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domingo, 21 de junho de 2026

ZICO (FUTEBOLISTA BRASILO-PORTUGUÊS)

Zico posa para uma sessão de fotos com a camisa do Flamengo em 04 de dezembro de 1977, no Rio de Janeiro, Brasil (Foto de Michel Barrault/Onze/Icon Sport via Getty Images).
  • NOME COMPLETO: Arthur Antunes Coimbra
  • NASCIMENTO: 3 de março de 1953; Rio de Janeiro, Distrito Federal, Brasil
  • APELIDOS: Zico, Galinho de Quintino, Pelé Branco, サッカーの神様 (Deus do futebol, em japonês), Kral Arthur (Rei Arthur, em turco)
  • FAMÍLIA: Edu
  • POSIÇÃO: meio-campista
  • ANOS DE ATIVIDADE: 1971–1994 (como jogador)
  • ALTURA: 1,72 m
  • PÉ: ambidestro
  • TORCEDOR: C. R. Flamengo
Arthur Coimbra (1953–), mais conhecido como Zico, é um dirigente esportivo, ex-treinador e ex-futebolista luso-brasileiro que atuava como meio-campista. Amplamente considerado um dos maiores jogadores da história do futebol brasileiro, também é reconhecido por muitos especialistas, profissionais do esporte e, em especial, pelos torcedores do Flamengo, o maior jogador da história do clube, sendo um dos maiores futebolistas brasileiros desde Pelé, tendo ganhado a alcunha de Pelé Branco.

BIOGRAFIA

Arthur Antunes Coimbra, caçula dos seis filhos do imigrante português de Tondela, José Antunes Coimbra — que era um fervoroso torcedor do Flamengo e foi goleiro amador na juventude — com a brasileira Matilde da Silva Coimbra, nasceu às 7h do dia 3 de março de 1953.

Pequeno e franzino, não foi difícil Arthur virar Arthurzinho e depois Arthurzico. Até que uma prima, chamada Ermelinda, reduziu carinhosamente para Zico. Sobre a carreira do pai, o próprio Zico afirmou:

“Ele era goleiro e na época tinha o futebol amador e o profissional. E ele sagrou-se tricampeão pelo Clube Municipal, de 1939 a 1941. Quando foi chamado para treinar no Flamengo, o patrão dele, torcedor do Vasco, ameaçou o emprego dele. Com isso, meu pai indicou Jurandyr, que era seu reserva no Municipal e acabou campeão carioca pelo Flamengo pouco tempo depois.”

Além do pai, outros irmãos do Zico até chegaram a se tornar jogadores. Antunes e Nando, os mais velhos, não tiveram tanto destaque. As estrelas da família viriam depois. Primeiro com Edu, que teve seu talento descoberto pelo America-RJ, onde se profissionalizou em 1966.

CARREIRA COMO JOGADOR

Início: Zico deu seus primeiros passos num pequeno time de futebol de salão formado por amigos e familiares, o Juventude de Quintino, do bairro de Quintino Bocaiuva, na zona norte do Rio de Janeiro. Além do Juventude, passou a praticar o esporte conhecido hoje como futsal no River Futebol Club, tradicional clube da Piedade, onde um dos professores era Joaquim Pedro da Luz Filho, mais conhecido como Seu Quinzinho. No River, mesmo ainda menino, o garoto já chamava a atenção.

Seu primeiro clube de futebol de campo foi o Flamengo, para onde se transferiu aos catorze anos de idade. Em 1967, o radialista Celso Garcia, vizinho e amigo da família Coimbra, assistiu uma partida de Zico em um torneio no River. Vestindo a camisa do Santos na ocasião, Zico marcou dez gols na goleada do seu time por 15–3. Torcedor do Flamengo, Garcia logo o levou para a escolinha de futebol do clube carioca.

Primeiros anos no Flamengo: Zico só estreou no time principal em 1971, em uma partida contra o rival Vasco da Gama, cujo placar terminou 2–1 para o time rubro-negro, em que o debutante deu o passe para Fio Maravilha marcar o gol da vitória. Se firmaria como titular na equipe apenas em 1974, depois de passar por uma intensa preparação física que incluía dedicação de boa parte de seu dia, desde quando chegou ao clube, em 1967 (quando ainda estava na escola), a um trabalho de fortalecimento muscular, à base principalmente de esteroides anabolizantes (de duas a três injeções, segundo o próprio Zico), devido ao corpo antes franzino. Em 1969, aos 16 anos, Zico foi mandado para a Bahia com um grupo de jogadores cariocas para realizar uma avaliação no Fluminense de Feira, mas foi reprovado por seu porte físico voltando ao Flamengo logo em seguida. E devido ao seu franzino corpo de início de carreira e de seu bairro de origem (Quintino), ganhou o carinhoso apelido de "Galinho de Quintino". Ainda atuando pelo time juvenil, participou de duas partidas pela equipe principal do Flamengo no Campeonato Carioca de 1972, o bastante para conquistar seu primeiro título como profissional. Ainda demoraria, entretanto, dois anos para firmar-se no elenco e enterrar a imagem de um jogador de físico fraco, que sucumbia à primeira pancada dos adversários.

Após esses dois anos, em 1974 — quando também recebeu a camisa 10 — Zico começava a exibir um futebol empolgante. Além dos dribles, lançamentos e arrancadas fulminantes em direção ao gol, demonstraria também a precisão nas cobranças de falta que batia, habilidade que seria uma de suas marcas registradas. Neste ano de 1974, conquistou seu segundo Carioca pelo Flamengo, o primeiro como titular e camisa 10, liderando uma jovem equipe em decisões contra as equipes mais experientes de Vasco e América (onde à época jogava seu irmão Edu). No Campeonato Brasileiro, recebeu sua primeira Bola de Ouro da revista Placar, sendo eleito pela publicação o melhor jogador do campeonato. Nos três anos seguintes, entretanto, Zico viu rivais comemorarem o título estadual: o Fluminense de Rivellino foi bicampeão em 1975 e 1976 e, mais dolorosamente, o Vasco de Roberto Dinamite levou a taça em 1977 após Tita, tendo a chance de dar o título a seu clube se convertesse sua cobrança, perder. A série de pênaltis prosseguiria e terminaria em vitória vascaína.

"Era Zico":

A partir de 1978, entretanto, o Flamengo ingressaria em um período áureo sob o comando em campo de Zico. Com um futebol quase perfeito, só possível de ser parado com violência, Zico conquistou um tricampeonato carioca, o terceiro do clube. Nas edições daquele ano, com as duas realizadas em 1979, mesmo ano em que o time conquistaria o prestigiado torneio amistoso Ramón de Carranza, o jogador marcou um dos gols e foi destaque na vitória por 2–1 sobre o Barcelona, que contava com nomes como Johan Neeskens, Allan Simonsen, Hans Krankl e Carles Rexach. Em 1979, ainda aos 26 anos, ao marcar seu 245º gol como profissional, em partida contra o Goytacaz, Zico superou Dida como o maior artilheiro da história do Flamengo. No ano seguinte, viria finalmente o inédito título no Campeonato Brasileiro. As finais foram contra o Atlético Mineiro de Reinaldo, Toninho Cerezo e Éder. Contundido, Zico não jogou a primeira partida, em que os alvinegros venceram por 1–0 no Mineirão. O meia retornou ao time no jogo de volta, no Maracanã, dando a assistência para o primeiro gol, marcado por Nunes, e fazendo o segundo na vitória por 3–2 contra o Galo, garantindo assim o primeiro título do Brasileirão conquistado pelo Flamengo. O troféu compensou a decepção no Campeonato Carioca, onde Zico viu os rivais Vasco e Fluminense decidirem o título. Ainda em 1980, Zico conquistaria com o Flamengo outros dois torneios amistosos europeus: o Torneio Astúrias e Algarve, com vitórias sobre Real Sociedad e Spartak Sófia; e um bi no Ramón de Carranza, passando por Dínamo Tbilisi e Real Betis.

Com o título nacional, o clube credenciou-se pela primeira vez para disputar a Copa Libertadores da América. Na primeira fase, por ter empatado em número de pontos com o Atlético Mineiro, uma partida de desempate foi marcada — o confronto ocorreu no Estádio Serra Dourada. A polêmica partida foi encerrada aos 37 minutos do primeiro tempo, pois o rival mineiro teve cinco jogadores expulsos pelo árbitro José Roberto Wright. O Flamengo foi declarado vencedor e avançou para a fase semifinal da competição, onde superou Deportivo Cali, da Colômbia, e Jorge Wilstermann, da Bolívia. Na decisão, encarou os chilenos do Cobreloa. Zico marcou os dois gols na vitória por 2–1 na partida de ida, no Maracanã. O jogo da volta, no Chile, foi marcado pela enorme violência dos rivais, especialmente de seu zagueiro Mario Soto, que agrediu com um anel afiado os flamenguistas Andrade e Lico. Os chilenos venceram por 1–0 e, pelo regulamento da época, o troféu seria decidido em campo neutro, que foi em Montevidéu, no Estádio Centenario. Zico novamente marcou os dois gols da vitória, dessa vez de 2–0, o segundo deles, a dez minutos do fim, em uma de suas mais inesquecíveis cobranças de falta. O título continental foi seguido por mais um Carioca, sobre os rivais do Vasco, em partida dedicada ao técnico Cláudio Coutinho, falecido antes do primeiro jogo da decisão. O Campeonato Carioca já havia reservado a alegria de ter imposto uma goleada de 6–0 sobre o Botafogo, devolvendo uma derrota de nove anos antes que ainda ressoava entre as duas torcidas. O ano mágico de 1981 terminava da melhor forma possível: da decisão estadual, o time foi para Tóquio enfrentar os britânicos do Liverpool na Copa Intercontinental.

Zico jogando pelo Flamengo em 1981.

A equipe inglesa era amplamente favorita: nos últimos oito anos, havia conquistado cinco vezes o Campeonato Inglês, uma Copa da UEFA e três Copa dos Campeões da UEFA, possuindo um elenco de respeitados jogadores das Seleções Inglesa e Escocesa, que não deixaram de fitar com superioridade os brasileiros no vestiário, antes da partida. O título mundial, que até então só havia vindo ao Brasil por meio do Santos de Pelé, foi conquistado após exibição primorosa do Flamengo, que venceu por 3–0. Os três gols, marcados todos ainda no primeiro tempo, saíram de jogadas de Zico: no primeiro e no terceiro, por assistência direta a Nunes e, no segundo, marcado por Adílio, após cobrança de falta do Galinho rebatida pelo goleiro adversário Bruce Grobbelaar. Eleito o melhor em campo mesmo sem ter marcado, recebeu como premiação individual um cobiçado carro esporte da patrocinadora da partida, a Toyota, juntamente com Nunes; ambos demonstrariam a grande união do grupo, vendendo os veículos e dividindo igualmente o dinheiro entre os jogadores. Ainda antes da partida, ao ser indagado sobre o favoritismo dos britânicos, teria dito: "eles são favoritos sim, mas para o segundo lugar, o que é até muito honroso". Durante ela, desesperado, o goleiro Grobbelaar gritava ao zagueiro e capitão Phil Thompson: "Joga o Zico para longe, Thompson, joga o Zico para longe, em nome de Deus!". Após, o técnico adversário, Bob Paisley, declarou: "Vocês jogam um jogo que desconhecemos. Vocês dançam, isso devia ser proibido".

A "Era de Ouro" no Flamengo prosseguiu no ano seguinte com a conquista do Campeonato Brasileiro, em campanha destacada por vitórias fora de casa, mais uma resposta às críticas de que o time (e Zico) só jogavam bem no Maracanã: dois 4–3, sobre Náutico e São Paulo; dois 3–2 sobre o Internacional e Guarani — nesta partida, Zico marcou os três gols da vitória contra o time de Careca e Jorge Mendonça. Para completar, a taça também foi conquistada fora de casa, contra o Grêmio, em vitória por 1–0 com nova assistência de Zico para Nunes. O Galinho já havia sido herói no primeiro jogo da decisão, marcando um gol de trivela no canto esquerdo de Emerson Leão, empatando nos últimos minutos uma partida realizada em casa.

O segundo semestre de 1982, porém, foi marcado por frustrações: voltando de uma dolorosa eliminação na Copa do Mundo, Zico perdeu os dois torneios que disputou com o Flamengo. Na Copa Libertadores da América, o clube rubro-negro, então campeão, entrou na disputa já na segunda fase do torneio, em um grupo de três times que apontaria um dos finalistas. O Fla venceu os dois duelos contra o River Plate e foi à última rodada precisando vencer o Peñarol, em casa, para forçar um jogo extra — os uruguaios haviam vencido em Montevidéu. No entanto, quem triunfou foi o adversário, em pleno Maracanã — a final, curiosamente, seria novamente contra o Cobreloa. Já o Campeonato Carioca foi perdido para o rival Vasco.

No primeiro semestre de 1983, o Flamengo foi eliminado na primeira fase da Libertadores no grupo que dividia com o Grêmio (que ficou com a única vaga) e os bolivianos Bolívar e Blooming. Paralelamente, porém, o time igualava-se aos gaúchos do Internacional como maior vencedor do Brasileirão, conquistando seu terceiro título. O sabor foi mais especial por ter eliminado no caminho o Vasco, nas quartas-de-final, com Zico marcando o gol do empate (que garantia a classificação flamenguista) aos 44 minutos do segundo tempo. As finais foram contra o Santos. Os paulistas, que aspiravam o seu sétimo título nacional, haviam vencido o jogo de ida por 2–1. Na volta, jogando machucado, Zico ruiu o sonho santista ao marcar antes do primeiro minuto, em partida terminada em vitória rubro-negra por 3–0. Zico ergueu a taça consciente de que seria sua até então última partida pelo Flamengo: embora ainda não divulgada a transferência, o Galinho já sabia se sua venda para a equipe italiana da Udinese, em transferência já acertada um mês antes da decisão e mantida em sigilo para eventuais protestos da torcida não atrapalharem a caminhada rumo ao título.

Udinese:

Cobiçado por clubes mais tradicionais do país, como Roma e Juventus, sua ida à modesta equipe de Friul causou escândalo no resto da Itália. A Federação chegou a suspender a compra, orçada em 4 milhões de dólares (em valores da época) — o maior valor pago até então no país por um jogador —, o que revoltou os moradores de Údine, que começaram a disparar mensagens de separatismo. O lema era "ou Zico ou Áustria!", uma referência à época em que a região pertencia ao Império Austríaco. A ameaça foi levada a sério pelo presidente do país, Sandro Pertini, que enfim autorizou a compra de Zico. O Galinho chegou a Údine tratado desde logo como UM REI. Mesmo assim, manteve sua postura humilde e profissional, procurando deixar todos à vontade: um dos reservas do time, Pradella, chegara a ter calafrios e desarranjos intestinais na primeira vez em que foi escalado para jogar ao lado do brasileiro. Dedicado a ajudar o clube a conseguir o título na Serie A, Zico fez sua parte, liderando um time fraco a uma honrosa nona colocação na temporada 1983–84, a quatro pontos do time que ficou na quarta (a Internazionale), que daria vaga para a Copa da UEFA.

Zico marcou 19 gols, apenas um atrás na artilharia do campeonato, que ficou com Michel Platini, da campeã Juventus. O detalhe é que o francês jogou seis partidas a mais, muito por conta de uma lesão que Zico sofrera em amistoso contra o Brescia. Jogando muitas vezes machucado, sabendo da dependência que o time tinha em relação a ele, Zico começou a se desencantar com os dirigentes do clube, que haviam prometido formar uma equipe forte o capaz para brigar pelo título, o que não vinha acontecendo - além dele, os únicos jogadores com certo reconhecimento eram seu colega de Seleção (e futuramente também de Flamengo) Edinho e um veterano ex-jogador da Seleção Italiana, Franco Causio, com quem fazia dupla no meio-de-campo. Começou a sonhar com sua volta ao Flamengo. A segunda temporada acabou marcada pela luta para não cair, com ele jogando apenas quinze vezes, mas ainda assim marcando doze gols. Outro motivo para o seu desejo em ir embora era o processo que sofria na Justiça Italiana por supostamente enviar ilegalmente dinheiro ao Brasil, que só mais tarde terminaria em sua absolvição. Em entrevista à revista inglesa FourFourTwo, Zico esclareceu o ocorrido:

“Assinei um contrato de uso de imagem no Brasil e, na Itália, o presidente da Udinese acertou um outro contrato de publicidade. Seria preciso uma autorização da receita federal italiana para que eu pudesse fazer publicidade na Itália. Respeitei isso e cumpri meu outro contrato. Mas aí os agentes da receita entraram com uma ação contra mim e tive que apelar. Mostrei, então, o contrato que tinha assinado no Brasil, que respeitava as leis brasileiras, e provei que pagava impostos corretamente. O engraçado é que acabei pagando mais impostos do que um cidadão de Udine normalmente pagava. Paguei algo próximo de US$ 500 000 e fui processado por sonegação devido a um erro contratual. Apelei e fui totalmente absolvido. Era totalmente legal e não fiz nada para evitar pagar meus impostos. Só que a imprensa não mencionava isso.”

Zico não deixou de reproduzir na Itália sua jogada característica, apavorando os goleiros adversários com suas cobranças de falta, gerando até acirrados debates nos programas esportivos nos canais de televisão do país: "Como evitar os gols de Zico?", discutiam.[28] Em sua passagem pela Udinese, Zico marcou 17 gols de falta dentre seus 57 gols.[28] Dos gols "normais", dois são lembrados em especial: o da vitória de 1–0, em novembro de 1983, marcado aos 41 minutos do segundo tempo, sobre a então campeã, a Roma, que nunca havia perdido para a Udinese.[29] Outro foi uma bicicleta em sua estreia no mítico Estádio San Siro, em jogo contra o Milan, diminuindo no final da partida o placar para 3–2 — ainda arranjaria tempo para dar assistência a Causio para o gol de empate.[27] Foi também muito aplaudido e teve o seu nome gritado e cantado pelas torcidas adversárias, fato que ocorreu contra o Ascoli, Genoa e Catania.[27] Contra o Ascoli, torcedores, repórteres e até o goleiro adversário o aplaudiram após ter feito um lindo gol. Em Gênova, o estádio inteiro cantou o seu nome e em Catania os torcedores do time rival não só gritavam e cantavam o seu nome como também torciam por ele: todas as vezes que ele tocava na bola era ovacionado e quando surgia uma falta próximo a área, clamavam para que Zico a cobrasse.

Ao terminar a partida, o jogador brasileiro Pedrinho, do Catania (e seu colega na Copa de 1982, além de ex-adversário de Vasco), foi indagado por um repórter: "Vocês poderiam ter vencido o jogo?". E ele respondeu: "Como poderíamos se até a nossa torcida estava torcendo pelo Zico?".[27] Em uma pesquisa realizada em novembro de 2006 pelo jornal italiano La Repubblica[30] sobre os maiores jogadores brasileiros na Itália, Zico aparece em primeiro, à frente de Mazzola, Falcão, Careca, Ronaldo e Kaká, dentre outros. Seu carisma e talento continuaram a ficar no coração do torcedor da Udinese mesmo após sua saída: em 1989, quatro anos após ter deixado o clube (que caíra para a Serie B duas temporadas após o ídolo ter ido embora), lotou o Estádio Comunale del Friuli na partida que marcava a sua despedida da Seleção Brasileira.[28] Vinte anos depois, em novembro de 2009, o Galinho recebeu a cidadania honorária de Udine. Quem sintetizou de forma mais aprimorada a grande metamorfose operada por ele na cidade foi um jornalista do Il Gazzettino de Veneza, profissional encarregado de segui-lo, Luigi Maffei.

“ Para nós, friulanos, Zico tem o mesmo significado de um motor da Ferrari colocado dentro de um Fusca. Sentimo-nos os únicos no mundo a possuir um carro tão maravilhoso e absurdo.[27] ”

Retorno ao Flamengo: Após duas temporadas na Itália, Zico voltou no segundo semestre de 1985 ao seu clube do coração. O retorno foi possibilitado por uma operação organizada pela agência de publicidade Estrutural, financiada pela SulAmérica Seguros e com apoio da Rede Manchete, chamado Projeto Zico, que incluiu a criação de um filme publicitário em que seis garotos fanáticos pelo Flamengo — Cebola, Gênio, Pulga, Bochecha, Limão e G/18 — iam à Itália buscar de volta o ídolo.[31] O primeiro jogo na volta para o Brasil, no dia 12 de julho de 1985, foi um amistoso contra um combinado de craques internacionais, como Paulo Roberto Falcão, Karl-Heinz Rummenigge, Cerezo e Diego Maradona. O Flamengo venceu os Amigos de Zico por 3–1. Zico marcou um gol de falta. Jacozinho, ponta-esquerda do CSA de Alagoas, marcou o gol dos Amigos de Zico. O primeiro jogo oficial, em 14 de julho, foi uma vitória rubro-negra por 3–0 sobre o Bahia, com gols de Zico, Tita e Chiquinho.[32]

Os festejos, entretanto, deram lugar à agonia pouco depois, após sofrer falta desleal de Márcio Nunes, em partida contra o Bangu. A pancada devastou suas pernas: Zico teve torções nos dois joelhos e no tornozelo esquerdo, contusão na cabeça do perônio esquerdo e profundas escoriações na perna direita.[33] Teve de se submeter a três cirurgias no joelho esquerdo e a longo período de recuperações devido os consequentes problemas musculares. Só optou por elas pois teria de encerrar a carreira se não as fizesse. "Decidi tentar, pois não admitia a ideia de ser obrigado a abandonar os campos. Queria um dia parar com o futebol e não o futebol parar comigo", declarou Zico que, em virtude da recuperação, teve a curvatura da perna esquerda alterada, tendo de alterar também a sua forma de pisar.[33] Havia também a motivação extra pela realização da Copa do Mundo no ano seguinte. Para voltar a jogar, teve de suportar até oito horas diárias na sala de musculação da Gávea, lutando para conseguir novos centímetros para a perna esquerda, que sofrera atrofia.

A resposta aos que já o consideravam ex-jogador veio em fevereiro de 1986, às vésperas da Copa, em um Fla-Flu. Os festejos rubro-negros antes da partida eram destinados à estreia de Sócrates como jogador do Flamengo, naquele dia.[34] Após o jogo, as comemorações deram-se em função da atuação de gala de Zico, que marcou três gols — um de falta — na goleada flamenguista por 4–1.[35] No Flamengo, a recompensa viria com o título estadual naquele mesmo ano e, no seguinte, seria o tetracampeonato brasileiro, com a conquista do módulo verde da Copa União, já com ele tendo alterado seu estilo de jogo: substituiu seu ímpeto pela cadência, os dribles rumo ao gol por toques de primeira e lançamentos.[12] A taça de 1987 seria a última levantada pelo Galinho no Flamengo, e não seria reconhecida pela CBF até 2011, quando foi oficializada como título brasileiro, ao lado do módulo amarelo, que apontou como representantes do Brasil na Libertadores de 1988 os times do Sport e do Guarani, respectivamente. Porém, logo em seguida a CBF voltou atrás, reconhecendo somente o Sport como único campeão de 1987 por ordem judicial.[36]

Em 1988, o Flamengo perderia o Carioca para o Vasco (assim como no ano anterior) e, no Brasileirão, seria eliminado nas quartas de final pelo Grêmio. Zico decidiu parar de jogar no segundo semestre de 1989: o Flamengo perdera o Estadual para o Botafogo. Sua última partida oficial no Flamengo terminou da melhor forma: uma goleada de 5–0 sobre o Fluminense, em Juiz de Fora, num jogo em que o Galinho não poupou dribles, lançamentos e um inesquecível gol na sua especialidade. "Era tudo o que eu queria. Terminar com um gol e justo do jeito que eu mais gosto: de falta".[37]

Sua última partida pelo Flamengo foi um amistoso contra a World Cup Masters (2–2), em 6 de fevereiro de 1990, quando recebeu de presente da Placar, pelas mãos de Juca Kfouri (então diretor da revista), o Troféu Copa União, ao qual havia levantado em 1987, ao vencer o Internacional por 1–0. O público no Maracanã era de cerca de 100 mil pessoas.[38]

Sumitomo Metals/Kashima Antlers: Em 1991, Zico retornou ao futebol, mas para disputar o ainda incipiente futebol japonês. No Japão, o meio-campista atuou pelo Sumitomo Metals e pelo clube originado deste, o atual Kashima Antlers, de 1991 a 1994, quando deixou definitivamente os gramados. Sua passagem pelo Japão, junto com outros jogadores famosos já em fim de carreira ou em via de se aposentar, foi apontada como uma das maiores razões para a popularização e profissionalização do futebol no país, que finalmente promoveria a primeira edição profissional do Campeonato Japonês em 1993. Na final contra o Verdy Kawasaki (atual Tokyo Verdy), Zico recebeu uma das raras expulsões na carreira, ao cuspir na bola por sua irritação com a atuação do árbitro, que estaria favorecendo o adversário (que acabou ficando com o título).[39] Os gols da final, de qualquer forma, saíram de jogadores inspirados por Zico a jogar no então recém profissionalizado futebol nipônico: pelo Kashima, seu ex-colega de Flamengo Alcindo; pelo Verdy, o ex-adversário de Vasco Bismarck e também Kazu, japonês que jogava no Brasil. Zico aposentou-se após o término da segunda edição da J-League, com o Kashima ficando em terceiro na classificação geral. Mesmo não tendo conseguido o título do Campeonato Japonês, o brasileiro ficou bastante reverenciado no país, que aprendeu a gostar de futebol muito por conta do carisma e das atuações do veterano ídolo, que inclusive ganhou uma estátua em sua homenagem por lá.[39] Oswaldo de Oliveira, que treinaria o Kashima, resumiu a importância de Zico para o clube:

“ O Zico participou da formação do Kashima ainda no início, quando o clube era amador. O conceito dele é fabuloso e até hoje a torcida leva uma faixa para ele em todos os jogos. O Antlers ia ser um clube de fábrica, e o Zico o fez virar grande, lhe deu história e tradição.[40] ”
Quando já estava no Kashima, Zico voltou a jogar no Maracanã uma vez, como convidado especial do antigo rival Roberto Dinamite, para o amistoso de despedida deste, entre o Vasco e o Deportivo La Coruña de Bebeto, ex-colega de ambos. A ocasião ficou famosa por ter sido a única vez que Zico entrou em campo com a camisa cruzmaltina.[41] O Galinho continuou a jogar futebol por um ano após deixar os gramados, mas na areia. De volta ao Brasil, onde fundou o clube que leva o seu nome, o CFZ (Centro de Futebol Zico), atuou pela Seleção Brasileira nos dois primeiros campeonatos mundiais do chamado beach soccer (1995 e 1996), sendo campeão em ambos e, no primeiro, também o artilheiro e melhor jogador.

SELEÇÃO NACIONAL

Seleção Brasileira Olímpica: Pela Seleção Pré-Olímpica, Zico foi durante o torneio classificatório para as Olimpíadas de 1972 um dos destaques da Seleção, tendo inclusive feito o gol da classificação. Porém, de maneira inexplicada, foi cortado da equipe que foi aos Jogos em Munique. Sua decepção com a ausência lhe fez pensar em parar de jogar, na época.

Mais tarde, a imprensa noticiou que sua não convocação se deu por conta de um problema que seu irmão Nando teve com a ditadura militar.

“Eu sempre botei na minha cabeça que fui sacado por causa do futebol, não por causa desses problemas políticos. Realmente todo mundo que comandava era do exército. Era o que mandava na época.”

— Zico, em entrevista dada em 2011

Dois anos depois, Zico deu uma entrevista em que informava que pensa que a origem do problema é outra:

“O problema maior aconteceu com o meu irmão Antunes, que não foi convocado para a Seleção Olímpica de 1964 porque o meu pai, seu Antunes, não aceitou assinar um contrato de gaveta com o Fluminense e, com isso, o cara que era militar, do Fluminense e da CBD, disse que ele também não iria pra Olimpíada. Em 1969 o Edu não foi, e tudo era comandado por militares. Se tivesse que ter acontecido alguma coisa, eu nem seria levado pro Pré-Olímpico de 1971. Não havia sentido me tirar por causa disso quatro ou cinco meses depois. E não foi só comigo, mas minha família estava escaldada por conta de todas essas histórias.”

— Zico, em entrevista ao Jornal do Brasil, em 2013

Seleção Brasileira principal:

Zico posando para uma revista com camiseta brasileira em 04 de março de 1988.

Descontado seu jogo de despedida em 1989, em Údine, e partidas por seleções inferiores, Zico atuou por dez anos pelo Brasil, marcando 66 gols em 89 partidas, tendo saído como segundo maior artilheiro da Seleção, atrás apenas de Pelé (posteriormente, seria ultrapassado por Romário). Disputou três Copas do Mundo, não tendo experimentado o sabor do título mundial. Suas únicas taças pela Seleção foram conquistadas no ano de seu debute, 1976: a Copa Rio Branco, a Copa Roca, a Taça Oswaldo Cruz, a Taça do Atlântico e o Torneio Bicentenário dos Estados Unidos[44] (em que marcou, nos 4–1 contra a Itália, um de seus gols mais bonitos, driblando três adversários e chutando de pé esquerdo na meta de Dino Zoff). Ganhou também a taça Inglaterra-Brasil, disputada num jogo único em Wembley no ano de 1981, quando marcou o gol da vitória de 1–0 contra o English Team.[45] Seu debute ocorreu numa partida contra o Uruguai, em Montevidéu, válida pela Copa Rio Branco. Com o jogo empatado em 1–1 e com Rivellino e Nelinho expulsos, coube a Zico marcar o gol da vitória em cobrança de falta no final da partida.[46] Apenas em 2009 o Brasil voltaria a vencer a Seleção Uruguaia na casa dela.

Nas eliminatórias para a Copa do Mundo de 1978, marcou cinco gols e deu três assistências. Repetiu assim Tostão em 1970, Ronaldo em 2006 e Neymar em 2022, como artilheiro e líder de assistências do Brasil em uma eliminatória sul-americana.

Zico foi à Copa do Mundo FIFA de 1978 em momento no qual ainda se firmava na equipe treinada por Cláudio Coutinho. O que seria seu primeiro gol no torneio terminou mal anulado: no final da estreia na primeira fase de grupos, contra a Suécia, o árbitro (o galês Clive Thomas) encerrou a partida no momento em que a bola estava no ar após cobrança de escanteio, antes que o cabeceio dado por Zico a fizesse entrar nas redes. Por razões físicas e uma suposta interferência do comando da CBD na escalação do time, perdeu a posição de titular no terceiro jogo para Jorge Mendonça, passando a entrar no decorrer das partidas. Marcou contra o Peru, de pênalti, seu primeiro gol em Copas do Mundo. Despediu-se da Copa na partida contra a Polônia, a última da segunda fase de grupos, quando sofreu grave problema muscular ao prender o tornozelo em lance com o adversário Zbigniew Boniek[33][47] — se o Brasil passasse à final, Zico não jogaria. A Seleção teve de contentar-se com a decisão do terceiro lugar, conquistada após ficar empatada em pontos e com menor saldo de gols que a anfitriã Argentina, após a vitória desta por 6–0 sobre o Peru, o grande escândalo do torneio. Um drama talvez maior veio na Copa do Mundo FIFA de 1982, onde o Brasil vivia enorme favoritismo. Zico marcou quatro vezes no mundial: de falta contra a Escócia, em jogo em que reencontrou três jogadores do Liverpool contra quem jogara seis meses antes: Alan Hansen, Kenny Dalglish e Graeme Souness; dois contra a Nova Zelândia (um deles, de voleio); e outro contra a Argentina.

Na partida contra os rivais, também deu passe para Júnior marcar o terceiro e também envolveu-se no segundo, tendo dado passe para Falcão assistir a Serginho Chulapa. O jogo foi válido já pela segunda fase, onde um grupo formado também pela Itália daria uma vaga para as semifinais. O Brasil foi ao jogo contra os italianos podendo empatar para passar de fase: ambos haviam vencido a Argentina, mas o Brasil fizera um gol a mais. Tudo deu errado na partida decisiva do grupo. O técnico da Azzurra, Enzo Bearzot, já presenciara as habilidades de Zico em 1979, quando treinou a Seleção do Resto do Mundo em amistoso contra a Argentina comemorativo do aniversário de um ano do título do país na Copa de 1978. Zico chegara a Buenos Aires minutos antes da partida, entrando no segundo tempo. Marcou o gol de empate e levou o time da FIFA à vitória de virada Para anular o Galinho, escalou o violento Claudio Gentile, que já parara Diego Maradona, à base de muitas pancadas, na partida contra a Argentina. No único momento em que conseguiu desvencilhar-se da pesada marcação de Gentile, Zico deu o passe para o gol de Sócrates, que empatava a partida em 1–1.

Em outro momento, o adversário chegou a puxar tão forte a camisa de Zico que terminou por rasgá-la. O lance foi dentro da grande área, mas o pênalti não foi marcado pelo árbitro israelense Abraham Klein. A Itália venceu por 3–2 no que Zico, até então empatado com o alemão-ocidental Karl-Heinz Rummenigge na artilharia do mundial (premiação que ficaria com o carrasco Paolo Rossi, que fizera os três gols da vitória italiana naquela partida e faria outros três depois), considera sua "maior frustração no futebol".[48] A terceira e última Copa de Zico seria a de 1986. O Galinho ainda vivia a desconfiança da crítica em relação a seu estado físico após a lesão provocada por Márcio Nunes, do Bangu, em 1985. Sua resposta pela Seleção viria em abril, num amistoso contra a Iugoslávia, realizado no Recife. Na vitória brasileira por 4–2, marcou outro de seus gols mais bonitos, invadindo a área adversária deixando para trás uma fileira de quatro zagueiros e ainda livrando-se do goleiro antes de concluir para as redes.[37] Ainda assim, em virtude de sua recuperação, foi ao mundial como reserva. Jogou três das cinco partidas do Brasil na Copa, contra Irlanda do Norte, na primeira fase, com o Brasil já classificado; Polônia, nas oitavas de final; e França, nas quartas. Não marcou gols, perdendo a melhor chance que teve para fazê-lo, um pênalti contra os franceses. Zico havia acabado de entrar na partida, já empatada em 1–1, e feito sensacional lançamento para Branco, que foi derrubado na grande área pelo goleiro Joël Bats.

Como ainda estava frio na partida, Zico foi bater o pênalti relutantemente, o qual ele mesmo reconheceu ter cobrado mal.[49] O empate perdurou na prorrogação e a vaga nas semifinais foi decidida na série de pênaltis. Escalado para bater novamente, Zico acertou sua cobrança na decisão, mas Sócrates e Júlio César perderiam as suas e o Brasil acabaria eliminado. Foi a última partida oficial do meio-campista pelo Brasil — curiosamente, o jogador perdeu apenas uma vez pela Seleção em Copas, no fatídico jogo contra a Itália em 1982. Na Copa do Mundo FIFA de 1990, o técnico Sebastião Lazaroni chegou a conversar com Zico tentando fazer o jogador repensar a sua decisão de não disputar o Mundial. O Galinho optou por não jogar mais futebol, tendo outros planos: naquele ano, durante a presidência de Fernando Collor, foi Secretário Nacional de Esportes, cargo público que exerceu até o ano seguinte.

Estilo de jogo

Pós-aposentadoria

Carreira como treinador

Características como treinador

Carreira como dirigente e comentarista

Família

Estatísticas

Títulos como jogador

Títulos como treinador

Títulos como diretor técnico

Despedidas

Nas artes

Homenagens

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