc com James Brown em um single, dois homens importantes. Foto tirada em 1999.

Tornou-se moda entre os dançarinos usar a pausa instrumental de uma música para exibir seus melhores movimentos. Alguns até adiavam a dança até que a pausa na música começasse. A prática ficou conhecida como "breakdance" e aumentou a demanda por breaks que os DJs logo forneceriam. Esses dançarinos ficaram conhecidos como "B-girls" e "B-boys". "B" podia ser abreviação de "break", "beat", "battle" ou "Bronx", dependendo de quem o usava.

Um dos clubes mais populares era o Plaza Tunnel, no subsolo do Hotel Concourse Plaza, onde o DJ John Brown reinava. Para manter as pessoas animadas, ele mixava uma grande variedade de músicas, como "It's Just Begun" do Jimmy Castor Bunch, "Get Into Something" dos Isley Brothers, "Moment of Truth" do Earth, Wind & Fire, "Get Ready" do Rare Earth, "Maggie" do Redbone e " I'm a Man " do Chicago.

Os breakdancers valorizavam a originalidade. Eles criavam movimentos característicos que outros breakers apenas imitavam para superá-los. A ênfase na criatividade estendia-se aos DJs que batalhavam entre si. Eles até replicavam a prática jamaicana de remover os rótulos dos discos para manter seus breaks em segredo de outros DJs. Muitos dos primeiros DJs de hip-hop eram imigrantes do Caribe. As técnicas que eles usavam para gerar novo material a partir de discos de vinil existentes eram familiares à música dub jamaicana. O hip-hop começou a desenvolver seu próprio código moral que valorizava a verdade e a engenhosidade em detrimento da mera imitação.

DJs descobriram que certos breaks eram extremamente populares em discos como "Listen To Me" de Baby Huey, "Give It Up or Turnit a Loose" de James Brown, "Son of Scorpio" de Dennis Coffey, "Bra" de Cymande, "Funky Music Is the Thing" de Dynamic Corvettes, "Fruit Song" de Jeannie Reynolds, bem como "Apache" e "Bongo Rock" da Incredible Bongo Band.  DJ Kool Herc descobriu uma maneira de prolongar esses breaks fazendo um crossfade entre duas cópias do mesmo disco. A fama inicial de Herc veio de seu sistema de som, que contava com um amplificador McIntosh Laboratory e duas colunas de alto-falantes Shure. Ele o apelidou de "The Herculords", e isso lhe rendeu uma enorme legião de fãs.

DJ Hypnotize e Baby Cee tocando no Flickr por -sa imagem em 27 de março de 2007, 22:04:05.

Seu método de tocar breaks era extremamente rudimentar, no entanto. Herc simplesmente estimava onde o break estava enquanto tentava estendê-lo. Frequentemente, ele tinha que falar por cima da transição, pois os breaks não coincidiam. Foram DJs como Grand Wizzard Theodore, Jazzy Jay e Grandmaster Flash que aperfeiçoaram o truque. Eles desenvolveram uma técnica conhecida como "needle drop", posicionando os breaks com precisão nos fones de ouvido para criar uma transição perfeita entre os dois toca-discos. Assim que o primeiro break terminava, eles faziam um crossfade para o segundo toca-discos, que estava posicionado no início do break. Enquanto o segundo disco tocava, eles giravam o primeiro disco ao contrário até o início do break e faziam o crossfade para ele quando o segundo break terminasse. Esse método permitia que um break fosse prolongado indefinidamente. Esses breaks estendidos ficaram conhecidos como "breakbeat". Quando um disco em reprodução é invertido, o som é distorcido. O efeito tornou-se moda e eventualmente evoluiu para a técnica hip-hop conhecida como "scratching".

Festas de quarteirão: Fora das discotecas, a maior incubadora do hip-hop eram as festas de rua. Os DJs ligavam os seus sistemas de som aos postes de luz. Um anfitrião proeminente destas festas no início da década de 1970 foi o Rei da Disco, Mario. Como líder dos Black Spades dos Bronxdale Houses, Mario contava com a gangue para proteger os seus eventos.

Kool Herc começou a estender os intervalos em uma festa de aluguel de volta às aulas que sua irmã Cindy Campbell organizou na sala de recreação do prédio onde moravam, no número 1520 da Avenida Sedgwick, no lado sudoeste do Bronx. A data da festa, 11 de agosto de 1973, foi agressivamente divulgada como o "Nascimento do Hip-Hop". Os Campbells emigraram da Jamaica quando Herc tinha 12 anos. Inicialmente, Herc negou qualquer conexão entre a cena musical jamaicana e seu trabalho. Mais tarde, ele reconheceu os paralelos.

Foto da fachada do número 1520 da Avenida Sedgwick, no Bronx Ocidental. Kool Herc, geralmente considerado o criador do hip-hop, morou e deu suas primeiras festas neste prédio. Foto de 21 de Julho de 2009.

O estilo de Kool Herc atraiu seguidores que ultrapassaram os limites da sala de recreação, e ele se juntou à próspera cena das festas de rua. Essas festas eram uma válvula de escape para os adolescentes, onde "em vez de se meterem em encrenca nas ruas, os jovens agora tinham um lugar para gastar sua energia reprimida". Tony Tone, membro dos Cold Crush Brothers , afirmou que "o hip hop salvou muitas vidas". Para os jovens da periferia, participar da cultura hip hop tornou-se uma forma de lidar com as dificuldades da vida como minorias nos Estados Unidos e uma válvula de escape para lidar com o risco de violência e a ascensão da cultura de gangues. MC Kid Lucky menciona que "as pessoas costumavam dançar break umas contra as outras em vez de brigar".

Um evento típico de hip-hop era um show triplo com DJ, MC e dançarinos de break. Artistas de grafite decoravam o palco e criavam flyers e pôsteres.  Grande parte do grafite, do rap e do b-boying nessas festas eram variações artísticas da rivalidade entre gangues de rua. Percebendo que os impulsos frequentemente violentos dos membros de gangues poderiam ser transformados em impulsos criativos, Afrika Bambaataa fundou a Zulu Nation, uma confederação informal de grupos de dança de rua, artistas de grafite e músicos de rap. O Rock Steady Crew era um grupo de dançarinos de break que incluía membros de Porto Rico.

Durante o apagão de Nova York em 1977, os equipamentos de DJs foram amplamente saqueados devido à popularidade do gênero emergente. Kool Herc recorda: "No dia seguinte, havia mil novos DJs." Em 1978, a revista Billboard notou a popularidade dos "B-beats" no Bronx.

Rap: O hip-hop evoluiu sem o rap como requisito do gênero, mas os dois termos tornaram-se funcionalmente sinônimos. Os DJs de hip-hop continuaram a prática dos DJs de disco de fazer rap intermitentemente com a multidão. À medida que suas funções se tornaram mais complexas, um mestre de cerimônias (MC) estava frequentemente presente para apresentar o DJ e animar a multidão.

Kool Herc descobriu que os brindes jamaicanos não repercutiam entre os dançarinos. Ele e Coke La Rock desenvolveram um estilo de rap influente sobre suas batidas funk. Os MCs se baseavam em cânticos de chamada e resposta e, eventualmente, desenvolveram rotinas mais sofisticadas. Assim como outros praticantes do hip-hop, os MCs se esforçavam para se destacar com sua criatividade e competitividade.

Assim como muitas das melhores dançarinas de break eram mulheres, o nascimento do hip-hop incluiu rappers femininas como MC Sha-Rock , do Funky 4 + 1. Mercedes Ladies , formado no Bronx em 1976, foi o primeiro grupo totalmente feminino com uma DJ. A Sugar Hill Records contratou The Sequence, um trio que incluía Angie Stone. Seu single "Funk You Up" foi o primeiro sucesso de hip-hop de um grupo totalmente feminino.

Muitas vezes, essas eram colaborações entre antigas gangues, como a Universal Zulu Nation de Afrika Bambaataa — agora uma organização internacional. Melle Mel, um rapper do Furious Five , é frequentemente creditado como o primeiro letrista de rap a se autodenominar "MC".

Embora alguns MCs tenham gravado projetos solo notáveis no início, como DJ Hollywood, Kurtis Blow e Spoonie Gee, a frequência de artistas solo só aumentou mais tarde com a ascensão de solistas com presença de palco e drama, como LL Cool J. A maior parte do hip-hop inicial era dominada por grupos onde a colaboração entre os membros era essencial para o espetáculo. O primeiro artista de hip-hop a aparecer na televisão nacional foi o grupo Funky 4 + 1, que se apresentou no Saturday Night Live em 1981.

Gravações antigas: Durante seus primeiros anos, o hip-hop foi um gênero musical ao vivo. Em 1977, fitas piratas feitas a partir das mesas de som de DJs de hip-hop estavam circulando fora da cidade de Nova York. A primeira gravação dub, também conhecida como "mixed plate", foi lançada por DJ Disco Wiz e Grandmaster Caz.

FIM DA VELHA GUARDA (1979–1983)

Primeiras gravações comerciais: O período de 1973 a 1983 é conhecido como "hip-hop old-school". No final desse período, o gênero começou a ganhar popularidade.  Em março de 1979, a Fatback Band lançou "You're My Candy Sweet" como single. O lado B chamava-se "King Tim III (Personality Jock)" e é geralmente considerado a primeira música de rap lançada comercialmente.

Três meses depois, o Chic lançou "Good Times". A música alcançou o primeiro lugar nas paradas em 18 de agosto e rapidamente se tornou uma das favoritas dos rappers. Conforme subia nas paradas pop em 2 de agosto, Sylvia Robinson, cantora e dona da Sugar Hill Records , contratou uma banda para recriar "Good Times" em estúdio. Buscando capitalizar a tendência do hip-hop, Robinson reuniu o Sugarhill Gang para fazer rap sobre a instrumental. Eles reciclaram frases de outros rappers, como The Cold Crush Brothers.  A faixa, lançada como "Rapper's Delight", foi um single Top 40, e o que havia se tornado antiquado no Bronx explodiu em popularidade em todo o país. A chegada das gravações de hip-hop mainstream foi descrita como "A Primeira Morte do Hip-Hop".

Outro dos primeiros discos de rap, de um artista da cena disco, foi a faixa "Rap-O Clap-O" de Joe Bataan, de 1979. Bataan já havia alcançado popularidade na comunidade latina graças à sua mistura única de boogaloo, salsa e soul, e a música se tornou um sucesso na Europa.

Um dos compositores de "Good Times", Nile Rodgers, teve contato com o hip-hop em 1978, quando Debbie Harry e Chris Stein, do Blondie, o levaram a um show. Rodgers e seu co-compositor Bernard Edwards processaram a Sugar Hill Records por violação de direitos autorais e ganharam crédito de composição em "Rapper's Delight".

Em 1971, um vereador apelidou Filadélfia de "A Capital Mundial do Grafite". Foi um dos primeiros centros de hip-hop fora de Nova Iorque e, em 1979, gravações de hip-hop como "Rhythm Talk" de Jocko Henderson e "To the Beat, Y'all" de Lady B estavam surgindo na cidade.

A Mercury Records foi a primeira grande gravadora a contratar um rapper. Em 1979, lançaram "Christmas Rappin'", de Kurtis Blow, que vendeu 400.000 cópias.  A canção alcançou o 30º lugar na parada de singles do Reino Unido em 15 de dezembro daquele ano e tornou-se um clássico natalino. Em 1980, "The Breaks" (1980), de Blow, foi o primeiro single de hip-hop a receber certificação de ouro.

Diversificação de estilos: À medida que o hip-hop se tornou popular, também se tornou extremamente eclético. Parte dessa evolução foi possibilitada pela tecnologia. A década de 1980 viu a miniaturização da tecnologia de gravação, tornando samplers, sintetizadores e baterias eletrônicas acessíveis. Dispositivos como o Akai MPC 2000, o Linn 9000 e a bateria eletrônica Roland TR-808 tornaram-se ferramentas adoradas pelos criadores de hip-hop.

Em 1980, a Roland Corporation lançou a TR-808 Rhythm Composer. Foi uma das primeiras baterias eletrônicas programáveis, com a qual os usuários podiam criar seus próprios ritmos em vez de usar padrões predefinidos. Embora tenha sido um fracasso comercial, ao longo da década a 808 atraiu um público fiel entre os músicos underground por seu preço acessível no mercado de usados, facilidade de uso e sons peculiares, particularmente seu bumbo profundo e "estrondoso". Popularizada por sucessos como "Sexual Healing" de Marvin Gaye, tornou-se uma pedra angular dos gêneros emergentes de música eletrônica, dance e hip-hop. A 808 acabou sendo usada em mais discos de sucesso do que qualquer outra bateria eletrônica. Sua popularidade, especialmente no hip-hop, a tornou uma das invenções mais influentes da música popular, comparável à influência da Fender Stratocaster no rock.

"The Adventures of Grandmaster Flash on the Wheels of Steel" (1981), de Grandmaster Flash, tipificou a diversificação do hip-hop na nova década. O single consiste inteiramente em faixas sampleadas. O hip-hop e a música eletrônica de dança foram fundidos em canções como "Planet Rock" (1982), de Afrika Bambaataa & Soulsonic Force. Bambaataa foi inspirado por "Riot in Lagos", de Ryuichi Sakamoto. Ele incorporou elementos de "Trans-Europe Express" e "Numbers", do Kraftwerk. "Planet Rock" ajudou a dar origem à música eletrônica, que incluiu canções como "Play at Your Own Risk" (1982), do Planet Patrol, e "One More Shot" (1982), do C Bank. Essa fusão frequentemente se sobrepunha ao afrofuturismo em canções como "Nunk" e "Light Years Away", do Warp 9. O Electro ajudou a espalhar o hip-hop para além da América, quando DJs do Reino Unido como Greg Wilson começaram a tocar discos como "Planet Rock", "ET Boogie" de Extra T e "Hip Hop, Be Bop (Don't Stop)" de Man Parrish.

À medida que o rap amadureceu, letras metafóricas sobre uma gama mais ampla de assuntos levaram o estilo além das bravatas e cânticos da velha guarda. O influente single "The Message" (1982) de Grandmaster Flash and the Furious Five, com seu foco na miséria dos conjuntos habitacionais, foi uma força pioneira para o rap politicamente consciente. O hip-hop continuou na tradição do rock and roll, indignando os conservadores que temiam romantizar a violência e a transgressão da lei.

Gravadoras independentes como Tommy Boy, Prism Records e Profile Records obtiveram sucesso no início da década de 1980, lançando discos em ritmo frenético em resposta à demanda gerada por estações de rádio locais e DJs de clubes. Produtores como Arthur Baker, John Robie, Lotti Golden e Richard Scher impulsionaram o gênero em novas direções. Alguns rappers eventualmente se tornaram artistas pop de sucesso. As músicas "Rapture", da Blondie, e "Christmas Wrapping", da banda new wave The Waitresses, ambas de 1981, estiveram entre as primeiras canções pop a usar rap.

O breakdance permaneceu na vanguarda do hip-hop mundial. Grupos de breakdance como Black Noise e Prophets of Da City, na África do Sul, ajudaram a difundir o gênero. Eles reconheceram as conexões na diáspora africana entre práticas como o breakdance e a capoeira. O músico e apresentador Sidney tornou-se o primeiro apresentador de TV negro da França com seu programa HIPHOP, de 1984, na TF1. A Rádio Nova ajudou a lançar outras estrelas do hip-hop francês, incluindo Dee Nasty. Junto com seu programa de rádio, suas compilações Rapattitude e o álbum Paname City Rappin', de 1984, popularizaram o hip-hop no país. O hip-hop chegou ao Japão em 1982, quando o DJ Hiroshi Fujiwara começou a tocá-lo em clubes de dança.

ASCENSÃO DA VANGUARDISTA (1983–1986)

A segunda onda do hip-hop começou por volta de 1983-4 e ficou conhecida como new school. Artistas de Nova York como Run-DMC e LL Cool J tipificaram a new school, com uma ostentação e provocação mais agressivas do que as da old school. O minimalismo da bateria eletrônica era típico da new school, em contraste com o funk e as batidas disco da old school.  Os artistas da new school também faziam músicas mais curtas, adequadas para o rádio, e álbuns LP mais coesos que se tornaram elementos fixos da música mainstream.

O terceiro álbum do Run-DMC, Raising Hell, foi o primeiro do gênero a receber a certificação de platina em 15 de julho de 1986. Ele também apresentou a colaboração de grande sucesso com o Aerosmith em "Walk This Way". No mesmo ano, o rap alcançou seu primeiro álbum número 1 com Licensed to Ill, dos Beastie Boys. O rap estava se tornando tão comercial que estava sendo usado em publicidade nacional. A Sprite contratou Kurtis Blow para aparecer em um de seus comerciais em 1986. Outras empresas de refrigerantes logo seguiriam o exemplo.

Os rappers da nova escola frequentemente se estabeleciam homenageando e, ao mesmo tempo, rivalizando com seus antecessores da velha escola. LL Cool J adorava duelar com Kool Moe Dee. A rivalidade impulsionou as vendas de ambos os artistas. A capa do álbum de Kool Moe Dee de 1987, How Ya Like Me Now, apresentava o chapéu Kangol de LL Cool J sob a roda do Jeep Wrangler de Moe Dee. A resposta de LL foi o lado B agressivo "Jack the Ripper".

Samplers como o AKAI S900 e o E-mu SP-1200 potencializaram a criatividade por meio de maior poder de processamento. Os breakbeats não dependiam mais de um DJ e de dois toca-discos. Podiam ser criados em segundos com um sampler. Marley Marl usou samples em combinação com baterias eletrônicas para criar grooves mais variados.

ERA DE OURO (1986–1997)

Inovação e arte: O período após o hip-hop se tornar mainstream em 1986 até meados da década de 1990 é considerado sua "era de ouro". A era é marcada pelo aumento da diversidade e inovação e pela vasta expansão da influência do hip-hop. A Rolling Stone descreveu a era fértil como uma em que "parecia que cada novo single reinventava o gênero".

Havia fortes temas de afrocentrismo e militância política nas letras do hip-hop da era de ouro. A música era experimental e a amostragem recorria a fontes ecléticas. Havia frequentemente uma forte influência do jazz na música. Artistas notáveis da era de ouro incluem Public Enemy , KRS-One, Boogie Down Productions, Eric B. & Rakim, Brand Nubian, De La Soul, A Tribe Called Quest, Gang Starr, Big Daddy Kane, Digable Planets e Jungle Brothers.

Os álbuns tornaram-se um importante marcador artístico durante esse período. Só em 1987 foram lançados álbuns marcantes como Criminal Minded, do Boogie Down Productions, Yo! Bum Rush the Show, do Public Enemy, e Paid in Full, do Eric B. & Rakim. A declaração artística consistente de um álbum tornou-se o padrão de comparação do gênero. Em 1989, Queen Latifah, com 19 anos, lançou seu álbum de estreia, All Hail the Queen, tornando-se uma das rappers femininas mais notáveis.

Ascensão do rap gangster: Gangsta rap é um subgênero do hip-hop que reflete o ambiente violento dos jovens negros americanos das periferias urbanas. O gangsta rap misturava histórias de crime e vida nas ruas com comentários políticos e sociais. Em 1985, Schoolly D lançou "PSK What Does It Mean?", que é frequentemente considerada a primeira música de gangsta rap. Suas letras refletiam a linguagem das ruas, incluindo a palavra "NIGGER". Ice-T ficou "de queixo caído" quando ouviu a música pela primeira vez, e ela inspirou sua faixa de 1986 "6 in the Mornin'". O álbum Criminal Minded (1987) do Boogie Down Productions estabeleceu um precedente ao apresentar armas em sua capa. Em seu sucessor de 1988, By All Means Necessary, KRS-One segura uma uzi, mas o álbum também vê o surgimento de sua persona anti-violência "The Teacher".

O NWA é o grupo mais frequentemente associado ao gangsta rap. Suas letras eram incessantemente profanas e mais violentas, sexualmente explícitas e abertamente confrontadoras do que as de seus contemporâneos. Essas letras eram colocadas sobre batidas ásperas, impulsionadas por guitarras de rock, contribuindo para a atmosfera agressiva da música. Seu álbum de sucesso de 1989, Straight Outta Compton, estabeleceu Los Angeles como uma rival legítima da capital do hip-hop, Nova York. Também provocou a primeira grande controvérsia em relação às letras do hip-hop, em grande parte devido à música "Fuck tha Police". O diretor assistente do FBI, Milt Ahlerich, escreveu uma carta à Priority Records lamentando o impacto "desencorajador e degradante" do álbum sobre a aplicação da lei.

Ice-T enfrentou censura até mesmo durante suas apresentações ao vivo, assim como Jim Morrison. Em reação aos novos adesivos "Parental Advisory" do Parents Music Resource Center, ele cantou: "esse adesivo faz eles venderem ouro". Sua música de heavy metal de 1992, "Cop Killer", provocou tanta reação negativa que a Time Warner Music hesitou em lançar seu próximo álbum de hip-hop, Home Invasion.

Os dois presidentes dos EUA, George H.W. Bush e Bill Clinton, criticaram o gangsta rap. Sister Souljah argumentou: "A razão pela qual o rap está sob ataque é porque expõe todas as contradições da cultura americana... O que começou como uma forma de arte underground tornou-se um veículo para expor muitas questões críticas que normalmente não são discutidas em... um sistema político que nunca pretende lidar com o caos urbano dos centros urbanos".

O álbum The Chronic, do Dr. Dre, foi lançado em 1992, popularizando o estilo G-funk do gangsta rap e recebendo certificação de 3× platina. O álbum Doggystyle, do Snoop Dogg, foi lançado em 1993 e recebeu certificação de 4× platina. O Cypress Hill foi formado em 1988 no subúrbio de South Gate, nos arredores de Los Angeles. Os irmãos Senen Reyes e Ulpiano Sergio (Mellow Man Ace) se mudaram de Havana, Cuba, para South Gate com sua família em 1971. Eles se juntaram a Lawrence Muggerud (DJ Muggs) e Louis Freese (B-Real), um mexicano/cubano-americano natural de Los Angeles. Após a saída de "Ace" para iniciar sua carreira solo, o grupo adotou o nome Cypress Hill, em homenagem a uma rua que atravessava um bairro próximo no sul de Los Angeles.

Avanço convencional: Em 1989, a Academia Nacional de Artes e Ciências da Gravação decidiu criar um Prêmio Grammy para Melhor Performance de Rap. A estatueta inaugural foi entregue em 1989 a DJ Jazzy Jeff & the Fresh Prince por "Parents Just Don't Understand".

1990 foi "o ano em que o rap explodiu". O Public Enemy lançou Fear of a Black Planet, que foi um sucesso de crítica e público. O Los Angeles Times declarou: "uma explosão de energia e imaginação no final da década de 1980 faz do rap hoje, indiscutivelmente, o som de rua mais vital do pop desde o nascimento do rock na década de 1950". A revista Time concordou: "O rap é o rock 'n' roll da atualidade. O rock 'n' roll era sobre atitude, rebeldia, batida forte, sexo e, às vezes, comentários sociais". O rap teve o single mais vendido do ano anterior, "Wild Thing", de Tone Lōc. Em fevereiro de 1990, quase um terço das músicas na Billboard Hot 100 eram de hip-hop.

O terceiro álbum de MC Hammer, Please Hammer, Don't Hurt 'Em , foi um sucesso estrondoso. Alcançou o primeiro lugar na parada de álbuns. Seu primeiro single, "U Can't Touch This", tornou-se um fenômeno global após seu lançamento em maio de 1990. Chegou ao Top 10 nos EUA e ao primeiro lugar em diversos países. MC Hammer foi um dos primeiros rappers a se tornar um nome conhecido por todos. Please Hammer, Don't Hurt 'Em foi o primeiro álbum de hip-hop a receber a certificação de diamante pela RIAA por vendas superiores a dez milhões de cópias. Em 1996, vendeu 18 milhões de unidades. Em novembro, "Ice Ice Baby", de Vanilla Ice, tornou-se o primeiro single de hip-hop a alcançar o primeiro lugar na parada da Billboard.

O álbum The Chronic, do Dr. Dre, foi lançado em 1992 e alcançou o status de platina tripla. O álbum Doggystyle, de Snoop Dogg, lançado em 1993, ajudou o gênero a continuar dominando as paradas, mas as rádios voltadas para o público negro mantiveram o hip-hop à distância. Russell Simmons afirmou: "As rádios voltadas para o público negro odiaram o rap desde o início e ainda há muita resistência a ele". Apesar da falta de apoio de algumas rádios voltadas para o público negro, o hip-hop se tornou um dos gêneros musicais mais vendidos em meados da década de 1990 e o gênero musical mais vendido em 1999, com 81 milhões de CDs vendidos.

Durante a era de ouro, elementos do hip-hop continuaram a ser assimilados em outros gêneros da música popular. As primeiras ondas do rap rock, rapcore e rap metal se tornaram populares. Run-DMC, Beastie Boys e Rage Against the Machine estavam entre as bandas mais conhecidas nesses estilos. Artistas de new jack swing (Bobby Brown) e R&B (TLC) incorporaram influências do hip-hop em suas músicas, enquanto artistas como os Fugees combinaram hip-hop com música soul para criar o hip hop soul. No Havaí, bandas como Sudden Rush criaram o estilo na mele paleoleo, que fundiu o hip-hop com a língua havaiana e questões de soberania.

Surgimento de cenas locais: O rap sulista tornou-se popular no início da década de 1990. Gravadoras sediadas em Atlanta, Memphis e Nova Orleans ganharam fama por suas cenas locais. Os primeiros rappers sulistas a ganharem atenção nacional foram os Geto Boys, de Houston, Texas. As raízes do rap sulista podem ser rastreadas até o sucesso dos primeiros álbuns dos Geto Boys. O membro mais forte do grupo era Scarface, que mais tarde seguiu carreira solo.

Os artistas de hip-hop de Atlanta foram fundamentais para expandir ainda mais a música rap e levar o hip-hop sulista ao mainstream. Lançamentos como 3 Years, 5 Months and 2 Days in the Life Of... (1992) do Arrested Development, Soul Food (1995) do Goodie Mob e ATLiens (1996) do Outkast foram todos aclamados pela crítica. Quando o Outkast ganhou o prêmio de Melhor Novo Grupo de Rap no Source Awards de 1995, isso sinalizou uma mudança de poder na direção de Atlanta. O Meio-Oeste também tinha sua própria cena de rap, em cidades como Chicago, Detroit, Cleveland e St. Louis. Era conhecida pelos estilos vocais rápidos de artistas (às vezes chamados de "choppers") como Bone Thugs-n-Harmony , Tech N9ne e Twista.

Rivalidade entre as costas leste e oeste: No início da década de 1990, o hip-hop da costa leste era dominado pelo grupo Native Tongues, que era composto, de forma geral, por De La Soul, Prince Paul, A Tribe Called Quest, Jungle Brothers, 3rd Bass, Main Source, Black Sheep e KMD. Embora originalmente fosse uma concepção da "era das margaridas", enfatizando os aspectos positivos da vida, material mais sombrio logo começou a aparecer. Em 1993, Enter the Wu-Tang (36 Chambers) do Wu-Tang Clan inaugurou uma resposta de rap hardcore ao gangsta rap da costa oeste.

O hip-hop nova-iorquino experimentou um renascimento no ano seguinte com o lançamento de dois álbuns marcantes: Illmatic, de Nas, e Ready to Die, de The Notorious B.I.G. O Wu-Tang Clan, com seus 10 membros, também começou a criar um universo de álbuns solo no hip-hop, que serviam como propaganda uns para os outros. Alguns dos títulos de destaque foram Only Built 4 Cuban Linx..., de Raekwon, Ironman, de Ghostface Killah, e Liquid Swords, de GZA. RZA participou da produção da maioria desses trabalhos, e seu estilo se tornou extremamente influente. Produtores proeminentes durante esse período foram DJ Premier (Gang Starr, Jeru the Damaja), Pete Rock (CL Smooth), Buckwild, Large Professor, Diamond D e Q-Tip. Illmatic, de Nas, Word...Life, de OC, e Reasonable Doubt, de Jay-Z, contaram com esse grupo de talentos.

Surgiu uma narrativa midiática preguiçosa de que os rappers das costas leste e oeste estavam em conflito uns com os outros. Como Kool Moe Dee e LL Cool J já haviam descoberto, explorar uma rivalidade era bom para as vendas. Tornou-se moda enfatizar a rivalidade entre a costa leste e a costa oeste, mas isso não se limitou a uma batalha lírica. Em 30 de novembro de 1994, na cidade de Nova York, Tupac Shakur foi baleado cinco vezes. Ele culpou o ataque a um grupo que incluía Sean Combs e Notorious B.I.G.

Shakur deixou a Interscope Records para assinar com a Death Row Records de Suge Knight e Dr. Dre, na costa oeste. O álbum de estreia de Shakur pela gravadora, All Eyez on Me, lançado em fevereiro de 1996, foi promovido destacando incessantemente suas queixas contra personalidades da costa leste. A estratégia foi bem-sucedida e resultou em vendas estrondosas. Em 7 de setembro de 1996, Shakur foi assassinado em Las Vegas. Em 9 de março de 1997, Notorious B.I.G. foi assassinado em Los Angeles. Embora a rivalidade entre as costas tenha envolvido dezenas de pessoas em inúmeras controvérsias, as tragédias gêmeas de Shakur e Notorious B.I.G. estão no cerne do episódio. Suas mortes são usadas como marcos para o FIM da era de ouro do hip-hop.

ERA BLING (1997–2007)

Sucesso em cruzamentos e novas direções: Agora um gênero mainstream e dominando as paradas musicais, o hip-hop tornou-se comercialmente orientado no final da década de 1990. A abordagem musical foi exemplificada por Sean "Puff Daddy" Combs , que dominou as paradas de 1997 ao reaproveitar antigos sucessos em novos. "I'm Coming Out", de Diana Ross, tornou-se "Mo Money Mo Problems". "Rise", de Herb Alpert, tornou-se "Hypnotize". O sucesso número 1 do The Police, "Every Breath You Take", tornou-se "I'll Be Missing You". Os ternos brilhantes que ele e seu protegido Mase usavam tornaram-se uma marca registrada do período, apelidado de "era do terno brilhante". No mesmo ano, o single de Will Smith, "Gettin' Jiggy wit It", deu um nome mais cativante para a era, a "era jiggy". Em 1998, o rapper hardcore DMX lançou seu álbum It's Dark and Hell Is Hot, visto por alguns como trazendo o hip-hop "de volta às ruas".

Novos produtores como Swizz Beatz, Timbaland e The Neptunes surgiram nesse período, criando um som futurista para artistas como Aaliyah e Missy Elliott. Durante a era do bling, tornou-se comum juntar um cantor de R&B com um rapper. Ou o rapper aparecia em um remix do sucesso do cantor, ou o cantor interpretava o refrão da música de um rapper. As parcerias incluíram Ashanti e Ja Rule, Beyoncé e Jay-Z, e Mariah Carey com rappers como Mystikal, Cam'ron e Busta Rhymes.

O rapper Eminem se apresentando em Munique, Alemanha em 31 de outubro de 1999.

Dr. Dre começou 1999 produzindo o álbum de estreia de Eminem, The Slim Shady LP, que alcançou quatro vezes a platina. Em novembro, ele lançou seu álbum 2001, que alcançou seis vezes a platina. Dre também produziu o segundo álbum de Eminem e Get Rich or Die Tryin', de 50 Cent, que estreou em 2003 em primeiro lugar na parada Billboard 200 dos EUA. Jay-Z tornou-se culturalmente dominante com sua gravadora, linha de roupas e vários interesses comerciais. Seus álbuns consistentemente alcançaram o primeiro lugar nas paradas e, com o lançamento de The Blueprint 3 em 2009, ele quebrou o recorde de Elvis Presley de maior número de álbuns número um por um artista solo.

Ascensão do Sul: Em Nova Orleans , duas gravadoras emergentes ganharam destaque. Master P transformou a No Limit Records em uma empresa multimilionária. A Cash Money Records impulsionou suas vendas ao assinar um contrato de distribuição com a Universal em 1998. Seu elenco incluía Birdman, Lil Wayne, BG e Juvenile. Em 1999, o consumismo ostentoso da era jiggy foi indelevelmente rebatizado por BG em sua música "Bling Bling". A gíria repercutiu e o rótulo "era bling" permaneceu.

O subgênero conhecido como crunk explodiu no início e meados dos anos 2000, quando músicas de Lil Jon e Ying Yang Twins se tornaram grandes sucessos. Ele se originou no Tennessee, no sul dos Estados Unidos, na década de 1990, influenciado pelo Miami bass. O crunk é quase exclusivamente "música de festa", privilegiando slogans de hip-hop de chamada e resposta em vez de abordagens mais líricas. Uma variante do crunk de Atlanta, conhecida como snap music, tornou-se igualmente popular em meados e no final dos anos 2000. 

Ascensão do hip-hop alternativo: Artistas de hip-hop alternativo como MF Doom, The Roots , Mos Def, Dilated Peoples, Gnarls Barkley e Aesop Rock começaram a alcançar reconhecimento significativo nessa época. Outros artistas alternativos como Outkast, Kanye West e Gnarls Barkley também começaram a obter vendas no mainstream. O álbum Speakerboxxx/The Love Below, do Outkast, lançado em 2003, ganhou o Grammy de Álbum do Ano na 46ª edição do Grammy Awards e recebeu 13 certificações de platina. O álbum de estreia de West, The College Dropout, lançado em 2004, atraiu a atenção do público e da mídia, recebendo 4 certificações de platina. Suas letras introspectivas contrastavam com os sons mais arrogantes do rap mainstream.

Glitch hop é um gênero de fusão de hip-hop e música glitch que surgiu no início e meados dos anos 2000 nos Estados Unidos e na Europa. Musicalmente, é baseado em breakbeats irregulares e caóticos, linhas de baixo com glitches e outros efeitos sonoros típicos da música glitch, como saltos. Artistas de glitch hop incluem Prefuse 73, Dabrye e Flying Lotus. Wonky é um subgênero do hip-hop que surgiu por volta de 2008. Difere do glitch hop por apresentar material mais melódico e sintetizadores instáveis. Artistas escoceses como Hudson Mohawke e Rustie são proeminentes no gênero.

ERA DOS BLOGS (2007–2014)

Queda nas vendas: As redes sociais levaram ao declínio das compras de mídia física, como CDs e vinil, por parte dos fãs. A partir de 2005, as vendas de hip-hop despencaram, gerando preocupações de que o gênero pudesse estar morrendo. Embora todas as vendas de música tenham diminuído, as perdas do hip-hop foram maiores, totalizando uma queda de 21% de 2005 para 2006. 2006 foi a primeira vez em cinco anos que os dez álbuns mais vendidos não incluíram hip-hop.

O compartilhamento de arquivos ponto a ponto também causou estragos nas vendas de discos. Os downloads digitais trouxeram os singles de volta ao topo das vendas de música. Os downloads de faixas individuais do álbum ROOTS de Flo Rida, de 2009, totalizaram milhões, enquanto o próprio álbum nem sequer ganhou disco de ouro.

Apesar da queda nas vendas de discos em toda a indústria musical, os artistas de hip-hop ainda lideravam regularmente as paradas da Billboard 200. Em 2009, Rick Ross, Black Eyed Peas e Fabolous tiveram álbuns número 1. O álbum Relapse, de Eminem, foi um dos álbuns mais vendidos de 2009.

Revitalização e influência da Internet: O surgimento das mídias sociais em meados e no final da década de 2000 começou a influenciar o gênero, à medida que artistas como Soulja Boy começaram a fazer upload de suas músicas diretamente em sites como YouTube e MySpace. A internet corroeu as vendas de música, mas democratizou a distribuição. O público começou a encontrar artistas diretamente por meio de blogs de música e mídias sociais, no que foi retroativamente chamado de "era dos blogs". Artistas emergentes como Kid Cudi, Wale, Odd Future (liderado por Tyler, the Creator), Mac Miller, Lil B, Kendrick Lamar, J. Cole, Lupe Fiasco, The Cool Kids, Jay Electronica e BoB também possuíam uma sensibilidade e vulnerabilidade que haviam sido pouco exploradas na era do bling.

Quando Graduation, de Kanye West, e Curtis, de 50 Cent , foram lançados em 11 de setembro de 2007, o álbum peculiar de West vendeu mais rapidamente. O álbum seguinte de West, 808s & Heartbreak, foi ainda mais excêntrico e estabeleceu uma tendência para produções de hip-hop mais criativas. West adotou o efeito vocal Auto-Tune que o rapper T-Pain havia popularizado. T-Pain cita o produtor de new jack swing Teddy Riley e o artista de funk Roger Troutman, que usaram o talk box, como inspirações para o uso da técnica. Até Jay-Z considerou fazer um álbum alternativo, inspirado por artistas de indie rock como Grizzly Bear.

O movimento do hip-hop alternativo não se limitou apenas aos Estados Unidos, já que rappers como o poeta somali-canadense K'naan, o rapper japonês Shing02 e a artista britânica de origem cingalesa MIA alcançaram considerável reconhecimento mundial. Em 2009, a revista Time incluiu MIA na lista Time 100 das "Pessoas Mais Influentes do Mundo" por ter "influência global em muitos gêneros". Movimentos com temática global também surgiram da cena internacional do hip-hop, com microgêneros como o "Eco-Rap Islâmico" abordando questões de importância mundial por meio de vozes tradicionalmente marginalizadas.

ERA DO STREAMING (2014–presente)

O hip-hop de Atlanta dominou as paradas musicais durante a década de 2010, particularmente o trap. O trap tornou-se uma sensação mainstream na década de 2000 e começou a liderar as paradas em meados e no final da década de 2010. É caracterizado por hi-hats subdivididos em tempo duplo ou triplo, bumbos pesados da bateria eletrônica Roland TR-808, sintetizadores em camadas e uma atmosfera geral sombria, sinistra ou desoladora.

Entre os principais artistas de trap estão Future, Chief Keef, Migos, Fetty Wap, Young Thug, Travis Scott, Cardi B, Megan Thee Stallion, DaBaby e Lil Nas X. Entre os principais produtores de trap estão Metro Boomin , Pi'erre Bourne, London on da Track e Mike Will Made-It. Muitos desses artistas utilizaram o SoundCloud para distribuir suas músicas gratuitamente, sem o apoio de uma gravadora. Post Malone, Lil Uzi Vert, XXXTentacion e outros iniciaram suas carreiras no SoundCloud. Algumas faixas de trap foram consideradas "mumble rap" devido à sua dicção frequentemente confusa. Snoop Dogg observou que não conseguia distinguir os artistas, e Black Thought lamentou a falta de lirismo no trap.

Plataformas de streaming como Spotify e Apple Music se tornaram as distribuidoras de música dominantes na década de 2010. O Grammy de Melhor Álbum de Rap de 2017 foi para um álbum de streaming pela primeira vez, Coloring Book, de Chance the Rapper. Artistas como Kanye West e Drake também começaram a evitar lançamentos físicos. Em 17 de julho de 2017, a Forbes relatou que o hip-hop/ R&B havia destronado o rock como o gênero musical mais consumido , tornando-se o gênero mais popular na música pela primeira vez na história dos EUA. O álbum de rap mais reproduzido de todos os tempos no Spotify é o segundo álbum de XXXTentacion, ? (2018).

Na década de 2020, sites como TikTok e Instagram eram o método preferido dos artistas para distribuição online, com muitas músicas de hip-hop viralizando. A década de 2020 começou com Roddy Ricch como o primeiro rapper a ter uma música número um na Billboard Hot 100. Em 2021, o álbum póstumo de Pop Smoke popularizou o Brooklyn drill. Naquele ano, os rappers mais ouvidos foram Doja Cat e Lil Nas X.

MÚSICA HIP-HOP MUNDIAL

O hip-hop espalhou-se do Bronx para o mundo. Está constantemente a ser reinventado em quase todos os países do planeta. A única coisa que praticamente todos os artistas de hip-hop em todo o mundo têm em comum é que reconhecem a sua dívida para com as pessoas negras e latinas de Nova Iorque que lançaram o movimento global.

Em muitos países latino-americanos, assim como nos EUA, o hip-hop tem sido uma ferramenta com a qual pessoas marginalizadas podem articular sua luta. O hip-hop cubano cresceu de forma constante durante o Período Especial que acompanhou a queda da União Soviética.

O hip-hop brasileiro está fortemente associado a questões raciais e econômicas no país, onde muitos afro-brasileiros vivem em favelas economicamente desfavorecidas.

O reggaeton porto-riquenho evoluiu a partir de vários gêneros, particularmente o dancehall jamaicano e o hip-hop.

Os rappers venezuelanos geralmente modelavam sua música segundo o gangsta rap, abraçando e tentando redefinir estereótipos negativos sobre jovens pobres e negros como perigosos e materialistas e incorporando críticas socialmente conscientes à criminalização de jovens pobres e afrodescendentes na Venezuela em suas músicas.

O hip-hop haitiano desenvolveu-se no início da década de 1980. Master Dji e suas músicas "Vakans" e "Politik Pa m" popularizaram o estilo. O que mais tarde ficou conhecido como "Rap Kreyòl" cresceu em popularidade no final da década de 1990 com King Posse e Original Rap Stuff. Devido à tecnologia de gravação mais barata e ao fluxo de equipamentos para o Haiti, o Rap Kreyòl está crescendo cada vez mais.

O hip-hop francês também se desenvolveu na década de 1980. O Blockfest anual em Tampere, Finlândia, é o maior evento de música hip-hop nos países nórdicos.

O hip-hop nigeriano ganhou popularidade nas décadas de 1980 a 2000 através de artistas como The Remedies, JJC Skillz, MI Abaga e Sound Sultan, abrangendo a incorporação de línguas locais e batidas tradicionais de hip-hop. Nas décadas de 2010 e 2020, desenvolveu-se ainda mais com rappers como Naeto C, Reminisce, Olamide, Phyno, Blaqbonez e Odumodublvck.

O hip-hop sul-africano se sobrepõe ao kwaito, um gênero musical que enfatiza a cultura africana e questões sociais. Rapper como Pope Troy têm explorado questões socioeconômicas que assolam as esferas políticas da África do Sul e o hip-hop como um todo, equilibrando sua abordagem linguística para se comunicar com as massas sobre os aspectos técnicos que criam esses problemas. O hip-hop sul-africano evoluiu para uma presença proeminente na música mainstream sul-africana. Entre as décadas de 1990 e 2010, transcendeu suas origens como uma forma de expressão política na Cidade do Cabo para produzir artistas como HHP, Riky Rick e AKA . Rapper sul-africanos proeminentes incluem Stogie T, Reason, Da LES, Cassper Nyovest, Emtee, Fifi Cooper, A-Reece, Shane Eagle, Nasty C, KO, YoungstaCPT e Big Zulu.

Na década de 2010, o hip-hop tornou-se popular no Canadá, particularmente em Toronto , que tem uma grande população afro-caribenha e africana. A cidade expressou um novo subgênero chamado som de Toronto . Depois que Drake alcançou sucesso mainstream, o som de Toronto começou com trabalhos dos produtores T-Minus e Boi-1da.

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DEMÉTER (DEUSA DA AGRICULTURA NA MITOLOGIA GREGA)

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