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| Rafaela Onorio, Pamela (apelido não identificado), La Pancha e Vicky “La Movidito” em Salta, Argentina, 1988. |
Travesti (pronúncia em espanhol: [tɾaˈβesti]; pronúncia em português: [tɾavesˈtʃi]) é uma identidade de gênero feminina. As travestis rejeitam a masculinidade que lhes foi designada no nascimento, podendo elas ser tanto intersexo quanto endossexo. Ao se autoidentificarem como travestis, comumente transicionam, buscando adaptar sua expressão de gênero para uma que as conforte e reflita a sua identidade. Algumas travestis se expressam de forma não binária, ainda assim, por serem travestis, seu tratamento é necessariamente no feminino.
Entre as notáveis ativistas pelos direitos das travestis, destacam-se as argentinas Lohana Berkins, Claudia Pía Baudracco, Diana Sacayán, Marlene Wayar e Susy Shock; Erika Hilton, do Brasil; e Yren Rotela, do Paraguai.
Grupos muito semelhantes existem em toda a região, com nomes como vestidas, maricón, cochón, joto, marica, pájara, traveca, traveco e loca, entre outros. (Os insultos em espanhol maricón, marica, joto e puto — entre outros — podem ser considerados equivalentes aos insultos em inglês queer, faggot ou sissy. Ao longo deste artigo, o uso desses termos permanecerá sem edição e sem tradução, uma vez que foram reapropriados como categorias de autoidentificação, e sua genealogia e uso muitas vezes se sobrepõem aos de travesti.)
A transição de gênero pode se dar através da adaptação das suas vestimentas, gestos, fala e outras formas de expressão, assim como podem ser realizadas uma ou mais cirurgias de reafirmação de gênero. A travestilidade não tem como exigência uma expressão interpretada como feminina: a identidade da travesti é determinada a partir do momento em que ela se identifica. Por este motivo, destacada a diferença entre identidade e expressão de gênero, nenhum procedimento de transição (ou a sua falta) define a travestilidade.
A travestilidade é um gênero próprio e originário da América Latina. Portanto, não deve ser confundido com transvesti e nem mulher transgênero.
TERMINOLOGIA
Apesar de ser um conceito êmico amplamente utilizado em toda a região, a definição de travesti é fonte de controvérsia porque se refere a identidades heterogêneas e múltiplas, tornando paradoxal reduzir os termos a explicações universais. Embora seja um conceito amplamente utilizado na América Latina, a definição de travesti é controversa e ainda é considerada um termo transfóbico dependendo do contexto.
O uso do termo travesti era comum em francês no início do século XIX, de onde foi importado para o português com o mesmo significado. Transvestite (travesti em inglês) passou a ser usado na literatura científica e médica no final do século XIX e início do século XX, seguido pelos termos "transexual" e "transgênero". O uso original de travesti refere-se ao ato de se vestir com roupas do sexo oposto e foi estendido na década de 1960 para se referir a indivíduos que se vestiam como mulheres como performance ou em seu dia a dia. Sua diferenciação das noções de "transexual" e "mulher trans" é complexa e pode variar dependendo do contexto, desde considerá-lo um equivalente regional até uma identidade única.
O acadêmico Cole Rizki destacou que “as identificações trans e travesti estão em constante transformação e não devem ser entendidas como mutuamente exclusivas. As tensões entre trans e travesti como categorias identificatórias são frequentemente intraduzíveis, levando-nos a questionar que tipos de limitações e possibilidades estão embutidas nas distinções e afinidades críticas dos termos.” Escrevendo para a Latin American Research Review em 2020, Joseph M. Pierce afirmou que, nos países hispano-americanos, “como categoria geral, transgénero (transgênero) ou o termo mais popular trans [...] refere-se a pessoas que fazem esforços identitários, corporais e sociais para viver como membros do gênero que difere do sexo normativo que lhes foi atribuído ao nascer.” Comparando-o ao termo travesti, ele observou que:
“Na Argentina, Uruguai e Chile, [travesti] refere-se mais frequentemente a pessoas designadas como do sexo masculino ao nascer e que feminizam seus corpos, vestimentas e comportamentos; preferem pronomes e formas de tratamento femininas; e muitas vezes realizam transformações corporais significativas por meio de injeções de silicone ou tratamentos hormonais, mas não necessariamente buscam cirurgia de redesignação sexual. [...] ...o marcador conceitual e de identidade latino-americano específico travesti envolve variação de gênero, mas nem sempre diferença de gênero. Enquanto transgênero, trans e transexual são termos que se referem à mudança de gênero e sexo por meio de mecanismos legais, corporais ou sociais, uma travesti pode ter sido designada como "masculina" ao nascer, mas não necessariamente se considera uma mulher (embora algumas se considerem). [...] Para muitas travestis, o termo transgênero despolitiza uma história violenta de marginalização social e econômica. O termo travesti, em contraste, mantém essa diferença de classe e ressonância popular e, portanto, é uma identificação política, em vez de psicológica ou mesmo corporal.”
“Enquanto em inglês, transgênero muitas vezes precisa ser modificado para se adequar às hierarquias locais de raça, classe, capacidade e outras formas de diferença, travesti enfatiza, ao contrário, a impossibilidade de tal desarticulação em primeiro lugar. No entanto, travesti não pretende ser uma correção para trans, (...) [mas] uma identificação, uma análise crítica e um modo incorporado de fazer política.”
— Cole Rizki, Transgender Studies Quarterly, maio de 2019.
Segundo a ativista brasileira Amara Moira, os termos mulher trans e travesti são sinônimos, e muitas pessoas usam o primeiro para evitar as conotações negativas associadas ao segundo. A imposição das categorias transgênero e travesti por acadêmicos anglo-americanos sobre as identidades travesti tem sido considerada por alguns como colonizadora e ocidentalizante por natureza e tem encontrado resistência por parte da comunidade. Originalmente usado coloquialmente como um termo pejorativo, a categoria travesti foi reapropriada por ativistas brasileiros, peruanos e especialmente argentinos desde a década de 1990, pois possui uma especificidade regional que combina uma condição generalizada de vulnerabilidade social, uma associação com o trabalho sexual, a exclusão de direitos básicos e seu reconhecimento como uma identidade não binária e política.
Como são estigmatizadas, excluídas do sistema educacional e trabalhista e reificadas como objetos de crítica teórica ou consumo midiático, uma das principais lutas do ativismo travesti desde seu surgimento na década de 1990 foi a criação de suas próprias subjetividades políticas. A ativista travesti argentina Lohana Berkins destacou em 2006:
Nós, travestis, não nos identificamos apenas com o regionalismo linguístico, mas também por circunstâncias e características que fazem do travestismo um fenômeno diferente do transgênero norte-americano e europeu. Em primeiro lugar, nós, travestis, vivemos circunstâncias diferentes daquelas vivenciadas por muitas pessoas transgênero de outros países, que (...) têm como objetivo se rearranjar na lógica binária como mulheres ou homens. Grande parte das travestis latino-americanas reivindica a opção de ocupar uma posição fora do binarismo e tem como objetivo desestabilizar as categorias masculino e feminino. Em segundo lugar, a palavra transgênero originou-se de trabalhos teóricos desenvolvidos no âmbito da academia norte-americana. Em contraste, (...) o termo travesti na América Latina vem da medicina e foi apropriado, reelaborado e incorporado pelas travestis para se autodenominarem. Este é o termo com o qual nos reconhecemos e que escolhemos para nos construir como sujeitos de direitos. (...) O termo "travesti" tem sido e continua sendo usado como sinônimo de AIDS, ladrão, escandaloso, infectado, marginal. Decidimos atribuir novos significados à palavra travesti e associá-la à luta, à resistência, à dignidade e à felicidade.”
Apesar de sua reapropriação por alguns como identidade política, em alguns lugares (especialmente na Espanha) travesti ainda é considerado um termo transfóbico, frequentemente usado para invalidar pessoas que preferem os termos transexual ou transgênero. Por exemplo, em 2020, um jornalista espanhol causou controvérsia e teve que fazer um pedido público de desculpas após usar o termo para se referir à falecida personalidade da mídia La Veneno.
Embora o uso do termo travestismo ainda seja comum em espanhol, alguns autores contemporâneos o rejeitam para evitar confusão com a prática de travestismo, bem como o uso do sufixo-ismo, que vem das ciências médicas e é considerado patologizante. Em resposta a isso, o uso dos termos travestilidade (português) ou travestilidad (espanhol) tornou-se difundido na literatura acadêmica brasileira desde os anos 2000 e foi adotado por alguns autores de língua espanhola, enquanto outros optaram pelas palavras travestidad (aproximadamente "travestismo"), ou transvestividad (aproximadamente "transvestismo"). Da mesma forma, as palavras travestimentoe travestimiento (aproximadamente "travestismo" ou "transvestimento") são usadas como alternativa a "travestismo", mas para designar transformistas (isto é, artistas drag). O hispanismo travestismo (em inglês: transvestism) às vezes aparece em artigos em inglês sobre o tema, especialmente de autores sul-americanos.
As ativistas transgênero brasileiras Indianarae Siqueira e Erika Hilton cunharam o termo transvestigênere (em inglês: transvestigender), para abranger todo o espectro de experiências travestis, transgênero e transexuais em uma palavra unificadora. O termo é inclusivo de pessoas trans não binárias, homens trans, mulheres trans e indivíduos transmasculinos, usando terminação neolingual.
Alguns também usam o termo travesty, terminando com a letra y, para significar o mesmo que travesti, mas soando mais artístico, subversivo ou decolonial.
HISTÓRIA E CULTURA
Na Argentina: Uma importante fonte histórica de informação sobre a comunidade travesti durante o século XX são os relatos em primeira mão de Malva Solís, que emigrou do Chile na adolescência e viveu na Argentina até sua morte em 2015, aos 93 anos. Ela foi considerada a travesti mais longeva do país.
Após coletar depoimentos de travestis com mais de setenta anos, Josefina Fernández descobriu em 2004 que a maioria delas considerava o primeiro período do governo de Juan Perón — que governou a Argentina de 1946 a 1955 — como "aquele que mais claramente iniciou a perseguição de homens gays e travestis, independentemente de praticarem ou não prostituição de rua". Naqueles anos, travestis (identificadas na época como mariconas) começaram a ser regularmente presas na prisão de Devoto, como "criminosas sexuais". A prisão era um ponto de encontro recorrente para travestis e continuou sendo até o século XXI.
Apesar dos seus aspetos repressivos, o espaço prisional deu-lhes a possibilidade de gerar estratégias de solidariedade e forjar laços que mais tarde se espalhariam para fora. Chegaram mesmo a desenvolver o seu próprio jargão, conhecido como carrilche , que se baseava no jargão prisional. Como explica a antropóloga María Soledad Cutuli: «Hoje este código é conhecido como teje. Consiste em apropriar-se de elementos do jargão prisional ou do lunfardo [policial], deformar algumas sílabas de certas palavras e também usar termos inventados como cirilqui para se referir à polícia, ou mesmo o polissémico teje (em espanhol, “tecelagem”), que pode significar, dependendo do contexto, “mentira, história, argumento, caso”. Dizer que alguém é uma tejedora implica uma forma subtil de a qualificar como mentirosa; perguntar “o que estão tejiendo?” pressupõe que um encontro ou conversa possa ter segundas intenções.»
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| Travesti de Buenos Aires, 1960. Sem dados. Série: Carnaval. |
O Carnaval era historicamente considerado a festa popular das travestis, pois era a única época do ano em que elas podiam se expressar livremente no espaço público sem sofrer perseguição policial. Como uma travesti de Buenos Aires recordou em 2019: “Eram 6 dias de liberdade e 350 de prisão. Não estou exagerando. Era assim para nós. Era assim antes e depois da ditadura, ainda pior depois da ditadura. Naqueles dias era algo mágico: porque de sermos discriminadas nos transformávamos em divas. Se não houvesse travestis em um desfile de carnaval, parecia que faltava alguma coisa.”
As murgas do Carnaval de Buenos Aires incorporaram pela primeira vez atos de travestismo "desleixados" nas décadas de 1940 e 1950 para entreter o público, uma modalidade que mais tarde deu lugar à figura transformista (isto é, drag queens ) — definida como "o maricón luxuosamente vestido" — tornando-se uma atração para o público. De acordo com Malva Solís, duas travestis do desfile de carnaval de La Boca, chamadas Cualo e Pepa "La Carbonera", foram pioneiras na figura da "vedette da murga", uma inovação que começou por volta de 1961.
Este fenómeno pouco documentado, conhecido como o "movimento carnavalesco travesti", marcou um ponto de virada nos desfiles das décadas de 1960 e 1970 e contou com a participação de maquilhadores, figurinistas e coreógrafos da cena teatral de revista de Buenos Aires, todos eles maricones. Um artigo de 1968 do jornal Primera Plana sobre o Carnaval de Buenos Aires relatava: "Aqueles que resistem ao desaparecimento são os travestis, que começaram por exagerar os seus encantos femininos e acabaram num refinamento perigoso. Perucas e cosméticos modernos transformaram-nos em estrelas sugestivas, cuja identidade sexual já não era tão simples de compreender."
Em 2011, Solís refletiu sobre a importância das celebrações do Carnaval para as travestis: “Penso que o tema central das travestis que integravam as murgas era trazer à tona, do fundo da alma, o seu eu reprimido durante o resto do ano. Todos as viam e aplaudiam, mas não conseguiam compreender que por trás daquela fachada brilhante existia um desejo, o desejo de serem reconhecidas e aceites para viverem em liberdade.”
Ao contrário da década de 1950, a década de 1970 é considerada uma era de "descoberta artística do travesti" (em espanhol: destape), que começou com a chegada de uma travesti brasileira que se apresentou em um teatro conhecido em Buenos Aires. Seu show abriu caminho para apresentações posteriores de travestis locais.
Segundo Solís, o termo travesti começou a ser usado na década de 1960, inicialmente como uma forma de se referir aos artistas travestidos e transexuais que vinham do exterior para fazer shows. Em 1963, o artista francês Coccinelle visitou Buenos Aires para se apresentar no Teatro Maipo e causou grande impacto entre as mariconas locais. Solís disse à pesquisadora María Soledad Cutuli em 2013:
“Começando com Coccinelle (...) há uma abertura completa, algo novo que está surgindo. Surgiram muitas [artistas] siliconizadas, cirurgias plásticas; abertura social, (...) novas oportunidades para as mariconas, inaugura-se a 'artista travesti'. (...) A partir daí, abriu-se um novo modo de vida. (...) A cultura da artista puto, todas elas já andavam por aí com enchimento de algodão para fazer os seios, e já saíam para cantar, para dançar...”
O palco tornou-se o único lugar onde as travestis podiam se vestir publicamente como mulheres, já que era proibido fazê-lo nas ruas. Por volta de 1964, as artistas travestis — na época chamadas de lenci, em referência a um tipo de tecido, porque “eram como pequenas bonecas de pano” — se reuniam em um apartamento na Avenida Callao, onde ensaiavam números musicais e se preparavam para sair para shows em boates ou teatros. Como o uso de silicone ainda não era comum, elas recorriam ao uso de hormônios femininos para “poder mostrar os seios no palco da forma mais estética possível”. Segundo a escritora Daniela Vizgarra: “Se você não tivesse um Anovlar 21 na sua nécessaire, aparentemente você não existia”.
As travestis imitavam uma figura contornada — que enfatizava os seios e as nádegas — através de enchimentos chamados truquis, piu-piú ou colchón (lit. 'colchão'), primeiro usando TECIDOS DE ALGODÃO e mais tarde ESPUMA DE BORRACHA. Embora o enchimento já fosse usado desde pelo menos a década de 1950, a chegada da lycra na década de 1960 permitiu que elas "construíssem contornos físicos mais realistas". O ideal de beleza feminina apresentado pela televisão americana também incluía narizes pequenos e pontudos, mas, como as cirurgias eram muito caras, a maioria das travestis se contentava com soluções temporárias, recorrendo ao uso de cola e objetos que pudessem imitar uma prótese.
Segundo María Belén Correa, o surgimento de artistas travestis como Vanessa Show, Jorge Perez Evelyn, Brigitte Gambini e Ana Lupe Chaparro nas décadas de 1960 e 1970 constituiu "outra forma de ativismo". Segundo Jorge Perez Evelyn, as primeiras pessoas a popularizar o transformismo no cenário teatral — as "primeiras travestis a aparecer em Buenos Aires" — foram as integrantes de um grupo chamado Les Girls em 1972, seguidas por Vanessa Show e Ana Lupez. Ela também mencionou as travestis da "era seguinte", que incluía Graciela Scott, Claudia Prado e ela própria, que estreou em 1975.
Evelyn foi a primeira travesti a alcançar o papel de vedete na Avenida Corrientes, entre as famosas celebridades argentinas na revista "Corrientes de Lujo". Uma ditadura militar estava tomando conta do país na época, e Evelyn foi obrigada a deixar o país devido a ameaças de morte deixadas em seu quarto. Após Evelyn, houve um período de quinze anos de repressão para a comunidade devido à perseguição militar.
A chegada do silicone industrial em Buenos Aires transformou radicalmente os corpos e as subjetividades das travestis. Ele foi trazido da França para o Brasil e, de lá, para os países vizinhos. Na década de 1980, a famosa atriz e vedete Moria Casán tornou-se um modelo para as travestis locais, não apenas por seu corpo voluptuoso, mas também por sua imagem pública de desenvoltura sexual. Esse ideal de corpo curvilíneo começou a mudar na década de 1990, quando “formas femininas mais estilizadas e andróginas” se popularizaram. Com o surgimento do silicone, surgiu uma nova “hierarquia entre os corpos” das travestis, diferenciando entre aquelas que tinham ou não silicone, mas também em relação à quantidade utilizada e à qualidade dos resultados finais. Como explica a pesquisadora Ana Grabiela Álvarez: “A chegada do silicone industrial as aproxima de uma construção feminina genérica e fixa tanto as transformações corporais quanto um nicho específico da prostituição”.
Na década de 1980, a Rodovia Pan-Americana — que liga a Cidade de Buenos Aires aos diferentes distritos da Província de Buenos Aires — consolidou-se como a área mais importante onde travestis trabalhavam como prostitutas, tornando-se, assim, um dos aspectos definitivos da identidade travesti para a sociedade argentina e a cultura midiática. Em 1986, o jornalista do Canal 9, José de Zer, noticiou e, ao mesmo tempo, denunciou o assassinato de travestis que trabalhavam na Rodovia Pan-Americana. Devido à reportagem televisiva, tanto o jornalista quanto o canal foram processados e levados a julgamento, e as travestis tiveram que se organizar nos anos seguintes para que sua identidade ignorada aparecesse na mídia.
Os travestis ganharam destaque na opinião pública argentina na década de 1990, e suas primeiras aparições na televisão coincidiram com o surgimento organizado dos travestis na cena pública e nas ruas de Buenos Aires. Em 1991, Keny de Michelli tornou-se o primeiro travesti a aparecer na televisão aberta, participando de vários programas para dar visibilidade à comunidade. Essas aparições foram rapidamente banalizadas e a travestilidade foi apresentada como uma peculiar expressão hiperfeminina da masculinidade.
Após ganhar popularidade como vedete em 1995, Cris Miró causou sensação na mídia por sua identidade e expressão de gênero. Como a primeira travesti a se tornar uma celebridade nacional, ela é considerada um símbolo do meio social da década de 1990 e abriu caminho para que outras travestis e mulheres trans argentinas ganhassem popularidade como vedetes, principalmente Flor de la V. Paralelamente à ascensão de Miró à notoriedade, a organização política das travestis argentinas estava emergindo, e ativistas começaram a fazer suas primeiras aparições na mídia local. A fama de Miró foi inicialmente criticada por uma parte dessas ativistas, que se ressentiam do tratamento desigual que recebiam e de sua tentativa de incorporar uma visão idealizada da mulher perfeita.
Durante o início e meados dos anos 2000, a carreira musical e literária de Susy Shock, uma renomada ativista travesti, foi construída e ganhou visibilidade através de espaços culturais LGBT como a Casa Mutual Giribone em Buenos Aires e o Asentamiento 8 de Mayo em José León Suárez, Província de Buenos Aires.
Em novembro de 2007, foi publicada a primeira edição de El Teje, o primeiro periódico escrito por travestis na América Latina, em uma iniciativa conjunta entre ativistas e o Centro Cultural Ricardo Rojas.
No final da década de 2010, a comunidade travesti de Buenos Aires e arredores ganhou reconhecimento por suas contribuições criativas e artísticas e se inseriu na “cena contracultural queer”, um circuito de teatros, bares e centros culturais como Casa Brandon, Tierra Violeta, MU Trinchera Boutique e, mais recentemente, Feliza e Maricafé. Como apontou a pesquisadora Patricia Fogelman em 2020: “Nesse conjunto de espaços, as travestis são vistas com cada vez mais frequência atuando em peças de teatro, monólogos de stand-up, recitando poesia, fazendo performances, acompanhando bandas musicais, etc. Por outro lado, dentro da mesma comunidade ampliada, há um claro interesse em incorporar [travestis] e destacá-las como personagens centrais em romances, peças e canções. Assim, poderíamos dizer que em torno da figura das travestis há um reconhecimento e uma forte tentativa de colocá-las em lugares de visibilidade, especialmente por autoras lésbicas de romances e música para jovens alternativos.”
Las malas , o romance de estreia da escritora e atriz travesti Camila Sosa Villada — publicado inicialmente em 2019 na Argentina e no ano seguinte na Espanha — obteve sucesso de crítica e público. O livro centra-se na vida de um grupo de travestis de Córdoba, Argentina, e no seu trabalho como prostitutas no Parque Sarmiento. No entanto, Sosa Villada negou que o livro tenha sido concebido como um ato de ativismo ou visibilidade, alegando que concentrar as discussões sobre travestis na marginalidade e no trabalho sexual silencia as suas atuais contribuições culturais para a sociedade. O sucesso editorial contínuo de Las malas despertou o interesse pela literatura transgénero local e foi enquadrado num chamado "novo boom latino-americano", enquanto vários autores não-masculinos da região captaram a atenção do mercado internacional.
Com o início da pandemia de COVID-19 na Argentina, em março de 2020, as travestis foram um dos grupos mais afetados pelo confinamento, uma vez que a maioria delas depende da prostituição para obter rendimentos, dos quais ficaram sem. Em muitos casos, corriam o risco de serem despejadas dos hotéis onde já pagavam preços elevados. Diversas ONGs surgiram para enfrentar a emergência, como a 100% Diversidad y Derechos e a La Rosa Naranja.
Em 2021, Flor de la V, uma celebridade transgênero argentina, anunciou que não se identificava mais como uma mulher trans, mas como uma travesti, escrevendo: “Descobri uma maneira mais correta de entrar em contato com o que sinto: nem mulher, nem heterossexual, nem homossexual, nem bissexual. Sou uma dissidente do sistema de gênero, minha construção política nesta sociedade é a de uma travesti pura. Isso é o que sou, o que quero e o que escolho ser.”
Aqui No Brasil: O antropólogo Don Kulick observou que: “Os travestis parecem existir em toda a América Latina, mas em nenhum outro país são tão numerosos e conhecidos como no Brasil, onde ocupam um lugar notavelmente visível tanto no espaço social quanto no imaginário cultural.” Por esta razão, são frequentemente invocados por comentadores sociais como símbolos do próprio Brasil.
Uma das travestis mais proeminentes no imaginário cultural brasileiro do final do século XX foi Roberta Close, que se tornou um nome familiar em meados da década de 1980 e foi "amplamente aclamada como a mulher mais bonita do Brasil", posando na Playboy e aparecendo regularmente na televisão e em diversas outras publicações. Ela é atualmente classificada como uma mulher transgênero intersexo.
A fotógrafa Madalena Schwartz fez uma série de retratos da cena travesti de São Paulo na década de 1970.
Historicamente, os brasileiros usavam as palavras traveca ou traveco para denominar travestis, o que agora é considerado um insulto transfóbico.
Nos últimos anos, a contratação de mulheres trans tornou-se popular na indústria publicitária, embora ao mesmo tempo as diferencie dos travestis.
No Paraguai: Na década de 1980, durante a ditadura militar de Alfredo Stroessner, vinte travestis foram presas no âmbito do Caso Palmieri, entre elas as conhecidas Carla e Liz Paola. Um adolescente de 14 anos, Mario Luis Palmieri, foi encontrado assassinado e a hipótese da polícia era a de um crime passional homossexual, desencadeando uma das mais famosas perseguições contra identidades LGBT na história do Paraguai.
As travestis paraguaias usam uma linguagem secreta chamada jeito — originada no campo da prostituição — para se protegerem de clientes, da polícia ou de qualquer pessoa estranha aos locais onde trabalham e que ameace a segurança do grupo. Algumas de suas palavras são rua, odara (a chefe travesti de uma área de prostituição), alibán (polícia) e fregués (clientes).
No Uruguai: Gloria Meneses viveu abertamente como travesti desde a década de 1950 e era conhecida como a "mãe das travestis".
Espanha: A chegada do modelo médico da transexualidade ocorreu mais cedo na Europa do que na América Latina e, portanto, seu impacto foi diferente em cada região. Na Espanha, as identidades travestis são geralmente incluídas na categoria "transexual" em pesquisas acadêmicas, uma vez que é percebida como mais "politicamente correta". Como resultado da forte institucionalização médica em torno da transexualidade, autodenominar-se "travesti" na Espanha é considerado um ato de descrédito, devido à sua estreita ligação com a prostituição, especialmente após as migrações de travestis latino-americanas. No entanto, na década de 1970, o termo "travesti" era amplamente utilizado para se referir a qualquer pessoa designada como homem ao nascer, mas que se vestia e vivia como mulher, temporária ou permanentemente. De fato, os poucos espanhóis que se autodenominavam "transexuais" e que fizeram cirurgia de redesignação sexual não foram amplamente aceitos por seus pares e eram vistos como "pessoas castradas". Durante a era Franco, as travestis foram perseguidas através da criação de um forte aparelho legislativo e policial.
Entre o final da década de 1980 e o início da década de 1990, os transexuais — que já não se autodenominavam "travestis" — começaram a organizar-se, criando os seus próprios coletivos políticos, exigindo a institucionalização da transexualidade no sistema de saúde, bem como o fim dos estereótipos que os associavam ao VIH/SIDA, à prostituição e à marginalização — uma imagem incorporada no conceito de travesti. Por conseguinte, a especificidade travesti em Espanha é geralmente subsumida na categoria médica mais consensual de "transexual" ou em termos mais politizados como "trans" ou "transgénero", uma vez que conferem maior legitimidade social. Dado que a grande maioria dos travestis provém de contextos sociais desfavorecidos e com baixos níveis de escolaridade, as suas diferenças em relação aos ativistas transexuais também se devem às exigências destes grupos mais intelectualizados. No entanto, algumas pessoas que vivem em Espanha optam por se identificar como travestis, enquanto identidade de gênero fluida.
PESQUISA ACADÊMICA
Visão geral: Após um longo período de criminalização, as "desvios sexuais" tornaram-se objeto de estudo nas ciências médicas e sexuais, que estabeleceram as diferentes formas de desvio. Entre 1870 e 1920, foi produzida uma grande quantidade de pesquisas sobre pessoas que se vestiam com roupas do sexo oposto ou desejavam adotar o papel atribuído ao sexo oposto. Em 1910, o renomado sexólogo alemão Magnus Hirschfeld usou o termo travesti, em seu texto Transvestites: The Erotic Drive to Cross-Dress (em alemão: Die Transvestiten: ein Untersuchung über den erotischen Verkleidungstrieb), para descrever "pessoas que sentem uma compulsão para usar roupas do sexo oposto" e rejeitou a ideia de que eram uma variante da homossexualidade, que na época era uma concepção muito difundida na sexologia. Entre 1920 e 1950, os termos travestismo e eonismo foram incorporados à literatura científica, embora geralmente esses relatos apenas complementassem os de anos anteriores.
Durante a década de 1950, o termo transexual — usado pela primeira vez pelo sexólogo americano David Oliver Cauldwell — ganhou relevância ao mesmo tempo que surgiram clínicas de identidade sexual e cirurgias de mudança de sexo. Isso fez com que o travestismo fosse temporariamente deixado de lado como tópico de interesse médico no final da década de 1960 e na década de 1970.
Travestis têm sido estudadas por disciplinas como a psicologia social e especialmente a antropologia social, que documentaram extensivamente o fenômeno em etnografias clássicas e mais recentes. A produção acadêmica sobre travestis sul-americanas foi em grande parte realizada por acadêmicos não trans do Norte Global, algo que tem sido veementemente criticado por ativistas. Por ter a maior população de travestis (onde são até mesmo invocadas como ícones culturais), o Brasil é o país com o maior número de estudos sobre essas identidades, e as obras escritas em e sobre travestis brasileiras superam em número as de qualquer outro país latino-americano. Embora o interesse acadêmico por prostitutas travestis brasileiras tenha começado a se disseminar nas décadas de 1990 e início de 2000 — por meio de pesquisas internacionais como as de Don Kulick, Peter Fry e Richard Parker, bem como de autores locais como Marcos Renato Benedetti e Helio Silva —, as identidades travestis não se tornaram um tema central nos estudos de gênero do país até meados e o final da década de 2000, juntamente com a crescente influência da teoria queer, do pós-estruturalismo e do ativismo LGBT na literatura acadêmica. A pesquisa antropológica sobre a população travesti em língua espanhola é muito mais escassa do que em inglês e português, especialmente entre autores latino-americanos. Alguns estudiosos relacionam isso à chegada tardia do modelo médico da transexualidade, que também levou ao uso de termos “inapropriados” para designar identidades que não aderem às normas de gênero. Estudos relevantes em língua espanhola sobre travestis provêm de investigadores da Espanha, Argentina, Colômbia, México e Equador.
Principais hipóteses: Segundo a pesquisadora argentina María Soledad Cutuli, as etnografias mais recentes sobre travestis se enquadram em cinco eixos principais de análise: “identidade de gênero”, “corporeidade e subjetividade”, “saúde e sexualidade”, “prostituição e sociabilidade” e, em menor grau, “organização política”. Diante do fenômeno, os pesquisadores geralmente propuseram uma das três hipóteses: que as travestis constituem um terceiro gênero, que as travestis reforçam um dos dois únicos gêneros disponíveis em sua sociedade (masculino ou feminino) ou que as travestis desafiam a noção de binarismo , mas “longe de ser sua proposta a de gêneros supranumerários ou múltiplos, o que eles buscam é a desconstrução da própria categoria de gênero”. Desde a publicação de Problemas de Gênero em 1990 , várias ideias apresentadas pela filósofa americana Judith Butler — como a afirmação de que o conceito de sexo biológico é em si uma noção de gênero — tiveram grande impacto na análise acadêmica de travestis e nos estudos de gênero em geral.
Como um terceiro gênero: Uma vasta gama de estudos antropológicos investigou os travestis sob a hipótese de que deveriam ser interpretados como uma expressão de um terceiro gênero ou sexo, da mesma maneira que os berdaches da América do Norte, os hijras da Índia, os muxes do México, os kathoey da Tailândia, os māhū do Taiti, os fa'afafine de Samoa e os xanith de Omã, entre outras identidades.
Entre os primeiros antropólogos a propor a categoria de terceiro gênero estavam Kay Martin e Barbara Voorhies em 1978, que basearam sua pesquisa na revisão de etnografias clássicas sobre berdaches. A ideia de um terceiro gênero foi posteriormente apresentada em meados da década de 1990 por autores como Gilbert Herdt, Will Roscoe, Hilda Habychain e Anne Bolin; e estendida a outros povos não ocidentais. Em 1998, Kulick argumentou que: "Travestis podem muito bem ser considerados um 'terceiro', em alguns dos sentidos em que Marjorie Garber usa esse termo, mas não são um terceiro que esteja situado fora ou além de um binarismo de gênero." Escrevendo para o The Guardian em 2019, Victor Madrigal-Borloz listou as pessoas travestis do Brasil e da Argentina como uma das muitas identidades mundiais que não são nem masculinas nem femininas, juntamente com os yimpininni do povo Tiwi na Austrália, bem como fa'afafine em Samoa, two spirit no Canadá e nos Estados Unidos e hijra em Bangladesh, Índia e Paquistão.
Como reforço do binarismo de gênero: Com seu livro de 1989, Travestismo e a Política de Gênero, Annie Woodhouse se estabeleceu entre os pesquisadores que consideram o travestismo um reforço das identidades de gênero, neste caso, a identidade feminina. Woodhouse argumentou que os travestis veem o gênero como algo rigidamente demarcado entre masculinidade e feminilidade e, nesse sentido, reproduzem papéis de gênero tradicionais que objetificam as mulheres. Em suas pesquisas de 1993 e 1995 sobre travestismo, a antropóloga argentina Victoria Barreda criticou a terceira categoria de gênero, argumentando que os travestis constroem uma identidade que necessariamente toma os estereótipos de gênero como ponto de referência. Outro pesquisador que segue essa tendência é Richard Ekins, que descreveu os travestis como "homens feminizados".
Entre as pesquisas baseadas na observação participante, a antropóloga francesa Annick Prieur foi considerada pioneira por sua etnografia de 1998 sobre a comunidade travesti dos subúrbios da Cidade do México, na qual argumentou que eles reproduzem o binarismo de gênero de sua sociedade. Os pesquisadores brasileiros Neuza Maria de Oliveira e Hélio Silva — considerados os fundadores da etnografia sobre o cotidiano dos travestis brasileiros — também se alinharam a essa visão, assim como o sucessor deste último, Marcelo José Oliveira. Apesar da intenção desses autores de aumentar a visibilidade acadêmica dos travestis, eles foram amplamente criticados por seus sucessores por usarem pronomes masculinos ao se referirem a eles.
Desenvolvendo criticamente esses trabalhos iniciais por meio do uso da etnometodologia , Kulick estudou a população travesti de Salvador, capital da Bahia, e inseriu sua estigmatização social no contexto mais amplo das desigualdades de classe e raciais. As conclusões de Kulick estão muito distantes das posições pós-modernas posteriores, pois ele argumentou que a identidade travesti é configurada a partir de estruturas sociais conservadoras. O autor propôs uma posição alternativa, sugerindo que os travestis baseiam sua identidade não em diferenças anatômicas de sexo, mas sim na orientação sexual, identificando-se como um subtipo de homens gays. Ele usou o termo “não-homens” para se referir a travestis, alegando que o escolheu: “em parte por falta de um rótulo culturalmente elaborado e em parte para destacar minha convicção de que o sistema de gênero que possibilita o surgimento e o sentido das travestis é um sistema massivamente orientado para, senão determinado por, a subjetividade masculina, o desejo masculino e o prazer masculino, tal como são culturalmente elaborados no Brasil.” Ele explicou ainda:
“É importante compreender que a afirmação que estou fazendo aqui é que as travestis compartilham um gênero com as mulheres, não que elas sejam mulheres (ou que as mulheres sejam travestis — mesmo que esta última proposição possa ser frutífera para explorar mais a fundo). A distinção é crucial. Travestis individuais nem sempre compartilharão, ou necessariamente compartilharão, os papéis, objetivos ou status social de mulheres individuais. (...) No entanto, na medida em que as travestis compartilham o mesmo gênero com as mulheres, entende-se que elas compartilham (e elas mesmas sentem que compartilham) com as mulheres todo um espectro de gostos, percepções, comportamentos, estilos, sentimentos e desejos.”
A pesquisa de Kulick teve um impacto internacional muito maior do que a de seus predecessores, devido à sua inserção na academia norte-americana e por ter sido publicada em inglês. Os autores mencionados têm em comum a ideia de que a identidade travesti não subverte os papéis de gênero nem a heteronormatividade.
Como uma desarticulação do próprio gênero: Informada pelas ideias de Judith Butler e pela teoria queer, a recente pesquisa analisa as travestis como uma demonstração do caráter performativo do gênero, afirmando que suas identidades estão em um processo permanente de construção que entra em disputa com o binarismo de gênero. Como observou a antropóloga espanhola María Fernanda Guerrero Zavala em 2015: “No âmbito acadêmico, as abordagens às identidades e aos corpos a partir do ponto de vista queer , que estão ganhando força, são propostas como uma saída da concepção estática das identidades e propõem ângulos de interpretação teórica baseados em experiências de vida.”
Fernández aborda a questão dos travestis usando a teoria crítica de gênero.
Em uma pesquisa de 2012 sobre imigrantes travestis brasileiros em Barcelona, a antropóloga espanhola Julieta Vartabedian Cabral sugeriu que os travestis constroem seu gênero, destacando a feminização de seus corpos e relações sexuais como evidência. A pesquisadora María Fernanda Guerrero Zavala observou que: “Diante de outras teorizações que defendem a descorporificação das identidades e o ativismo queer e transgênero, Vartabedian estrutura um “corpo” baseado nas experiências mais carnais dos travestis”.
A "teoria da travesti": Uma parte fundamental da pesquisa existente foi produzida pelas próprias travestis, como é o caso da ativista Lohana Berkins, cujos artigos, conferências, entrevistas e compilações são o pilar para o estudo dessa comunidade na Argentina. Nos últimos anos, têm surgido discussões sobre a chamada "teoria travesti", uma teoria crítica que propõe a construção de seu próprio paradigma, epistemologia e ontologia, por meio dos quais os discursos estabelecidos podem ser desarticulados a fim de produzir novos modos de produção de conhecimento sobre a população travesti, a partir de uma perspectiva regional e descolonizadora. A acadêmica peruana Malú Machuca Rose descreveu travesti como "a recusa em ser trans, a recusa em ser mulher, a recusa em ser inteligível. (...) Travesti é classificado e racializado: significa que você não se apresenta de forma feminina o tempo todo porque não pode se dar a esse luxo." Segundo Rizki, a “teoria travesti” constitui um “corpo de trabalho latino-americano e uma política corporal com uma extensa história transregional”, citando escritores sul-americanos como Berkins, Giuseppe Campuzano, Claudia Rodríguez e Marlene Wayar como expoentes. Ele definiu travesti como “uma política de recusa”, pois “nega a coerência e é uma identificação geopolítica sempre racializada e classificada que aponta para a inseparabilidade da indigeneidade, da negritude, da precariedade material, do trabalho sexual, do status de HIV e das relações desiguais com diversas formações estatais”. Segundo a acadêmica Dora Silva Santana, travesti é “uma negação de uma expectativa dominante imposta de feminilidade que se centra em pessoas cisgênero , heteronormativas , capacitistas , elitistas e brancas”. O livro Travesti/Una teoría lo suficientemente buena de Marlene Wayar, de 2018, foi considerado uma importante contribuição para a área. Wayar explicou:
“O que propomos é que a travesti é esse olhar, essa posição no mundo, e a analisamos a partir da América Latina porque é o mundo em que estamos inseridos. Acreditamos que todas as teorias anteriores e contemporâneas são muito boas, mas agora temos que fazê-las passar pelo nosso corpo e território para saber se nos dão bons ou maus resultados, (...) tem de ser uma teoria que não seja trazida de nenhum território iluminado, mas sim construída com o diálogo.”
CONDIÇÕES DE VIDA
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| Um grupo de travestis carregando o caixão com o corpo de sua amiga Nancy de Martelli, agosto de 1987. Província de Buenos Aires, Argentina. |
Nos últimos tempos, o conceito de "travesticídio" (em espanhol: travesticidio) — juntamente com "transfeminicídio" ou "transfeminicídio" — foi ampliado para se referir ao crime de ódio entendido como o assassinato de uma travesti devido à sua condição de gênero. Em 2015, o caso do assassinato da ativista Diana Sacayán tornou-se o primeiro precedente na Argentina e na América Latina a ser julgado criminalmente como um "travesticídio". De acordo com Blas Radi e Alejandra Sardá-Chandiramani:
“O travestismo/transfeminicídio é o fim de um contínuo de violência que começa com a expulsão do lar, a exclusão da educação, do sistema de saúde e do mercado de trabalho, a iniciação precoce na prostituição/trabalho sexual, o risco permanente de contrair doenças sexualmente transmissíveis, a criminalização, a estigmatização social, a patologização, a perseguição e a violência policial. Este padrão de violência constitui o espaço de experiência para mulheres trans e travestis, que se reflete no seu horizonte de expectativas cada vez mais reduzido. Nele, a morte não é nada de extraordinário; pelo contrário, nas palavras de Octavio Paz, "a vida e a morte são inseparáveis, e cada vez que a primeira perde significado, a segunda torna-se insignificante".”
A maioria dos travestis assume sua condição muito jovem e geralmente são percebidos pelos outros como meninos excessivamente afeminados durante a infância. Isso geralmente entra em conflito com seus relacionamentos com suas famílias e com o sistema educacional, que são marcados por discriminação e posterior abandono. A maioria é expulsa de suas famílias ou as deixa por vontade própria — geralmente entre os treze e dezoito anos — e na maioria dos casos consideram a ocasião como o início de suas novas vidas como travestis. Eles geralmente são forçados a deixar suas cidades ou mesmo países em busca de locais menos hostis. Em seu livro de pesquisa pioneiro de 2004, Cuerpos desobedientes, Josefina Fernández descobriu que a maioria dos travestis pesquisados havia sido vítima de abuso sexual infantil, embora tenha observado: “Devo esclarecer, no entanto, que é um tema que abordei com muita cautela (...), a fim de evitar quaisquer leituras 'ousadas' que possam associar estupro com travestismo em termos de causa e consequência.”
A associação entre travestis e prostituição constitui uma das representações de senso comum mais difundidas nas sociedades latino-americanas. Como suas condições de vida são marcadas pela exclusão do sistema educacional formal e do mercado de trabalho, a prostituição se constitui como sua “única fonte de renda, a estratégia de sobrevivência mais difundida e um dos poucos espaços de reconhecimento da identidade travesti como uma possibilidade de estar no mundo”. Isso, por sua vez, tem um papel importante — ou definidor — na construção de sua identidade. A organização brasileira ANTRA estima que 90% das travestis e mulheres trans do país recorrem à prostituição pelo menos uma vez na vida. Segundo La revolución de las mariposas, 88% das travestis e mulheres trans de Buenos Aires nunca tiveram um emprego formal, enquanto 51,5% nunca tiveram nenhum tipo de emprego. 70,4% dos entrevistados disseram que ganhavam a vida com a prostituição e, desse grupo, 75,7% faziam isso desde os 18 anos ou menos. 87,2% dessas travestis e mulheres trans entrevistadas que atualmente trabalham como prostitutas desejam deixar a atividade se lhes fosse oferecido um emprego. A expulsão de travestis do sistema educacional é um elemento necessário para entender o uso da prostituição como meio de sustento quase exclusivo, uma vez que as “circunstâncias hostis que marcam a experiência escolar da maioria das meninas e adolescentes travestis condicionam severamente as possibilidades desses sujeitos em termos de inclusão social e acesso a empregos de qualidade na vida adulta”.
A forte estigmatização em relação às travestis e ao trabalho sexual que exercem geralmente condiciona o atendimento que recebem dos profissionais de saúde. O medo da rejeição por parte dos profissionais de saúde muitas vezes as leva à automedicação e a procurar atendimento em instituições de saúde quando as condições ou doenças já estão em estágios muito avançados. Devido ao forte estereótipo em relação às travestis no que diz respeito à prostituição e ao HIV, elas geralmente são encaminhadas automaticamente para centros de HIV/AIDS sempre que comparecem a um centro médico, ignorando suas outras necessidades de saúde. Embora a alta prevalência de HIV/AIDS em travestis seja real, ela decorre de um processo de exclusão social que "acaba se encarnando nos corpos das travestis e confirmando o estereótipo". As travestis estão em uma situação extremamente vulnerável em relação ao vírus. Um estudo publicado na revista Culture, Health & Sexuality em 2009 constatou que elas são um dos grupos mais afetados pelo HIV no México; enquanto uma pesquisa publicada na Global Public Health em 2016 constatou que há uma prevalência de 30% do vírus na população travesti de Lima, capital do Peru. Alguns sistemas de saúde continuam a incluir travestis na categoria epidemiológica de "homens que fazem sexo com homens" (HSH), com pouca consideração por sua situação e necessidades específicas. Estudos recentes indicam a necessidade de campanhas de prevenção do HIV em múltiplos níveis que priorizem a população travesti.
O acesso à moradia é um dos problemas que mais afeta a comunidade travesti. Em Buenos Aires, 65,1% das travestis e mulheres trans vivem em quartos alugados em hotéis, casas particulares, pensões ou apartamentos, sejam autorizados pelo órgão competente ou “tomados” por aqueles que os administram irregularmente. Segundo um estudo realizado pelo INDEC e INADI em 2012, 46% da população de travestis e mulheres trans na Argentina vivia em moradias precárias, enquanto outro estudo realizado pela ATTTA e Fundación Huesped em 2014 indicou que um terço delas vivia em domicílios pobres, particularmente na região Noroeste do país.
ATIVISMO
Movimento argentino de 1990–2004: A identidade travesti tem uma importante história de mobilização política na Argentina, onde é orgulhosamente reivindicada como o "locus político por excelência" de resistência às políticas de binarismo de gênero e cisexismo. As travestis argentinas começaram a se organizar entre o final da década de 1980 e o início da década de 1990, em repúdio à perseguição, aos maus-tratos e à violência policial, bem como aos decretos policiais (em espanhol: edictos policiales) em vigor na época. Uma figura pioneira foi Karina Urbina, a primeira ativista pelos direitos transgênero no país, embora não enquadrada no termo travesti, mas sim transexual. Ao contrário da atitude pública escandalosa das travestis, transexuais como Urbina se mostravam na televisão como sensíveis e afetuosas, qualidades que mais associavam à feminilidade. Outra diferença inicial entre os dois grupos é que as travestis lutaram contra os decretos policiais e exigiram a sua anulação, enquanto as transexuais procuraram ser reconhecidas como mulheres e registadas como tal nos seus documentos.
O movimento político travesti foi formalmente organizado com a fundação da Asociación de Travestis Argentinas (ATA), em 1992 ou 1993, dependendo do autor. Outros acreditam que a criação da Travestis Unidas (TU) precede a da ATA e a consideram a primeira organização travesti do país. Foi fundada por Kenny de Michellis juntamente com três amigos em maio de 1993. Ela teve seu primeiro contato com o ativismo gay local no início da década de 1990 por meio da Gays DC, uma organização formada por Carlos Jáuregui, César Cigliutti e Marcelo Ferreyra em 1991, após se separarem da Comunidad Homosexual Argentina (CHA). Os três homens fundaram a CHA em 1984 e Jáuregui foi o seu membro mais visível, tornando-se a primeira pessoa a defender abertamente a sua homossexualidade nos meios de comunicação argentinos. Os membros da Gays DC encorajaram De Michellis a formar a Travestis Unidas e ofereceram-lhe a oportunidade de escrever uma coluna sobre a situação dos travestis na sua revista oficial. O seu envolvimento como ativista deu-se fundamentalmente através das suas aparições nos meios de comunicação, já que se tornou a primeira travesti a aparecer na televisão nacional. Naquela época, o “exercício da visibilidade” era considerado uma das formas ideais e preferenciais de abordar o ativismo travesti.
María Belén Correa, outra das travestis que começaram a se organizar no início da década de 1990, também se envolveu com o ativismo por meio da Gays DC, com a qual entrou em contato em 1993 em busca de ajuda jurídica. Os advogados da associação a encorajaram a formar seu próprio grupo e Correa fundou a ATA, à qual se juntaram posteriormente Lohana Berkins e Nadia Echazú. Correa lembrou o papel de Carlos Jáuregui em seu ativismo:
“Carlos disse que tínhamos trazido um novo ar ao ativismo [homossexual local]. Eles estavam ocupados com o [projeto] de união civil e nós dizíamos “não podemos viver, não podemos andar, não podemos ir ao supermercado”. As coisas eram literalmente assim. Ele foi o primeiro a vir às nossas reuniões (...) Ele escrevia nossos comunicados de imprensa, nossos discursos, porque não sabíamos como fazê-los. (...) Ele começou a nos dizer que éramos ativistas e nos ensinou a nos comportar como tal. Nem sequer entendíamos o conceito de transexualidade (...), nos tornamos ativistas quase sem perceber.”
Uma das primeiras grandes lutas políticas das travestis ocorreu no contexto da emenda constitucional argentina de 1994 e girou em torno da inclusão de um artigo de não discriminação com base na orientação sexual na nova constituição da cidade de Buenos Aires. Observando que o projeto excluía as travestis, elas começaram a exigir que o movimento LGBT mais amplo se concentrasse não apenas na orientação sexual, mas também em questões de identidade de gênero. Ao mesmo tempo, as travestis participaram das discussões para revogar os decretos policiais sob os quais travestis e profissionais do sexo eram detidas regularmente. Esses decretos foram substituídos pelo Código de Convivência Urbana, que confrontou as travestis com os Vecinos de Palermo, um grupo de moradores de Palermo que exigiam mais repressão policial e regulamentações mais rígidas para erradicar as prostitutas de seu bairro.
Dentro desses debates, as travestis entraram em contato com grupos de direitos das mulheres e logo começaram a ser incluídas em espaços de discussão feminista. Seu contato com o feminismo local em meados da década de 1990 é considerado um momento-chave no desenvolvimento do movimento pelos direitos das travestis argentinas, pois direcionou suas preocupações para o conceito de identidade de gênero, e marcou o início do transfeminismo no país. A inclusão, em particular, foi a de Berkins, que entrou no movimento pelos direitos das mulheres por meio de encontros com feministas lésbicas como Alejandra Sarda, Ilse Fuskova, Chela Nadio e Fabiana Tron. Seguindo essa abordagem da teoria de gênero, a ATA foi dividida em duas novas organizações em 1995: a Organización de Travestis y Transexuales de la República Argentina (OTTRA; em português: Organização de Travestis e Transexuais da República Argentina) e a Asociación Lucha por la Identidad Travesti y Transexual (ALITT; em português: Associação de Luta pela Identidade Travesti e Transexual). A primeira — liderada por Echazú — defendia a prostituição como um modo de vida válido, enquanto a segunda — liderada por Berkins — geralmente a rejeitava e se concentrava principalmente no reconhecimento social de suas identidades. Elas buscavam se distanciar da posição da ATA que argumentava que, para mudar as condições de vida das travestis, elas deveriam, antes de tudo, modificar a imagem que a sociedade tinha delas, ignorando a questão da prostituição.
Entre 1993 e 2003, a ALITT colaborou com a Defensoria do Povo da Cidade de Buenos Aires em uma série de iniciativas voltadas para a comunidade travesti. Uma das primeiras iniciativas promovidas pela Defensoria do Povo foi o Informe preliminar sobre la situación de las travestis en la ciudad de Buenos Aires, em 1999, um relatório estatístico sobre as condições de vida das travestis da cidade. Entre 1995 e 2005, as organizações de travestis foram fortalecidas por meio do trabalho com outros grupos, da interação com a academia e da articulação com diferentes partidos políticos. Por volta de 1995, a revista gay NX organizou encontros para discutir o problema das minorias sexuais no país, e grupos de travestis foram convidados a compartilhar suas experiências de vida. Esses encontros levaram a uma reunião nacional de ativistas organizada em Rosário, em 1996, pelo grupo local Colectivo Arco Iris, que é considerada um marco no movimento travesti, uma vez que convenceram amplamente os demais participantes a reconhecê-los como parte do movimento LGBT argentino mais amplo. A irrupção de travestis no ambiente acadêmico argentino ocorreu através do Colectivo Universitario Eros (CUE; em inglês: Eros University Collective), um coletivo estudantil da Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires (UBA), que foi pioneiro na teoria queer no país e permaneceu ativo de 1993 a 1996. Em 1997, membros deste grupo formaram a Área de Estudos Queer (AEQ; em inglês: Queer Studies Area) dentro do Centro Cultural Ricardo Rojas (também da UBA), e as ativistas travestis Lohana Berkins, Marlene Wayar e Nadia Echazú logo se juntaram. Segundo Berkins: “A nossa aparição no campo académico deu-se através do Grupo Eros, que incluía Flavio Rapisardi, Silvia Delfino, Mabel Bellucci, e que mais tarde se dissolveu. Depois formaram a Área Queer, onde também nos colocaram ao lado de um intelectual e começámos a argumentar, nos nossos termos, com as nossas capacidades, mas começámos a argumentar.”
Durante o final da década de 1990 e início da década de 2000, ativistas travestis alegaram sentir-se "invisíveis" pelo movimento LGBT em geral, que se concentrava principalmente na aprovação de uma lei de união civil. Como resultado, o grupo de ativistas travestis liderado por Berkins estava mais próximo dos movimentos feminista e pelos direitos das trabalhadoras do sexo. Em um caso histórico de 1997, Mariela Muñoz tornou-se a primeira pessoa transgênero a ser oficialmente reconhecida pelo Estado argentino e obteve a guarda de alguns dos filhos que criou. Esse distanciamento também se deveu à reconfiguração do movimento LGBT local em resposta à epidemia de HIV. Seguindo as políticas internacionais de prevenção contra o vírus, foi criada a categoria de "homens que fazem sexo com homens" (HSH), na qual as travestis foram incluídas. O grupo ALITT de Berkins opôs-se a esta definição, alegando que esta prejudicava a luta pela sua identidade, enquanto a ATTTA, por outro lado, solicitou e geriu recursos para financiar projetos de prevenção centrados nos HSH. Estes esforços da ATTTA ocorreram em paralelo com a sua articulação com outras ONGs locais que trabalham com o VIH/SIDA, como a Nexo e a Fundación Buenos Aires Sida.
Em 2004, a OTTRA foi dissolvida após a morte de Echazú, devido a complicações decorrentes do HIV/SIDA.
2005–presente: Hoje, a ATTTA — que acrescentou mais dois “T”s para “transexual” e “transgênero” em seu nome — e a ALITT são os dois grupos ativistas travestis com a trajetória mais longa e incidência política no país.
Entre 2010 e 2012, uma estratégia judicial foi conduzida conjuntamente pela ATTTA e pela equipe jurídica da Federação Argentina LGBT (FALGBT), resultando em uma série de recursos judiciais que estabeleceram precedentes no reconhecimento das identidades de travestis e transgêneros. Em 9 de maio de 2012, o Congresso Nacional Argentino aprovou a Lei de Identidade de Gênero (Ley de Identidad de Género), que tornou o país um dos mais progressistas do mundo em termos de direitos transgêneros. Ela permite que as pessoas alterem oficialmente suas identidades de gênero sem enfrentar barreiras como terapia hormonal, cirurgia, diagnóstico psiquiátrico ou aprovação judicial. A lei foi celebrada como uma grande vitória para o movimento LGBT local. No entanto, a ativista Marlene Wayar logo criticou a lei, alegando que as travestis só podem optar por mudar seu gênero legal para "feminino", um desrespeito à sua identidade percebida.
Desde a implementação da Lei de Identidade de Gênero, ativistas têm se empenhado na busca pelo reconhecimento legal de gêneros não binários, como travestis. No início de 2020, a ativista Lara Bertolini ganhou destaque ao reivindicar que seu documento de identidade nacional fosse legalmente registrado como "feminilidade travesti" (em espanhol: femineidad travesti). Inicialmente, ela obteve uma decisão favorável de um juiz de Buenos Aires, que foi posteriormente rejeitada pela Câmara de Apelações (em espanhol: Cámara de Apelaciones), cujos três juízes citaram a definição oficial de "travesti" da Real Academia Espanhola como justificativa. Em julho de 2021, o país tornou-se o primeiro na América Latina a reconhecer identidades de gênero não binárias em seus documentos de identidade e passaportes, permitindo a escolha da letra X como uma terceira opção além de masculino (M) ou feminino (F). A medida foi criticada por vários travestis e ativistas não binários, que dizem que a letra X torna as suas identidades invisíveis e que na verdade reforça o binarismo ao marginalizá-los.
Em 24 de junho de 2021, o Senado argentino aprovou a lei de cotas de emprego para travestis e trans (em espanhol: cupo laboral travesti-trans), que estabeleceu que o Estado deve contratar pelo menos 1% do quadro de funcionários da administração pública para travestis e pessoas trans. O nome oficial da lei é Lei de Promoção do Acesso ao Emprego Formal para Travestis, Transexuais e Pessoas Transgênero "Diana Sacayán - Lohana Berkins" (em espanhol: Ley de Promoción del Acceso al Empleo Formal para Personas Travestis, Transexuales y Transgénero "Diana Sacayán - Lohana Berkins").
Movimento brasileiro: O ativismo travesti — inserido no movimento mais amplo pelos direitos das pessoas transgênero — tem sido marcado por tensões e diferenças em relação aos grupos que se identificam como transexuais. Historicamente, a criação de organizações travestis seguiu um de dois modelos: por um lado, por auto-organização e, por outro, a partir da atuação de ONGs ligadas ao movimento homossexual ou ao movimento de combate à AIDS. No final da década de 1990, surgiu no Brasil o ativismo orientado para a identidade de gênero, que adotou os termos "trans" e "transexual" por recomendação de ativistas estrangeiros. A realização e a demanda por cirurgia de redesignação sexual são recorrentemente utilizadas como fator distintivo entre os dois grupos, sendo os travestis aqueles que optam por não alterar seus genitais. A Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) foi fundada em 2000 e permanece a principal organização do movimento transgênero em nível nacional. Em 2003, as travestis continuavam sub-representadas no movimento LGBT em geral, bem como no crescente "mercado rosa" brasileiro, uma vez que este enfatiza a estética de homens gays masculinos. Como resultado, o movimento travesti brasileiro emergente das décadas de 1990 e início de 2000 desenvolveu-se principalmente por meio de financiamento relacionado à AIDS, o que resultou no surgimento de suas próprias organizações, programas e espaços formais. O envolvimento de travestis na resposta brasileira à pandemia de HIV/AIDS remonta a meados da década de 1980, quando a travesti paulista Brenda Lee fundou um centro de apoio a travestis vivendo com o vírus. O número de programas liderados por travestis e relacionados a travestis no país cresceu de alguns poucos no início da década de 1990 para aproximadamente vinte no início dos anos 2000. Em um discurso de 1996, Lair Guerra de Macedo Rodrigues — ex-diretor do Programa Nacional de Doenças Sexualmente Transmissíveis e AIDS do Brasil— afirmou: “A organização de grupos de travestis, especialmente após o advento da AIDS, é evidência do início da árdua tarefa de defender a cidadania.”
Em 2005, foi fundado o Coletivo Nacional de Transexuais (CNT), voltado para a questão transexual, que progressivamente se afastou dos espaços do movimento LGBT em direção a grupos de direitos das mulheres. O CNT foi alvo de críticas e acusações de divisão dentro do movimento trans e foi criticado por ativistas travestis por sua "falta de compromisso político". Em dezembro de 2009, o XVI Encontro Nacional de Travestis e Transexuais (ENTLAIDS) — realizado no Rio de Janeiro — foi marcado por um intenso debate sobre a "definição política" das categorias "travesti" e "transexual" dentro do movimento mais amplo pelos direitos das pessoas transgênero. O evento ocorreu após a dissolução do CNT e o subsequente envolvimento de muitos de seus membros com a ANTRA. A ativista Luana Muniz foi a voz mais reconhecida na defesa da identidade travesti durante o encontro, tendo apontado as diferenças de classe social envolvidas na delimitação das categorias "travesti" e "transexual". Em 2018, Muniz definiu ser travesti como "ser ousada, ter o prazer de transgredir o que dizem ser normal".
Outras ativistas travestis notáveis incluem Majorie Marchi, Keila Simpson, Amara Moira, Indianara Siqueira, e Sofia Favero.
Ao contrário de países como a Argentina, onde existe uma lei de cotas para travestis e pessoas trans na administração pública, o Brasil está longe de institucionalizar a inclusão laboral da comunidade trans, embora existam muitos projetos liderados por travestis, como o Transgarçonne, uma iniciativa da Universidade Federal do Rio de Janeiro; o Capacitrans, fundado por Andréa Brazil; e o TransEmpregos, criado por Márcia Rocha, a maior plataforma de empregos para pessoas trans do país.
Movimento chileno: Em 22 de abril de 1973, um grupo de jovens travestis reuniu-se na Plaza de Armas em Santiago, realizando o primeiro protesto de diversidade sexual na história do Chile.
Uma figura chave no movimento travesti chileno e na cena cultural é a poetisa Claudia Rodríguez, que iniciou sua carreira ativista na década de 1990.
Movimento paraguaio: O Paraguai é um dos países mais restritivos da região no que diz respeito aos direitos das pessoas transgênero. As primeiras manifestações de travestis e mulheres trans ocorreram no final da década de 1990 e início da década de 2000, principalmente para defender suas paradas (os locais onde o trabalho sexual é realizado) e para protestar contra os maus-tratos policiais e o assassinato de seus pares.
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| Imagem de Yren Rotela, Plaza de la Democracia, 8 de março de 2018. Foto tirada por Jess Insfrán Pérez. |
Yren Rotela é uma das figuras de proa do movimento paraguaio pelos direitos de travestis, transgêneros e transexuais, tendo fundado a associação Panambí em 2009, da qual foi presidente até 2017. Ela também inaugurou a Casa Diversa em 2019, que além de ser um lar, é um centro comunitário para a diversidade sexual. Quando questionada sobre suas referências locais, ela respondeu: “Não posso esquecer os sobreviventes da ditadura que me ensinaram muito: Liz Paola, Peter Balbuena, Carla. Mas acima de tudo, meus companheiros assassinados são sempre meus grandes líderes, meus maiores exemplos de luta.”
Outras ativistas travestis ativas hoje são Alejandra Grange, Fabu Olmedo e Reny Davenport. No âmbito internacional, as principais referências do movimento são da Argentina, incluindo Diana Sacayán, Lohana Berkins, Marlene Wayar, Marcela Romero, Diana Zurco, Camila Sosa Villada, Susy Shock e Alma Fernández. Em uma entrevista de 2020 ao veículo de mídia independente mexicano Kaja Negra, Alejandra Grange — fundadora da organização Transitar e do programa Radio Travesti — afirmou:
“Para mim é muito importante dizer que sou travesti porque é uma palavra que nasceu no contexto latino-americano que estamos ressignificando, pois era um termo médico, um homem que se veste de mulher para obter satisfação sexual e todas essas coisas. Mas não é isso. Para mim, quando digo que sou travesti, estou dizendo que isso é resistência, para mim isso é felicidade, é luta, é estar com meus amigos, é uma forma de dizer japiró ao sistema, [expressão guarani de raiva e fúria] vá para o inferno, porque posso existir dentro de tudo isso.”
Movimento uruguaio: O ativismo travesti uruguaio surgiu na década de 1990, durante as presidências neoliberais de Luis Alberto Lacalle e Julio María Sanguinetti, que “promoveu um modelo de integração subordinada da dissidência sexual ancorado na noção de tolerância”. Nesse contexto, as reivindicações da Mesa Coordinadora Travesti e, posteriormente, da Associação Trans do Uruguai, concentraram-se na conquista de “direitos negativos”: o fim da discriminação e da perseguição policial. Em 2002, foi aprovada a lei sobre o trabalho sexual, legalizando a atividade e enfraquecendo a vigilância policial nas ruas. Durante os governos progressistas da Frente Ampliada, a conquista dos “direitos positivos” foi alcançada: em 2009, foi aprovada uma lei que permite a alteração do gênero e do nome nos documentos de identificação e, em 2018, foi aprovada a Lei Integral para Pessoas Trans. Escrevendo para o jornal La Diaria em 2020, Diego Sempol e Karina Pankievich apontaram que “os debates sobre a [Lei Integral para Pessoas Trans] foram inscritos em pedra no imaginário social e formataram memórias trans na esfera pública”, levando ao surgimento de uma série de depoimentos que “romperam um longo silêncio que colocou em discussão o passado recente do Uruguai e os relatos oficiais de violência estatal [durante a ditadura cívico-militar]”.
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